08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A voz rouca das ruas


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Data vênia máxima, dirijo-me ao presidente da República.

“Será que Vossa Excelência lembra-se ainda, quando da outorga da atual Constituição Federal ao país, no dia 1 de janeiro de 1989, mas promulgada no dia 5 de outubro de 1988 pela Assembléia Nacional Constituinte, das palavras usadas pelo seu presidente Ulysses Guimarães afirmando que aquela era “uma Constituição Cidadã”, que ia ao encontro dos anseios dos mais humildes e, por isso mesmo, ela era a portadora da “voz rouca das ruas”? Com certeza nosso presidente lembra-se dos nomes que compunham o Congreso Nacional de então, não é mesmo? Embora também constituinte, o então deputado Lula não conseguiu se destacar, a despeito de seus quase 680.000 votos. Aquele, senhor presidente, era um Congresso Nacional! Não esse que apóia seu governo em troca de benesses que todos os dias a mídia noticía. Lembra-se, presidente?

Pois bem, Excelência: a vaia que o senhor ouviu em pleno Maracanã lotado, quando da abertura destes Jogos Pan-Americanos e que inclusive impediu que o presidente do Brasil declarasse abertos os jogos que sediamos - o que já é tradição desde a primeira versão desses jogos, em Buenos Aires - é exatamente a “voz rouca das ruas”, à qual se referira o saudoso Ulysses Guimarães... Como numa catarse, Vossa Excelência perdeu a sua voz e não cometeu a ousadia de dirigir-se ao seu povo, de onde Vossa Excelência faz questão de lembrar que veio. As razões que levaram a multidão a vaiá-lo, impedindo seu pronunciamento, ninguém melhor que Vossa Excelência pode atinar com elas.

Compreendo, entretanto, o que o inibiu, presidente! Acostumado aos paparicos e bajulações dos que o rodeiam com freqüência, como em um verdadeiro transe, o senhor caiu na realidade dura, nua e crua de qual seja o seu conceito junto aos mais bem informados, que compunham a imensa maioria dos presentes naquela festa de abertura. E assim será doravante: quanto menos bolsas-família, mais vaias! Quanto mais bolsas-família, menos vaias! O presidente certamente sabe, melhor que eu, porque mais benesses em determinadas zonas que em outras! Quem sou eu, Excelência, para lhe aconselhar??!! Mas arrisco assim mesmo: procure freqüentar mais o Nordeste porque, proporcionalmente, é la que se distribui, ao seu bel-prazer, o maior número dessas suas benevolências, de uma maneira “como nunca, jamais se viu neste País”! Ah!... Já ia me esquecendo, presidente Lula: aquela “Constituição Cidadã”, que representava e ainda representa a “voz rouca das ruas” e com a qual hoje Vossa Excelência governa, não foi assinada pela bancada do PT, da qual fazia parte o Deputado Federal Lula, então lider do PT, porque era “excessivamente capitalista”, conforme o partido político do qual o senhor era presidente, e ainda hoje é presidente de honra, fez divulgar por e para toda a nação!

Sinceramente, presidente: este país não merece tanta “caraduragem”! Mas o senhor merece as vaias que “os mais bem informados, os verdadeiros formadores de opinião” lhe dirigiram, em pleno Maracanã, e sabe as razões! Pense nisso... Afinal, o senhor é o presidente de todos os brasileiros! Respeitosas saudações. Tenho dito!”

João Guilherme Ortolan