05 de abril de 2026
Geral

Entrevista da semana: Uriel: uma vida dedicada ao próximo

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 11 min

Na tradição judaica, Uriel é o nome de um dos mais poderosos arcanjos, aquele que traz a luz e controla os trovões. Para os esotéricos, ele é o arcanjo dos serviços prestados, que protege e colabora com a evolução da Terra. Em ambos os casos, se este arcanjo realmente existir, ele deve estar orgulhoso do homônimo paulistano de nascimento, bauruense de coração.

Há 35 anos, o trabalho voluntário é mais do que uma atividade incluída na agenda do agente fiscal de renda Uriel de Almeida. É uma opção de vida, compartilhada com a família e muitos amigos com os quais atua para amenizar as dificuldades dos menos favorecidos.

Fundador do Irmã Sheilla, grupo vinculado ao Centro Espírita Amor e Caridade cujos membros confortam pessoas hospitalizadas e vice-presidente da Associação das Entidades de Assistência e Promoção Social de Bauru, Uriel é – como dizia o texto daquele comercial famoso - gente que faz. E faz sem alarde, orgulho ou demagogia.

Jipeiro light, apaixonado por Bauru, pessoalmente é um homem cuja nobreza de espírito transcende sua figura. Leia a seguir os melhores trechos da entrevista.

Jornal da Cidade – Como o senhor veio para Bauru?

Uriel de Almeida – Não sou nascido em Bauru mas me considero bauruense de coração. Nasci na Capital mas meu sonho sempre foi morar em Bauru, onde eu tinha raízes. Eu trabalhava em uma multinacional, a Olivetti e, naquela época, no final da década de 70, fiz um concurso para entrar na Secretaria da Fazenda, fui aprovado mas não tinha sido chamado. Eu queria vir para Bauru e pedi uma transferência na Olivetti para cá. As duas coisas ficaram pendentes e eu lembro que fui até uma fonte que tinha na Praça do Líbano e joguei uma moedinha pedindo a Deus que me permitisse realizar o sonho de morar aqui. Digo que foi a moeda mais bem aplicada da minha vida porque as duas coisas saíram. Em maio de 1979 consegui a transferência para Bauru e em 1982 fui nomeado fiscal de renda aqui.

JC – De onde vem sua ligação com a cidade?

Uriel – Meus avós eram daqui, tinha parentes. Vinha pra cá nas férias quando era criança, vinha de trem... adorava. Hoje quando passo na frente da estação ferroviária, dá uma tristeza. Nós abandonamos a estrada de ferro. Acredito que Deus tinha uma missãozinha para mim aqui em Bauru. Eu poderia ter sido nomeado para outras cidades, surgiram oportunidades de promoção para outros lugares e eu não quis ir. Gosto de Bauru do jeito que ela é, com os problemas que ela tem, com os buracos... Quando cheguei aqui procurei fazer um trabalho filantrópico na cidade por amor, para promover um pouco o bem-estar das pessoas que moram aqui. Me interesso muito pelos problemas sociais da cidade e acho lamentável que a cidade esteja perdendo as raízes. Por isso gosto tanto do trabalho que o Luciano Dias Pires faz com o “Bauru Ilustrado” resgatando a história da cidade. Bauru precisa de um espaço que preserve sua história para que ela possa ser contada permanentemente. Hoje temos um patrimônio que não pode ser perdido, que é o Aeroclube de Bauru.

JC – O que falta para Bauru?

Uriel – Está faltando garra, amor pela cidade. A primeira providência seria a união das lideranças políticas. Eu acho que Bauru tem que fazer um movimento urgente para eleger o máximo de deputados estaduais e federais. É preciso fazer um movimento de esclarecimento da população para que não se vote em candidatos de fora de Bauru. É preciso eleger filhos de Bauru. Já tivemos em uma mesma época dois deputados estaduais e um federal, o Abrahim Dabus e o Purini em São Paulo, e o Franciscato em Brasília. Foi em outra época, mas se não fossem eles naquele momento, nós não teríamos o progresso que tivemos. O que eu vejo, infelizmente, é muita divisão.

JC – Quando o senhor iniciou seu trabalho voluntário na cidade?

Uriel – Já tinha uma atividade voluntária em São Paulo. Nasci católico, mas minha família se tornou espírita quando eu estava entrando na adolescência. No espiritismo conheci minha esposa. Quando eu comecei a namorá-la, meu sogro era um líder espírita muito atuante em São Paulo e lá nos fazíamos trabalhos em favelas, procurávamos ajuda para as entidades. Na realidade entrei no trabalho voluntário por interesse, por amor, não ao próximo mas à minha esposa. Estava apaixonado – e ainda estou – e participava das campanhas para ficar do lado dela. Fui me sensibilizando e não larguei mais o trabalho voluntário. Quando cheguei aqui estava procurando uma entidade para atuar como voluntário quando fui ao Albergue Noturno. Cheguei para conhecer e já me colocaram para ajudar e estou lá até hoje. Hoje o Centro Espírita Amor e Caridade tem vários projetos sociais. O Albergue Noturno foi o primeiro. Bauru é uma cidade privilegiada. Eu percorria São Paulo atrás de doações e sei como era difícil. O povo de Bauru é extremamente solidário e responde muito positivamente às campanhas que as entidades filantrópicas sérias da cidade fazem. Tanto que hoje temos 80 entidades e aí há outro exemplo de Bauru para o Brasil. A trilha para chegar a Deus pode ser cheia de obstáculos ou pode ser suave. O trabalho voluntário proporciona chegar a Deus pelas trilhas mais suaves.

JC – O senhor é fundador do Grupo Irmã Sheilla...

Uriel – Esse grupo foi fundado em 1996. Havia uma senhora chamada Eva, líder comunitária do Geisel, que era do Cevac, e ela me chamou para acompanhar o caso de uma mulher internada no Pronto-Socorro, que na época estava em crise. Essa mulher havia sido atropelada e ficou vários dias em uma maca. A dona Eva me disse: “Uriel, nós precisamos fazer alguma coisa pelas pessoas hospitalizadas, que ficam sozinhas”. Aquilo ficou martelando na minha cabeça e com a ajuda dos irmãos da Maçonaria, iniciamos um trabalho de assistência fraternal, ou seja, ir tá lá falar com a pessoa, passar confiança, calor humano. Às vezes a simples presença, sem falar nada, basta. Hoje temos 400 voluntários trabalhando no Hospital de Base, Manoel de Abreu, Lauro de Souza Lima, Maternidade Santa Isabel e Casa da Criança do Paiva. Para manter tanta gente comprometida é preciso treinamento e motivação constantes, reciclagem e conscientização da importância do trabalho que está sendo realizado. Nós temos uma coordenadora que é meu braço-direito, esquerdo... Ela tem um talento todo especial para mexer com os voluntários, é a Rosa Pulls. Ela é o exemplo mais marcante de voluntário que, além de todas as dificuldades da vida, ainda encontra um tempo para trabalhar em benefício do próximo. Ela coordena o recrutamento e seleção dos voluntários.

JC – O senhor ainda trabalha na Secretaria da Fazenda. Como o senhor encontra tempo para o trabalho voluntário?

Uriel – O trabalho voluntário me toma o período da noite de todos os dias da semana. Visita em hospital, por exemplo, só faço à noite. Outros grupos fazem em outros horários. O final de semana é sagrado. No sábado, preferencialmente, cuido do jipe e no domingo cuido da casa, arrumo as coisas, tenho cachorros que eu adoro.

JC – E o tempo da família?

Uriel – As minhas filhas, quando eram pequenas, iam dar plantão comigo no albergue. Ajudavam a servir sopa... A minha mulher participa comigo no trabalho voluntário no hospital. É uma filosofia da família. Mesmo assim, às vezes penso, preciso ficar mais tempo com a minha família. É a hora de dar uma correção de rumo porque você não pode esquecer sua família. Não adianta ser um vencedor lá fora e um perdedor dentro de casa. É complicado, mas eu fico profundamente sensibilizado com o sofrimento do ser humano. Eu nunca acreditei que Deus fez o homem para sofrer. Deus fez o homem para ser feliz e quem vai promover a felicidade dos outros homens somos nós. E o que eu posso fazer? Arregaçar as mangas e dar o meu trabalho, mesmo que sacrificando um pouco do meu tempo com a família, para o benefício dessas pessoas que estão sofrendo. Eu me sinto contemplado com muitas benesses na vida então, naturalmente, devo devolver isso para a vida. Minha vontade é ainda fazer muito para próximo e em Bauru. Gostaria de dar mais contribuições para Bauru para que a cidade fosse mais feliz, sem crianças na rua, sem crianças fora de creches... Eu quero passar e deixar uma existência de realizações em benefício do próximo.

JC – Como o jipe entrou na sua vida?

Uriel – Eu aprendi a dirigir em um jipe, na fazenda onde o meu pai era administrador. Cresci, fui trabalhar e sempre tive carro normal. Quando mudei para Bauru fazia o trabalho nas favelas e, se no meio da cidade tem buraco, imagine nas favelas. Não dava para ir de carro levar cesta básica, roupa, doação... Daí apareceu um jipe e eu comprei para fazer o trabalho filantrópico. Hoje ele é minha ferramenta de trabalho na periferia, meu veículo do dia-a-dia, porque vou trabalhar com ele e nos finais de semana o coitado ainda serve para me divertir. Mas entre os jipeiros de Bauru eu sou dos mais lights. Não entro muito nas trilhas radicais porque se o jipe quebrar vou precisar consertar e na segunda-feira, quando for trabalhar, não vou tê-lo. Então o jipe entrou na vida por causa do trabalho filantrópico.

JC – Os jipeiros formam um grupo unido?

Uriel – Se você chega em uma cidade de jipe, você está em casa. É só procurar um jipeiro. É uma comunidade muito unida, no Brasil inteiro. Gosto muito de turismo ecológico e quando vou viajar por aí entro em contato por rádio com jipeiros dos lugares para onde vou. É tranqüilo. Agora a principal característica que uma pessoa precisa ter para participar de um grupo de jipeiros como o Jeep Clube de Bauru, do qual eu faço parte, é a não ser complicada. É saber levar as brincadeiras na boa. Quem não tem jogo de cintura acaba se isolando naturalmente. Outra coisa é a capacidade de conviver com gente das mais variadas idades. Tem muito jovem no clube e isso é muito estimulante.

JC – O Jeep Clube também faz um trabalho social...

Uriel – Quando eu entrei, o pessoal perguntava o que eu fazia rodando pelas favelas. Eu expliquei e assim nasceu a ala filantrópica do Jeep Clube. A nossa principal atividade é a entrega de cestas de Natal na zona rural. Na última campanha arrecadamos 15 mil quilos. O mais gostoso da campanha de Natal do Jeep Clube é a preparação dos kits de doces e brinquedos. A gente compra tudo separado, vai na casa de um dos companheiros e com a ajuda das famílias, faz uma linha de montagem para fazer os kits.

JC – Com o trabalho no centro, com o Jeep Clube, o senhor tem a oportunidade de entrar em contato com uma parte da população de Bauru que a grande maioria ignora ou desconhece. Do que essas pessoas mais precisam?

Uriel – A carência maior nem sempre está na favela. Já encontrei pessoas de altíssimo padrão econômico muito mais carentes que a pessoa mais pobre, em favela. Eu já visitei barracos em favelas muito mais felizes do que mansões que visitei na zona sul. Na favela há carência material, mas eles são muito solidários. Na sociedade “classe A” você vê dramas que as pessoas não comentam, que não saem na imprensa... Mas se formos falar de carência material da periferia, eu digo que é triste que Bauru tenha 80 entidades. O ideal seria que a cidade não tivesse nem uma. O ideal seria que o ser humano não precisasse viver do favor dos outros. Qual é o caminho? É o investimento em educação de qualidade, saúde, políticas públicas compatíveis com as necessidades de um modo geral.

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Perfil

Nome completo: Uriel de Almeida

Local de nascimento: São Paulo

Idade: 54 anos

Esposa: Miriam Sônia Piorkowsky de Almeida

Filhos: Aline (27 anos) e Mileni (25 anos)

Hobby: O jipe. É onde eu tiro o estresse da semana. E não é só andar, mas consertar, mexer, cuidar, enfeitar, fazer aquela manutenção preventiva...

Livro de cabeceira: Não tenho um especificamente, mas um que li recentemente e recomendo é “Quem Ama não Adoece” (de Marco Aurélio Dias da Silva). O autor é um médico que mostra que as pessoas que amam verdadeiramente o próximo não adoecem como as demais. Tem também os livros do Richard Simonetti, que gosto e o do padre Beto, “Sem Medo de Voar”, que sempre leio e releio

Filme preferido: “Patch Adams – O Amor é Contagioso”, com Robin Williams (direção de Tom Shadyac). Esse filme inspirou um pouco o trabalho do Grupo Irmã Sheilla

Estilo musical predileto: Gosto de vários tipos de música.., clássica, pagode, samba... só não sou muito chegado em rap. Agora tenho uma música que me marcou que é “Aquarius”, do musical “Hair”

Times de coração: São Paulo e Noroeste

Para quem daria nota 10: Sebastião Paiva

Para quem daria nota 0: Para o desinteresse da nossa população em unir forças para lutar por Bauru