08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

“Chá das cinco com poesia”


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“O poeta é poeta não pelo que pensou ou sentiu, mas pelo que disse. Ele é um criador não de idéias, mas de palavras. Todo seu gênio reside na invenção verbal” (Jean Cohen).

Faço o registro, para presentificar o evento em que fora relançada a obra completa de Rodrigues de Abreu, no saguão do Teatro Municipal, numa iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura, Academia Bauruense de Letras (ABL) e Grupo Prata. Destaque especial para o charme do convite “Chá das Cinco com Poesia”. As mais vivas inteligências da cidade fizeram-se presentes. E falou-se - muito - de poesia. Mas o que me chamou a atenção foi o patrocínio da edição. E faz-me lembrar também, de poesia...

Registro, aqui, fragmento de soneto de João do Norte “Pau D’Arco” que tem tudo a ver com o Expresso de Prata:

“E hoje volto afinal, de neve na cabeça,

Depois de muito andar, sem lume a que me aqueça,

Andrajoso, a esmolar de pousada em pousada...

E tu és o mesmo! Altivo e reflorido,

Como um punhado de ouro a esmo sacudido, no imenso pano verde-mate da chapada...”

Usuário desde a adolescência dessa empresa, tendo, agora, tão grisalhos os cabelos, contemplo uma frota rejuvenescida, com ônibus de última geração. Tornou-se criança depois de oitenta anos...

Outro poeta, Fernando Pessoa, fala-nos do Tejo, maior rio da península ibérica que banha Lisboa e Toledo:

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”

Os versos poderiam lembrar-nos o Jornal da Cidade. Há outros jornais, grandes jornais, mais belos que o Jornal da Cidade, mas que não são maiores nem mais belos que o Jornal da Cidade, porque não são jornais da nossa cidade...

O Grupo Prata poderia convidar-nos para ver a mais moderna impressora ou o mais moderno ônibus de sua frota. Mas não: convidou-nos para assistirmos ao lançamento de uma obra poética: Obra Completa de Rodrigues de Abreu.

Sem um conjunto de circunstâncias a que chamaríamos Portugal, não existiriam obras de Camões, Fernando Pessoa, Guerra Junqueiro. No entanto, sem a encarnação poética desses poetas, não existiria a realidade histórica em que se tornou Portugal.

Assim, o “Chá das Cinco com Poesia” foi um alegre despertar. O despertar de um forte grupo empresarial preocupado com a realidade histórica de Bauru. Parabéns!

Álvaro Baptista Pontes - Academia Bauruense de Letras - Cadeira n.º 8