11 de julho de 2026
Cultura

‘Literatura não foi feita para dar mensagens’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

“Qual a mensagem da obra ou qual a moral da história?”, costuma se questionar a maior parte das pessoas ao final da leitura de um conto ou um romance. Se a pergunta for feita em uma sala lotada de gente, de preferência durante uma reunião de metidos a intelectuais, certamente surgirão centenas de interpretações possíveis, muitas delas divergentes entre si. Mas se Luiz Vitor Martinello estiver no local da discussão, ele será enfático em dizer: “Nenhuma!”. Sim, pois para ele, literatura não foi feita para dar mensagens.

“A função dos escritores não é dar lições ao público, e sim alcançar o ‘belo’ por meio do arranjo de palavras”, argumenta ele, que é poeta e professor de literatura em colégios particulares da cidade.

Martinello criou até uma metáfora para deixar mais claro seu ponto de vista. “A literatura tem de ser capaz de criar, através de um artifício estético, uma experiência do belo tão emocionante, por exemplo, como o desabrochar de uma flor ou um pôr-do-sol”, diz.

O fato de possuir essa opinião não impede que o autor de “O Sapato que Sabia Andar”, “Lixeratura” e “Os Anjos Mascam Chiclete” também adquira lições nos títulos que leu. Martinello garante ter tirado boa parte da inspiração para sua obra dos livros “Estrela da Vida Inteira”, do pernambucano Manuel Bandeira, e “Alguma Poesia”, de Carlos Drummond de Andrade.

“Toda a noção que tenho de poesia saiu desses livros. Eles têm muito a ver comigo; são bem humorados e escritos em um estilo bem solto”, diz.

Martinello não costuma utilizar os clássicos apenas como inspiração para os seus versos. Ele se recorda, por exemplo, que a leitura de “A Peste”, do francês Albert Camus, por volta de 1967, foi essencial para sua formação.

“Li aos 18 anos, e aquilo me marcou para sempre”, diz ele, que na época cursava filosofia na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas. “Eu era seminarista e me identifiquei muito com aquilo que era tratado no livro”, conta.

“A Peste” narra a história de uma aldeia na Argélia, no norte do continente africano, que é atingida por uma epidemia. Um dos pontos nevrálgicos do livro é justamente a polêmica entre um médico que tentava prestar socorro às pessoas acometidas pela doença e o sacerdote do vilarejo.

“Olhando a trajetória daquele médico, percebi que era possível ser santo sem ter Deus ao meu lado”, diz Martinello, que, pouco depois, acabou desistindo do sacerdócio. Na opinião do padre retratado pela obra, o mais importante não era salvar os corpos, mas sim as almas daqueles que haviam sido vitimados pela peste.

Anos mais tarde, quando já havia abandonado todas as crenças religiosas, ele passou a se apegar com mais afinco às “lições” que havia adquirido com a leitura de “A Peste”. “Procurei continuar agindo como se fosse um cristão - ajudando ao próximo, tentando ser justo com as pessoas - só que sem acreditar em Deus ou professar uma fé. Pode-se dizer que o livro foi a minha ‘Bíblia de Ateu’”, diz ele.

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‘Vinho excitante’

O jornalista e escritor bauruense Lucius de Melo também costuma buscar inspiração para suas obras nos clássicos da literatura universal. Prestes a lançar seu mais recente título, “A Travessia da Terra Vermelha” - que trata da imigração judaica no oeste de São Paulo e no norte do Paraná -, ele garante encarar alguns livros, como “O Tempo Redescoberto”, do francês Marcel Proust (segundo da série “Em Busca do Tempo Perdido”), como uma espécie de vinho excitante.

“Ele me traz uma experiência mágica, sempre que abro suas páginas”, diz ele, que é fã incondicional de outros autores modernos, como o irlandês James Joyce e o alemão Thomas Mann. Entre os preferidos de Melo, é possível encontrar ainda títulos como “Dom Quixote”, do espanhol Miguel de Cervantes, que ele define como “um arquétipo da condição humana em busca de um ideal”, e “Dom Casmurro”, do brasileiro Machado de Assis, segundo ele, “um clássico de realismo que antecipa a psicanálise”.

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Padre Beto

Reflexões para uma vida melhor

Livros fáceis de ler, mas que versam sobre temáticas bastante densas, como o amor, a morte e o sofrimento humano, estão entre os títulos recomendados pelo escritor, comunicador e sacerdote bauruense Roberto Daniel, mais conhecido como Padre Beto. Confira a lista a seguir.

• “Quando as Coisas Ruins Acontecem às Pessoas Boas”, de Harold Kushner

• “As Consolações da Filosofia”, de Alain Botton

• ”A Arte de Amar”, de Erich Fromm

• “Ensaios Sobre o Amor e a Solidão”, de Flávio Gikovate

• “Cartas Sobre a Felicidade (A Meneceu)”, de Epicuro

• “Ética, Direito, Moral e Religião no Mundo Moderno”, de Fábio Konder Comparato

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Munir Zalaf

Poesia para um mundo mais humano

“O mundo anda carente de lirismo”, costuma reclamar o escritor Munir Zalaf. Presidente da Academia Bauruense de Letras, ele acredita que a poesia tem o poder de tornar o mundo mais humano. “Se ela estiver mais presente em nossa vida, certamente estaremos mais perto de Deus”, diz. Entre as indicações de leitura listadas por ele, obras de autores consagrados, como os mineiros Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meirelles.

Ele indica:

• “Poesia Completa”, de Cecília Meirelles

• “Obra Completa”, de Carlos Drummond de Andrade

• “Obra Completa”, de Fernando Pessoa

• “Poesias”, de Pablo Neruda

• “Obras Completas”, de Rodrigues de Abreu

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Lucius de Melo

Em busca do ‘eu’ desconhecido

Prestes a lançar sua mais nova obra, “A Travessia da Terra Vermelha”, Lucius de Melo é leitor assíduo dos grandes nomes da literatura moderna. “O Tempo Redescoberto”, um dos títulos que compõem a série “Em Busca do Tempo Perdido”, do francês Marcel Proust, é o livro de cabeceira do jornalista e escritor bauruense. A obra trata, entre outros, da descoberta do “eu” desconhecido.

Ele indica:

• “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes

• “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust

• “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann

• “Ulisses”, de James Joyce

• “Dom Casmurro”, de Machado de Assis

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Luiz Vitor Martinello

Experiências transcendentais

Embora faça questão de enfatizar que, em sua opinião, literatura não foi feita para dar mensagens, o professor e escritor bauruense Luiz Vitor Martinello acredita que as pessoas possam atingir experiências transcendentais por meio da leitura de livros. Entre os títulos indicados por ele, obras clássicas de autores consagrados como Albert Camus e João Guimarães Rosa.

Ele indica:

• “Olhai os Lírios do Campo”, de Érico Veríssimo

• “O Carteiro e o Poeta”, de Antonio Skármeta

• “Poemas Completos de Alberto Caeiro”, de Fernando Pessoa

• “A Peste”, de Albert Camus

• “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa