08 de julho de 2026
Geral

Albergue pode fechar no final do ano

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Uma das instituições filantrópicas mais antigas de Bauru, o Albergue Noturno, pode fechar as portas a partir de dezembro. O assunto está sendo discutido nos bastidores do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), que mantém o órgão, e da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes). O problema é financeiro. Atualmente, o albergue recebe da Sebes verba que cobre 1/3 das despesas. O repasse, que a cada ano é menor, está há cinco anos sem reajuste, o que inviabiliza o trabalho, segundo o Ceac.

Mensalmente, passam pelo albergue cerca de mil pessoas e são servidas 1.200 refeições, tanto no almoço quanto no jantar. Muitos dos atendidos são migrantes, ou seja, pessoas que saem de uma cidade para outra em busca de trabalho, de uma vida melhor. No albergue, eles podem tomar banho, comer e dormir por um número de dias que depende da situação de cada um - normalmente são três dias.

Mas o presidente do Centro Espírita Amor e Caridade, Richard Simonetti, ressalta que a discussão sobre o fechamento do albergue ainda não está encerrada e até o final do ano poderá mudar. “O assunto ainda está em discussão. A gente está conversando com a Sebes. A nossa idéia é fazer outro tipo de trabalho e isso não quer dizer que vamos fechar o albergue, embora já tenhamos comunicado a nossa intenção”, conta.

Na opinião dele, o albergue, como em inúmeras cidades, deveria ser administrado pela prefeitura. “Em São Paulo, são 18, todos mantidos pela prefeitura. Aqui, quem mantém é o Centro Espírita Amor e Caridade. A prefeitura dá uma ajuda e a cada ano esse auxílio está menor. Arcando com todas as maiores despesas, o Ceac fica numa situação desconfortável financeiramente. Aumentam cada vez mais as despesas enquanto diminui a verba”, frisa.

Ontem à tarde, Pedro Luiz da Silva, 69 anos, aguardava a sopa sentado no degrau de entrada de uma loja em frente ao albergue. Apesar de estar com um saco plástico nas mãos, no qual carregava alguns pertences, ele disse que tem casa, mas vai todos os dias ao albergue para se alimentar.

“Não pode ficar sem isso na cidade, de jeito nenhum. Eu como aqui porque não pago nada”, declarou ele à reportagem ao ser informado da possibilidade de encerramento das atividades da entidade.

Já Luís Antonio Pedro, 41 anos, que também estava no albergue ontem, pernoita na entidade há nove meses, desde quando chegou de São José do Rio Preto em busca de oportunidades. “Meu sonho é aprender computação e eu vou fazer um curso aqui em Bauru. Sem computação, a pessoa não arranja serviço”, opina, sorridente. Ele participa do projeto Casa de Convivência, que é vinculado ao albergue e faz oficinas de costura, elétrica, marcenaria e trabalhos artesanais com materiais recicláveis. “Se fechar o albergue, vou ter que voltar para a minha cidade”, diz, receoso.

Trens

No passado, quando Bauru era servida por trens de passageiros, o número de pessoas para pernoite no albergue era maior porque muitos migrantes chegavam à cidade pela ferrovia. Quando os trens de passageiros foram desativados, a demanda por pernoite caiu, mas na proporção inversa aumentou a procura por refeições por conta dos moradores de rua.

Diante dessa realidade, o Conselho Municipal de Assistência Social sinaliza há anos que o segmento migrantes é a última prioridade, para fins de rateio de recursos públicos. Sabe-se nos bastidores que, para o próximo ano, está prevista uma nova redução na verba repassada ao albergue, já que as prioridades da assistência social em Bauru são a família e a criança.

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Meio século

O Albergue Noturno foi fundado em 1951 no local onde funciona atualmente, na rua 7 de Setembro, junto ao Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac). Os serviços já foram da prefeitura quando ele funcionava na rua Rio Branco, próximo da Presidente Kennedy, ressalta o presidente do Ceac, Richard Simonetti.

O prédio que abrigava o albergue da prefeitura era muito velho e, com uma forte chuva que castigou a cidade, o ruiu.

“Ficamos sem albergue. O então prefeito Octávio Pinheiro Brisolla entrou em contato com a diretoria do Centro Espírita Amor e Caridade e a diretoria se propôs a fazer o albergue. Foi feita uma adaptação do imóvel do centro e ali se instalou o albergue, uma estrutura para 120 pessoas por noite”, conta.