11 de julho de 2026
Cultura

Obra completa de Rodrigues de Abreu é resgatada pela Cultura, ABL e Grupo Prata

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 5 min

Até então relíquia de colecionadores, a obra do maior poeta de Bauru, “Poesias Completas de Rodrigues de Abreu”, uma coletânea de grande parte do trabalho de Rodrigues de Abreu, acaba de ser relançada. Os exemplares serão distribuídos a bibliotecas públicas, escolas e universidades, numa iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura, Academia Bauruense de Letras (ABL) e Grupo Prata. A ABL, familiares de Rodrigues de Abreu, autoridades de Capivari (onde o poeta nasceu), representantes do Poder Público de Bauru e do Grupo Prata, além do biógrafo do escritor, José Roberto Guedes de Oliveira, de Indaiatuba, se encontrarão amanhã em Bauru para celebrar o “renascimento” da obra.

O relançamento integra a programação de aniversário dos 111 anos de Bauru, quase a mesma idade que Rodrigues de Abreu completaria no próximo dia 27 de setembro se estivesse vivo: 110 anos. O empresário Alcides Franciscato fala sobre a iniciativa de patrocinar o resgate da obra: “É uma alegria, como de todo bauruense, vê-lo reeditado em um novo volume, marcando os 80 anos da morte do nosso ilustre poeta, no mesmo momento em que o Expresso de Prata também comemora os 80 anos de sua história e a nossa Bauru, ‘Cidade Coração de São Paulo’, os seus 111 anos”, escreve Franciscato na abertura do livro.

Com o projeto, a obra do poeta se tornará acessível a todos os interessados. “Não poderíamos deixar que uma grande obra da literatura poética, de um homem com talento ímpar, também bauruense de coração, Rodrigues de Abreu, corresse o risco de se perder no tempo e no espaço por falta de apoio”, diz o empresário.

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Imprescindível

Bauru estava prestes a perder parte de sua história. Dos 200 títulos originais da obra “Poesias Completas de Rodrigues de Abreu” - impressa em 1952 pela Companha Editora Panorama, de São Paulo -, havia poucos exemplares e os que restavam estavam em péssimo estado de manuseio por conta do frágil papel utilizado na época.

A Biblioteca Municipal de Bauru, batizada com o nome do poeta, tinha apenas um exemplar da obra original. “A tendência era que a obra se perdesse definitivamente”, informa o secretário municipal de Cultura, José Augusto Ribeiro Vinagre.

Foi então que o poeta Joaquim Simões, cadeira 4 da Academia Bauruense de Letras (ABL), cujo patrono é exatamente Rodrigues de Abreu, teve a idéia da reedição da obra. O projeto foi logo abraçado pelo Poder Público e pelo Grupo Prata.

O relançamento da edição, que reúne um conjunto das obras de Rodrigues de Abreu, vai abrigar três livros do poeta: “Noturnos”, “A Sala dos Passos Perdidos” e “Casa Destelhada”, mais 20 poemas avulsos. Segundo Simões, com o livro, restará pouco do trabalho de Rodrigues de Abreu para ser reeditado. “Acredito que agora a grande maioria do acervo do poeta está preservada”, comemora.

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História

Nascido em Capivari, em 27 de setembro de 1897, Benedito Luís Rodrigues de Abreu iniciou a adolescência nos estudos de seminário mas descobriu na poesia a verve para expressar seus sentimentos. Ainda no final da adolescência, começou a lecionar literatura e poesia e passou pela Capital paulista e diversas cidades do Interior, como Piracicaba e Lavrinhas.

Em Bauru, cidade que adotou como lar na década de 1920, o escritor produziu a maior parte de sua obra, após ser acolhido pelos cidadãos e pela classe artística local. Também é de conhecimento o contato de Rodrigues de Abreu com grandes poetas brasileiros, como Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade.

Ele faleceu precocemente aos 30 anos, no dia 24 de novembro de 1927, vítima de tuberculose, e foi sepultado no Cemitério da Saudade, em Bauru.

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Bauru

Criticado por alguns poetas por sua veia romântica, Rodrigues de Abreu passou a se abrir para o movimento modernista, mas morreu quando ainda estava nos primeiros poemas. Dessa leva, um de seus textos mais conhecidos é justamente o que fala da Bauru que o poeta encontrou ao mudar-se para a “Cidade de Espantos”, que também integra a obra relançada amanhã:

“Moro na entrada do Brasil novo.

Bauru! nome-frisson, que acorda na alma da gente

ressonâncias de passos em marcha batida

para a conquista soturna do Desconhecido!

Acendi meu cigarro no toco de lenha deixado na estrada,

no meio da cinza ainda morna

do último bivaque dos Bandeirantes...

Cidade de espantos!

Carros de bois geram desastres com máquinas Ford!

Rolls-Royces encalham beijando a areia!

Casas de táboas mudáveis nas costas;

bungalows comodistas roubados da noite para o dia,

as avenidas paulistas...

Cidade de espantos!

Eu canto a estesia suave dos teus bairros chics,

as chispas e os ruídos do bairro industrial,

a febre do lucro que move os teus homens nas ruas do centro,

e a pecaminosa alegria dos teus bairros baixos...

Recebe o meu canto, cidade moderna!

Onde é que estão brasileiros ingênuos,

as úlceras feias de Bauru?

Vi homens fecundos que fazem reclamo da Raça!

E eu sei que há mulheres fidalgas que ateiam incêndios

na mata inflamável dos nossos desejos!

Mulheres fidalgas que já transplantaram

o Rio de Janeiro para este areal...

A Alegria busina e atropela os trustes nas ruas

A cidade se fez a toques de sinos festivos,

a marchas vermelhas de música, ao riso estridente,

de Colombinas e de Arlequins.

Por isso, cidade moderna, a minha tristeza de tuberculoso,

contaminada da doença da tua alegria

morreu enforcada nos galhos sem folhas

das tuas raras árvores solitárias...

Eu já tomei cocaína em teus bairros baixos,

onde há Milonguitas de pálpebras murchas

e de olhos brilhantes!

Rua Batista de Carvalho!

O sol da manhã incendeia ferozmente

a gasolina que existe na alma dos homens.

Febre...Negócios...Cartórios, Fazendas...Café...

Mil forasteiros chegaram com os trens da manhã,

e vão, de passagem, tocados da pressa,

para o El-Dorado real da zona noroeste!

...Acendi meu cigarro no toco de lenha deixado ainda aceso

na estrada, no meio da cinza

do último bivaque dos Bandeirantes...

E enquanto o fumo espirala, cerrando os meus olhos,

fatigados do assombro das tuas visões,

eu fico sonhando com o teu atordoante futuro,

Cidade de espantos!”