09 de julho de 2026
Política

OAB mobiliza Interior pelo ‘Cansei’

Por Fábio Zambeli | Da APJ, especial para o JC
| Tempo de leitura: 5 min

Na semana em que o movimento ‘Cansei’ alcançará seu ápice, com a convocação do ‘minuto de silêncio’ em todo o país na sexta-feira, dia 17, às 13h, o presidente estadual da OAB, Luiz Flávio Borges D’Urso, faz uma defesa contumaz da campanha, refuta o rótulo golpista e sustenta que a mobilização obtém “quase 100%” de adesão entre as subseções da entidade no Interior paulista, inclusive a de Bauru, que abrirá a Casa do Advogado, na quadra 30 da avenida Nações Unidas, para que as pessoas interessadas se dirijam ao local a fim de manifestar sua indignação quanto às mazelas do País.

Em entrevista ao JC, D’Urso afirma que o ‘Cansei’ é apartidário, posição compartilhada pelo presidente da subseção Bauru, Caio Augusto Silva Santos, e não tem em sua agenda de propósitos a derrubada de governos.

Desde seu lançamento, o ‘Cansei’, idealizado para simbolizar uma espécie de grito nacional contra a corrupção e a impunidade, desperta reações de paixão e ódio. Enquanto entidades não-governamentais, artistas e profissionais liberais abraçam a idéia do ‘Movimento Cívico pelo Direito do Brasileiro’, militantes de organizações sociais, simpatizantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e intelectuais o qualificam de ‘elitista’.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Associação Paulista de Jornais - O movimento ‘Cansei’ vem ganhando a dimensão que o senhor imaginava, às vésperas de seu ato mais emblemático?

Luiz Flávio Borges D’Urso- Sim, este movimento nasce do seio da sociedade, espontaneamente, congregando entidades, empresários, trabalhadores, estudantes, comerciantes. É um verdadeiro estrato da sociedade.

APJ- Não há vinculação partidária?

D’Urso- É totalmente apartidário. Sem vínculo algum. É um movimento que não é contra governo federal, governo estadual, governo municipal. É a favor, a favor do Brasil, um movimento cívico, denominado Movimento Cívico pelo Direitos dos Brasileiros.

APJ- E por que o termo ‘Cansei’?

D’Urso- Criou-se um conceito. E esse conceito, encontrado na palavra ‘cansei’, nos pareceu que traduz o sentimento do brasileiro neste momento. Esse conceito foi ‘linkado’ com bandeiras históricas da OAB, como ‘Cansei da Corrupção’, ‘Cansei da Bala Perdida’, ‘Cansei de Criança Abandonada nas Ruas’, ‘Cansei de Criminalidade’, ‘Cansei de Impunidade’, ‘Cansei do Apagão Aéreo’, ‘Cansei da Carga Tributária’. São bandeiras históricas da OAB que são reprisadas neste movimento liderado pela OAB-SP.

APJ- Qual o episódio que deflagrou esta iniciativa?

D’Urso- Este sentimento vai se aglutinando ao longo de um bom tempo. Mas o caos aéreo e o acidente da TAM contribuíram para a deflagração do movimento nesta oportunidade.

APJ- Como funcionará de forma prática o ‘Cansei’?

D’Urso- Serão duas frentes. A primeira dela é um minuto de silêncio, às 13h, do dia 17. Uma homenagem póstuma às vítimas deste acidente e dos anteriores. Vítimas da violência, da criminalidade nas ruas deste país. No mesmo momento é uma atitude de in dignação diante dos problemas que o Brasil tem suportado. Logo depois desta primeira etapa, temos a segunda. É fazer que o movimento seja o canal permanente de diálogo e interlocução com os governos federal, estadual e municipal buscando a contribuição das forças vivas da sociedade para enfrentarmos estes problemas juntos, população e governo, no princípio da democracia participativa.

APJ- Como o senhor recebeu as críticas de segmentos ligados principalmente ao governo federal a segmentos da esquerda, que consideram o movimento golpista?

D’Urso- As críticas foram fruto de algumas confusões que se estabeleceram em um primeiro momento, até por desinformação. Ou até mesmo confusões que fizeram com outros movimentos mais radicais, movimentos de ‘Fora Lula’, que não têm nenhuma relação com o nosso. Acredito que isso contribuiu para esta reação desproporcional de algumas vozes que, embora isoladas, repercutiram bastante. Hoje acredito que o movimento consegue definir para a sociedade a sua motivação, os seus objetivos, e temos contado com a simpatia maciça de todos os setores da sociedade.

APJ- Por conta desta reação, o senhor acredita que ficará dificultada a segunda fase deste movimento, que presume um canal de conversação com os governos?

D’Urso- Acredito que não. A OAB sempre teve diálogo permanente com estas esferas de poder. Tão logo lançamos o movimento, este diálogo existiu. Com o governo federal, na pessoa do ministro da Justiça, Tarso Genro, com o governo estadual e municipal. Tudo para esclarecer os objetivos desta mobilização. É uma atitude cívica, um movimento de cidadania. Muito mais para fazer com que todo brasileiro tenha consciência de que ser cidadão não é só votar. É participar dos problemas que o Brasil enfrenta.

APJ- Existe viés golpista, elitista, como afirmam setores do PT, neste movimento?

D’Urso- Esta história de golpismo, de elites, eu classifico como bobagens que foram lançadas e que não têm a mínima procedência. Uma das premissas da OAB é o fortalecimento das instituições, e não o combate a elas. Portanto, tenho absoluta convicção que com estes dias que se sucedem, as confusões serão dirimidas para separar o nosso movimento dos outros. O nosso é bem pautado, bem objetivado, vamos continuar nesta linha, contribuindo com o Brasil.

APJ- A que o senhor atribui as posturas de alguns Estados e do próprio Conselho Federal da Ordem, que não têm assumido o movimento ou suas linhas?

D’Urso- Tivemos uma reação no que diz respeito à OAB no Rio de Janeiro, que passou a dizer que o movimento era golpista, que era uma mobilização para passeata de ‘Fora Lula’. Num primeiro momento eu creditei à desinformação do meu colega, mas depois que ele foi à imprensa tachar o movimento de golpista, considerei uma grosseria gratuita, que repudiei. A única reação negativa foi do Rio. No Rio Grande do Sul, já existe um movimento lá que já tinha sido deflagrado antes do nosso até. No Distrito Federal, a seccional vai lançar. Em Pernambuco, também. Na Bahia, no Amazonas também. E o próprio conselho federal, que resolveu não aderir neste momento, até porque tem vários movimentos, reforçando a autonomia da seccional, ficou neutro com relação ao nosso movimento e vai lançar também um movimento contra a corrupção, contra a impunidade. Então, estamos caminhando para um mesmo objetivo.