09 de julho de 2026
Regional

Seminário discute saúde e segurança no setor da produção do álcool

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Enquanto o setor sucroalcooleiro cresce na velocidade de um Concorde, motivado pela mercado em expansão, a preocupação com a saúde, segurança e meio ambiente do mesmo segmento caminha na velocidade de um Fusca. Para o presidente do Sindicato dos Químicos de Bauru, Edson Bicalho, o crescimento do mercado de trabalho é sinônimo de preocupação para os representantes dos trabalhadores, mas a prevenção não faz parte do vocabulário dos empresários.

Bicalho foi um dos participantes do 3.º Seminário sobre Segurança, Saúde e Meio Ambiente Envolvendo Produtos Químicos no Setor Sucroalcooleiro, onde questões sobre segurança no trabalho foram discutidas. O evento foi encerrado na última sexta-feira.

Para ele, “lamentavelmente” o setor sucroalcooleiro está crescendo desordenadamente. “Cresce focado nos fins comerciais, mas na área trabalhista e social deixa muito a desejar. Exemplo disso são as mortes nos canaviais, as lesões que acontecem diariamente no campo, os acidentes que acontecem na área industrial”, enumera Bicalho.

A busca que motivou o seminário é fazer com que o setor cresça com sustentação e lembre das demais áreas que envolvem o trabalho de produção do álcool. “Queremos um trabalho de prevenção de acidentes do trabalho. O patronal tem uma visão muito antiga. Para eles, investir na segurança é a morte. Eles querem aumento da produção, rentabilidade e muito lucro”, cita o sindicalista.

Para Fernando Vieira Sobrinho, da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), os riscos de manuseio de produtos químicos cresce na mesma proporção que aumenta a produção de álcool no País. “São mais pessoas expostas e a tendência é que diminua o número de trabalhadores com conhecimento dos riscos, já que são novas no setor. Por isso, acho válida as discussões e divulgação dos malefícios de alguns produtos usados na produção sucroalcooleira.”

A preocupação é compartilhada pelo coordenador do departamento de saúde e segurança da Federação dos Químicos do Estado de São Paulo, João Scaboli. “Estamos discutindo o que vem ocorrendo com os trabalhadores do setor. Sem conhecimento eles estão morrendo, adquirindo doenças irreversíveis e ficando com seqüelas, como a perda de dedos, mãos e até braços”, denuncia.

Na opinião dele, a preocupação em transmitir informações sobre prevenção deveria ser de todos os envolvidos. “Não só para os representantes dos trabalhadores, mas para os empregadores, governo e sociedade. Nosso objetivo é levar as informações para os profissionais que atuam nas empresas e amenizar a situação”, salienta Scaboli.

É nas destilarias de álcool que estão concentradas a atenção dos químicos, onde são utilizados os piores produtos para a saúde do trabalhador. “A nossa preocupação é com a parte de destilação. Os produtos que são usados para retirar a água do álcool são, em sua maioria, cancerígenos. Antigamente, era usado o benzeno, banido do mercado por ser altamente cancerígeno. Ele foi substituído por outro produto que também era cancerígeno,” comenta o presidente do sindicato dos químicos, Edson Bicalho.

A nova tática adotada pelas destilarias para se livrar do problema, segundo ele, é substituir o produto a cada dois anos. “Eles retiram do mercado um produto que estamos pesquisando os malefícios e colocam outro. Quando nós conseguimos concluir a pesquisas e provar que o produto é cancerígeno, eles já foram substituídos.”

Na parte de fermentação, também são usados bactericidas “fortíssimos”. “Chegamos a usar o pó-da-china. Nosso objetivo é estudar os produtos que estão sendo usados, mostrar a composição química dele e qual o mal que ele pode acarretar aos trabalhadores. Em seguida, procurar as empresas para negociar a retirada desses produtos do mercado. Muitos deles são proibidos na Europa, por exemplo, mas entram no Brasil com facilidade. Os trabalhadores manuseiam sem saber o que é”, afirma Bicalho.

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Perfil demográfico e epidemiológico

A Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), em convênio com a Fundação Jorge Duprat (Fundacentro), elaborou o perfil demográfico e epidemiológico dos trabalhadores na cultura da cana-de-açúcar, a partir das informações referentes aos Acidentes de Trabalho (ATs) registrados no meio rural paulista, entre 1997 e 1999.

O estudo demonstrou que, do total de acidentes do trabalho sofridos pela população envolvida em atividades rurais, 43% (24.843) ocorreram na cadeia produtiva da cana-de-açúcar. Para esses trabalhadores, o total de ATs registrados elevou-se em 4%, ao passarem de 8.186 para 8.517 eventos no período analisado.

Como no Estado de São Paulo o corte manual após a queimada ainda é adotado – processo que se mantém há séculos –, o desgaste físico e o número de ATs são necessariamente vultuosos, graças a postura física exigida para o corte da cana, do uso de ferramentas perigosas, como o afiado facão ou podão, da realização de atividades repetitivas e desgastastes e do transporte de material excessivamente pesado.

Além disso, o próprio ambiente de trabalho representa perigo ao trabalhador, uma vez que o submete à exposição prolongada ao sol, a chuvas e descargas atmosféricas, além da presença de animais peçonhentos.

Cerca de 85% dos trabalhadores acidentados no período eram homens, refletindo a composição majoritariamente masculina dessa categoria profissional. Grande parte deles (83,0%) tinha menos de 40 anos de idade e 60,0% ainda não tinham completado 30 anos. Essas proporções são superiores às observadas para os acidentes envolvendo os demais trabalhadores do meio rural (79,6% e 55,2%, respectivamente.