09 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Pegue o seu balde e caminhe...

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Como faziam todos os dias, três vizinhas foram juntas buscar água no poço. Enquanto enchiam seus baldes, as mulheres conversam sobre seus filhos. “Meu filho”, dizia uma delas, “é tão inteligente e talentoso que não existe nada que ele não possa aprender ou fazer.” “Ah... Mas, meu filho”, dizia a segunda, “canta que é uma maravilha! Não existe ninguém na região que tenha uma voz tão bonita como a do meu filho.”

A terceira, porém, permanecia calada. Em um certo momento, as duas primeiras olharam para a amiga e perguntaram: “E você, o que diz de seu filho?” A mulher olhou para as amigas com um pequeno sorriso e disse: “Meu filho? Meu filho é um menino comum sem nada de muito especial...” As mulheres terminaram de encher seus baldes e se preparavam para voltar para casa. Foi então que os três filhos vieram em direção de suas mães. O primeiro se pôs de cabeça para baixo e começou a caminhar com as mãos. As mulheres gritavam entusiasmadas: “Esse menino é demais! Tudo ele consegue fazer!” O segundo começou a cantar. E as mulheres se comoveram por ouvir sua voz maravilhosa. O terceiro menino, porém, correu em direção de sua mãe, pegou os dois baldes cheios de água e os carregou para casa.

Sem dúvida alguma, a grande maioria dos seres humanos acredita em um ser superior que gerou este universo e nos deu o dom da vida. Independentemente do credo que professamos, de participarmos ou não de uma religião oficial, nós, seres humanos, acabamos sempre por desenvolver um relacionamento com aquele que costumamos chamar de Deus. A maneira de viver concretamente esse relacionamento em nosso cotidiano chama-se “espiritualidade”.

A espiritualidade é sempre algo de muito pessoal e se desenvolve de acordo com a cultura e a história de vida de cada ser humano. As religiões são caminhos de aprofundamento desse relacionamento com Deus e uma forma de vivê-lo coletivamente. Como a espiritualidade não pode ser algo artificial, a escolha de uma religião deve ser feita em total liberdade. Neste sentido, o pluralismo religioso não só é uma questão de direito, como também representa para os seres humanos uma riqueza saudável e frutífera. Porém, essa liberdade religiosa não pode deixar de ser acompanhada pelo senso crítico e, principalmente, pelo questionamento frente à ética produzida por uma determinada religião ou espiritualidade.

Na Antigüidade, sacrifícios humanos eram feitos para agradar os deuses; na Idade Média a Igreja Católica queimava pessoas condenadas por “heresia”; no final da década de 1970, o pastor evangélico Jim Jones realizou com mais de 900 fiéis um suicídio coletivo, como também o fizeram alguns grupos religiosos na Europa e na Ásia com a proximidade do ano 2000; em pleno século 21, algumas religiões ainda recusam a transfusão de sangue, colocando crianças e adultos em risco de perderem a vida.

Não somente esses casos extremos mostram como uma religião pode tornar-se instrumento de alienação ou de destruição da vida humana, como também muitas formas atuais de religiosidade estão longe de ser um caminho de libertação e de felicidade para o ser humano. Hoje em dia, encontramos, por exemplo, muitas pessoas que cultivam uma relação com Deus de extrema dependência. Principalmente no Brasil, tornou-se comum a busca do “Sagrado” para a solução de problemas do cotidiano como desemprego, doenças, a falência de pequenas empresas ou a impossibilidade do pagamento de dívidas.

Em uma visão cristã, Deus é um ser bom e nos ama como filhos; seu desejo é que sejamos todos felizes e que possamos nos realizar como pessoa. Mas ao sermos criados como seres livres, nos tornamos automaticamente sujeitos de nossa história. Dessa forma, Deus perdeu sua própria liberdade de atuação. Com certeza, Ele pode ser companheiro de nossa caminhada, pode nos ajudar a ter força interior, lucidez e disposição para vencer nossos obstáculos. Mas, se acreditarmos que Deus nos ajuda a arrumar um emprego, a curar uma doença ou a aumentar a conta bancária, temos que admitir que Ele está sendo extremamente incompetente ou terrivelmente injusto, pois a grande maioria de seus filhos não está sendo atingida por suas bênçãos.

Se milhões de crianças inocentes enfrentam, em nosso mundo, fome ou enfermidades horríveis é difícil acreditar que Deus atua na história aumentando o sucesso de minha empresa ou curando minha dor de cabeça. Acho mais fácil acreditar que nosso Deus sofre muito, não somente por acompanhar nossas dificuldades como também por ver seu nome ser utilizado e muitas vezes banalizado através de diversas práticas religiosas. Com certeza, Deus participa de nossa vida se estamos dispostos a caminhar com Ele. Mas, se somos seus filhos, devemos buscar a maturidade necessária para sermos independentes e caminharmos com nossas próprias pernas. Acredito que o desejo de Deus seja que cada ser humano “pegue seu balde e caminhe” em vez de ficar implorando por um pouco de água.