07 de julho de 2026
Bairros

Braços da periferia edificam a cidade

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Na última semana, após mais de 40 dias de estiagem, a chuva decidiu dar o ar da graça em Bauru. Talvez querendo compensar o longo período de ausência, ela resolveu ser generosa - foi tanto, que acabou exagerando. O aguaceiro não deu trégua durante dois dias seguidos. No terceiro, a cidade permaneceu encoberta pelas nuvens escuras, sob constante ameaça de novos temporais. O fim da estiagem foi péssimo para os quase 10 mil pedreiros e ajudantes de obra que vivem e trabalham na cidade (dados do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civil de Bauru e Região).

Na quarta-feira, por exemplo, quando a chuva já havia acalmado e sol ensaiava um retorno meio tímido, a cena que se via pelos bairros de Bauru era a mesma: canteiros de obras vazios, máquinas paradas, ferramentas guardadas e um silêncio tremendo.

Sentados numa pilha de telhas romanas em frente a uma obra no Jardim Terra Branca, os amigos Antônio Rodrigues e Ivo Moreira olhavam apreensivos para o céu carregado. “Temos que esperar. Fazer o quê? Se a gente começar a trabalhar e der uma chuva, vamos perder todo o nosso serviço”, ponderava Rodrigues, 43 anos, morador do Jardim Ouro Verde (zona sudoeste de Bauru).

Em outros locais da cidade, ainda era possível se avistar um ou outro mais corajoso tentando desafiar o tempo. Agachado no interior de um buraco em uma calçada da avenida Duque de Caxias, marreta e talhadeira à mão, João Miguel Monteiro, 42 anos, tentava adiantar um serviço que se encontrava paralisado desde a semana passada.

Morador do Jardim Eldorado, Monteiro tinha de se virar sozinho, pois seu ajudante resolveu não comparecer ao serviço. “Passei na casa dele para buscá-lo, só que ele disse que não estava a fim de trabalhar com um tempo desses”, contou. Em geral, profissionais da construção civil podem se dar ao luxo de decidir quando e como querem trabalhar.

É que a maioria deles é autônoma e atua na informalidade. Tanto o Sindicato dos Trabalhadores quanto o das Indústrias da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon) estimam que, atualmente, mais metade dos profissionais do setor não tenha registro em carteira no município.

Isso eqüivale a dizer que aproximadamente 5.000 pedreiros e serventes se encontram na informalidade em Bauru. A maior parte dessas pessoas vive na periferia e aprendeu aquilo que sabe na prática. São deles os braços que levantam a cidade que não tem limites - pelo menos, é isso que eles fazem nos dias ensolarados.

Incertezas

Embora dê mais liberdade aos profissionais, o trabalho autônomo e informal traz diversos inconvenientes aos serventes e pedreiros. O pior deles é não poder contar com o amparo do Estado nas ocasiões em que são obrigados a ficar afastados do serviço.

Monteiro, por exemplo, precisou recorrer à ajuda de amigos para conseguir se manter, em decorrência de uma acidente sofrido há cerca de dois anos. Embora, atualmente, até mesmo os empresários demonstrem boa vontade em formalizar a situação dos funcionários, serventes e pedreiros que atuam como autônomos não parecem estar muito interessados em regularizar a própria situação.

Prova disso é que apenas 490 dos quase 5.000 profissionais autônomos do setor encontram-se cadastrados na Prefeitura de Bauru. Além de ficar desamparados nos momentos de dificuldade, trabalhadores informais autônomos ainda são obrigados a conviver com a constante ameaça do desemprego.

Quando uma obra chega ao fim, os trabalhadores nela envolvidos têm de se virar para arranjar uma nova fonte de sustento. Situações como a do azulejista bauruense Andrei Francisco Lúcio Maciel, 33 anos, são raras na cidade. Além de viver com a agenda lotada - motivo pelo qual ele não sabe o que é tirar férias há quatro anos -, o construtor é capaz de obter uma renda mensal de, aproximadamente, R$ 3.000,00.

Em Bauru, pedreiros costumam ganhar, em média, R$ 650,00, ao mês; trabalhando como autônomos podem receber até R$ 1.500,00, caso obtenham algum tipo de qualificação ao longo da carreira.

Até o presente momento, porém, é praticamente inviável para um profissional de Bauru conseguir uma especialização, pois a cidade não conta com cursos profissionalizantes voltados para a área da construção civil.

Para se aperfeiçoar como azulejista, Maciel precisou recorrer a palestras e workshops oferecidos por empresas de outras localidades do Estado. Dentro em breve, contudo, essa situação poderá se alterar. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de Bauru está prestes a inaugurar um núcleo de tecnologia da construção na cidade. O local, que oferecerá cursos gratuitos aos profissionais da área, entrará em funcionamento em janeiro do ano que vem.