Depois de vários anos patinando, a economia brasileira volta a crescer e o crescimento traz novos problemas. Um deles é a necessidade de mão-de-obra qualificada. Muitos não gostam da expressão mão-de-obra, mas é a de mais fácil entendimento – são pessoas em condições de trabalhar, isto é, pessoas que possuem conhecimentos e habilidades para executar os trabalhos que precisam ser feitos. Apesar da alta taxa de desemprego, muitas empresas não conseguem preencher suas vagas, devido à falta de qualificação dos candidatos. A qualificação depende da natureza e da complexidade do trabalho, indo do trabalho puramente braçal até o trabalho inteiramente intelectual, passando pela fase intermediária que equilibra as habilidades manuais com os conhecimentos tecnológicos. Existem ocupações que um treinamento de pequena duração pode deixar a pessoa preparada para produzir, mas existem ocupações que exigem uma formação de vários anos. Para efeito de formação profissional é preciso fazer um levantamento das ocupações que estão demandando preparação e, de cada uma, fazer uma análise ocupacional, que leva em conta as tarefas a serem executadas e o que elas exigem de conhecimentos, tanto gerais como técnicos, e de habilidades físicas e mentais. Sobre essa análise é que se elaboram os programas e se projetam os ambientes de formação – oficinas, laboratórios, salas de aulas. É dela, também, que se estabelecem os requisitos para o instrutor ou professor.
Na década de 1940, devido à segunda Grande Guerra e ao início da industrialização do Brasil, foi preciso um grande esforço de preparação de mão-de-obra para atender a demanda de produtos industrializados. Nessa ocasião foi criado o Senai, que institucionalizou a formação profissional metódica. No início, para atender as necessidades da ocasião, implantou uma série de cursos emergenciais. Ao terminar a guerra esses cursos se transformaram em escolas Senai. Na década de 1970, durante o chamado ‘milagre econômico’, houve escassez de mão-de-obra e o governo criou o Programa Intensivo de Preparação de Mão-de-obra - PIPMO -, valendo-se do Senai, do Senace das escolas técnicas, federais e dos estados. Só no setor industrial a meta foi de 50 mil treinandos. Eram cursos de até 300 horas, práticos como Pedreiro, Azulejista, Eletricista Instalador, Carpinteiro de Formas, Torneiro Mecânico, Soldador Elétrico, Costureira Industrial, Perspontador de Calçados etc. ou tecnológicos como Leitura e Interpretação de Desenho Mecânico, Tecnologia Mecânica etc.
Nestas últimas décadas o perfil da mão-de-obra modificou-se bastante devido à evolução tecnológica. A automação industrial, combinando eletrônica com informática, reduziu as exigências de habilidades físicas e aumentou as exigências de habilidades mentais. Um exemplo fácil de assimilar está na tecnologia do automóvel – a substituição do carburador pela injeção eletrônica, por exemplo, permite que o mecânico detecte e corrija o defeito usando apenas um aparelho eletrônico em vez de ficar desmontando e regulando manualmente. Essa mudança, naturalmente, alterou a estrutura do mercado de trabalho, criando novas ocupações, com destaque para as ocupações ligadas à eletrônica e à informática.
Entrando, agora, numa fase de crescimento, o nosso problema está não só em preparar em curto prazo um contingente maior de mão-de-obra, como em atualizar os programas e a infra-estrutura do ensino profissionalizante. Como na década de 1970, o governo teria que valer-se da experiência das instituições como Senai, Senac, e agora, Senar, Senat e Sebrae, escolas técnicas, e preparar um grande projeto, podendo contar com a iniciativa privada, o PPP. Contudo, é preciso evitar as ONGs fajutas e conceitos simplistas que pensam que ensino profissionalizante é só dar cursos de informática e noções de administração e contabilidade. Daí, as enormes filas disputando uma vaga e ninguém podendo ser aproveitado. É uma tarefa muito grande e que exige capacidade técnica e visão de seus autores, sem esquecer que grande parte do sucesso vai depender de uma boa formação no ensino fundamental.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru