Eu poderia ouvir e calar-me, protestar em forma de silêncio, vestir o negro e viver um dia de luto, talvez sair por aí batendo lata para esconjurar o avesso das coisas ou organizar uma greve... Quem sabe de fome! Qual nada! Tudo que me resta são as palavras, única arma contra disparates. Minha escrita é solitária, mas a indignação, é coletiva.
Por isso, me atrevo a falar em nome de muitos educadores que, talvez, como eu, sentiram-se ofendidos, com as declarações da diretora do departamento municipal de educação infantil, Márcia Zwicker Di Flora, na matéria do dia 19 de julho, desse conceituado jornal, que enfatiza: “Se considerarmos que a criança da educação infantil fica três horas e meia com os professores, sendo meia hora em atividades recreativas e meia hora de lanche, sobram duas horas e meia para se trabalhar os conteúdos das áreas de conhecimento.”
Ora... Então o brincar não é um conteúdo a ser trabalhado? A partilha na hora do lanche não traz nenhum conteúdo? A escola de educação infantil ainda é um espaço para que os pais deixem seus filhos para irem trabalhar? O que é garante uma educação de qualidade? Que concepção de educação está por trás disso tudo?
O brincar é uma linguagem e também nossa primeira forma de cultura, é algo que pertence a todos e que nos faz participar de ideais e objetivos comuns. Enquanto brinca, a criança simboliza, aprende a lidar com regras, cooperar com o outro, pensar, refletir, organizar-se internamente para aprender. Essa vivência é muito importante, uma vez que o futuro sucesso das experiências culturais adultas dependerá da confiança construída e adquirida a partir de experiências boas na infância. Nesse sentido, o brincar não tem função apenas de recreação, brincar é o grande canal para o aprendizado, senão o único canal para verdadeiros processos cognitivos.
Brincar é coisa séria. Para Marina M. Machado “Brincar é, para a criança, o que trabalhar deveria ser para o adulto: fonte de autodescoberta, prazer e crescimento. Se os adultos ao redor fossem pessoas mais felizes no trabalho, podendo fazer a ponte entre a atividade lúdica da criança e a possibilidade lúdica do trabalho, as crianças não cresceriam dividindo ciência e poesia, arte e conhecimento, trabalho e lazer, dias de semana e finais de semana, e os adolescentes, talvez, poderiam ter menos medo e mais vontade de participar da comunidade adulta, se enxergassem adultos mais inteiros internamente e integrados socialmente, trabalhando no que gostam e procurando enriquecer, humanizar e personalizar a realidade, o que as crianças, normalmente conseguem por meio de suas brincadeiras”.
Mas, será que todos os profissionais da educação infantil têm conhecimento da importância do brincar? Por que, nós, educadores da ativa, sabemos bem diferenciar a recreação do brincar e para ter clareza dessa diferença é preciso ter um olhar apurado e pedagógico para esse conteúdo, respeitar as características da criança pequena, seus interesses e necessidades, e ter claro a concepção de educação, criança, ensino e aprendizagem para se ter uma educação de qualidade. Sendo assim, é conveniente lembrar que a qualidade tem diferentes leituras, pode ser analisada de diferentes pontos de vista, porém, aceitar e respeitar tais diversidades não nos deve fazer esquecer de como é difícil ter uma idéia completa o suficiente de ensino de qualidade, portanto, é bom sermos prudentes na hora de propor estratégias de melhoria de qualidade de ensino nas escolas.
Posso assim, garantir, que eu e os demais educadores da educação infantil, não dedicamos duas horas e meia para trabalhar conteúdos da área de conhecimento, pois todo trabalho exercido com nossos alunos, são considerados conteúdos da área de conhecimento e de extrema importância para o pleno desenvolvimento das crianças. Tomara que esse protesto nos leve a uma grande transformação, porque do jeito que está... nós não aceitamos e exigimos uma retratação.
Sonia Maria Pinheiro - professora Soninha