09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

17 de julho: um ponto final para centenas de vidas


| Tempo de leitura: 3 min

Nesse momento, escrever é quase uma necessidade... um sentimento de ansiedade tão forte no peito que parece querer encontrar alívio numa folha de papel... eu que não raras vezes rascunho mensagens de felicidade, otimismo e superação, hoje sinto o coração na ponta dos dedos numa ânsia dolorosa por colocar numa folha o sentimento de dor... dor de consternação... dor de quem é mãe, filha, esposa... dor de quem é amiga...

É madrugada.... e enquanto escrevo na tranqüilidade do meu lar, sabedora de que minha filha agora dorme no quarto ao lado, assim como meus pais e meu marido, embora distante, centenas de famílias choram a dor de uma perda e diante dela – dessa dor tão resistente a qualquer palavra - a minha dor... dor de consternação, parece insignificante...

Embora ainda sem absoluto grau de certeza, os sinais indicam que a queda do avião da TAM, ontem apenas, dia 17 de julho... há pouco mais de sete horas, transformou em cinzas os sonhos de centenas de vidas humanas e de centenas de famílias...

No Jornal da madrugada, o apresentador faz a leitura dos primeiros nomes de vítimas identificadas... cada nome corresponde a uma vida perdida... nomes que para milhares são apenas nomes, mas para centenas... são tudo... Pessoas como eu, que planejavam dormir esta noite, acordar, trabalhar, estudar... que planejavam viver e cujas vidas, cujos planos e sonhos foram abrupta e brutalmente interrompidos...

À consternação, mistura-se a dor da impotência e a consciência da fragilidade da vida.... vida que não raras vezes vivemos tão afoitamente... em busca de formação, sucesso profissional... resultados materiais que são necessários... mas certamente não são tudo... e é diante da tragédia, é diante da imagem de uma mãe entregue à dor, no chão de um aeroporto chorando a morte de dois filhos ...que de repente paramos para refletir como incrivelmente seríamos capazes de trocar todo o resultado material que alcançamos simplesmente pela tranqüilidade de saber que nossos filhos dormem em segurança, exatamente no quarto ao lado e que na manhã seguinte poderemos desejar um “Bom dia, filho”... ralhar... repreender... exigir.... torcer... porque assim é a vida...

Às vezes - e de novo vejo-me diante da necessidade de escrever “não raras” - é somente diante da perda que sentimos aflorar a consciência do quanto amamos tantas pessoas ao mesmo tempo... A tragédia tirou da Terra a vida de diversos funcionários da TAM... colegas de trabalho... e a vida terá continuar para aqueles que retornarão ao trabalho sem ter aquele com o qual riu, brigou, ralhou, exigiu ou torceu durante meses, anos talvez.... exatamente na mesa ao lado...

No dia seguinte... ao chegar ao trabalho... di sse “bom dia” e direi também a todos: “Que bom que vocês estão todos aqui”!!! Nem todos entenderão, mas eu saberei exatamente a extensão do que estou dizendo...é uma forma de dizer que os amo!!!

Gostaria de ter o poder de levar a mão ao coração de todos aqueles que agora choram a morte abrupta daqueles que amam, fruto desta tragédia que consterna todo um país, e depositar ao menos um pouco de alento...Sei que não posso...e só me resta pedir àquele que é o Senhor de Todos os Homens...Fonte de Luz... não por mim, mas por aqueles que choram enquanto escrevo...que lhes dê conforto para enfrentar a dor da perda. Amém.

Simone Regina de Souza Kapitango-a-Samba - RG 28.109.526-7