09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: Caçada mal sucedida – Parte 1*


| Tempo de leitura: 3 min

“- Felisdeu e Aldo, venho convidá-los a participar de uma caçada comigo, esta noite. Tenho dois estaleiros armados a uns quatro quilômetros rio abaixo, é emocionante e imprevisível. Não sabemos que espécie de animal vai aparecer; pode ser um simples tatu ou “coisa” maior”, falou o Etelvino.

“- Uma onça, por exemplo; não é isso que você quer dizer?, retrucou o Aldo de maneira irônica, uma vez que iria recusar o convite.

“- Pode ser. Levo uma carabina 44, o Felisdeu uma cartucheira 12 e você, Aldo, uma garrucha ¾, de dois canos e chumbo 2 -T; apesar de curta é uma arma de impactos devastadores.”

“- Nem de metralhadora eu iria; uma porque não gosto de caçar, outra, não sei lidar com arma de fogo e, por último, passar noite toda em cima de uma árvore, “engarranchado” em alguma forquilha, sem enxergar um palmo sequer, além do meu nariz? Não, obrigado.”

O rio Tupano é largo, dificilmente são encontradas barracas ou praias disponíveis; suas margens estão praticamente cobertas por espessa vegetação de árvores majestosamente frondosas, de copas tão altas e abrangentes; para vê-las, somos obrigados a inclinar para trás nossas cabeças, a ponto de nos desequilibrarmos.

Igual à maioria dos rios amazônicos, muitos sombreados e poucas corredeiras, as sedimentações de toneladas de folhas jogadas pelos ventos em suas águas vão se decompondo, deixando-as turvas, até se diluírem por completo, nos oceanos afora.

Ao entardecer, o Etelvino chega com seu barco; descemos o rio alguns minutos e aportamos. O local era realmente isolado e impressionante, talvez nunca pisoteado por alguém, além do Etelvino e seus amigos caçadores, adeptos que eram desse esporte, proibidos há vários anos.

Os jiraus feitos de galhos irregulares e tortos, amarrados com cipós, eram tão pequenos e mal feitos que dava medo que eles desabassem, pesados que eram, num possível confronto com algum animal selvagem de porte mais avantajado.

“- Felisdeu, este é o seu jirau; em qualquer dúvida dê dois tiros para o alto e logo estarei aqui.”

“- Pera lá, Etelvino, e você aonde vai ficar?”

“- A duzentos metros e tanto.”

“- E eu?”

“- Você fica aqui mesmo, a linha de tiro está livre de galhadas que poderiam atrapalhar sua visão, agora é só caprichar no tiro.”

“- Eu, sozinho aqui? Você está é maluco.”

“- Não tem perigo, o jirau fica a dois metros de altura e para subir temos uma escada de corda.”

“- Escada de corda funciona só em circo, não serve como segurança; se eu errar o tiro, qualquer onça me arranca do estaleiro com uma patada.”

“- Mas você está armado com uma espingarda calibre 12.”

“- E se na hora do aperto eu me esquecer dela?”

“- Então peça a Deus para deixar a porta do céu aberta; talvez, ainda nesta noite, você terá de adentrá-la, tão ligeiro como se estivesse correndo da polícia.”

“- Está bem, vamos lá...”

Subi com dificuldade; juntei meus reduzidos pertences, de modo a serem encontrados, mesmo às escuras, a carabina, com a lanterna presa ao seu cano à minha direita; a sacola o cantil e uma capanga, contendo meu lanche, à esquerda.

Acomodei-me num galho que servia de banco e aguardei; o relógio marcava 21h. Daí em diante, o silêncio teria de ser completo, a ponto de ouvir apenas minha respiração.

Ventinho beirando a frio no inverno de julho de 1974 batia suavemente em minhas faces, instigando-me a breves cochilos, mas em nenhum momento cedi, permanecendo-me o tempo todo nessa temerosa vigília.

Continua na próxima semana.

Felisdeu Leão é pescador e contador de histórias.

* Trecho retirado do livro “Transamazônica”, no prelo.