08 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Liberdade e responsabilidade

Por Padre Beto * | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Eu não o conhecia, mas percebi de imediato que era um deficiente visual. Ao sentir minha presença, perguntou-me se o metrô para o centro da cidade já havia passado. Eu respondi que não sabia, mas iria me informar no guichê. Ao me afastar do cego e da plataforma, olhei para trás e vi aquele homem parado com uma calma e tranqüila fisionomia. Ele deixava transparecer a confiança em um estranho e um estrangeiro. Eu poderia não voltar mais, mas ele parecia ter uma quase certeza de minha volta com a informação desejada.

Sua confiança em minha pessoa fez com que eu me lembrasse da minha responsabilidade. Aliás, minha responsabilidade, além de trazer a informação correta, deveria reforçar sua confiança na raça humana. Nessa simples situação, não estava somente em jogo sua ida ao centro da cidade, mas a confiança e a responsabilidade do ser humano, em outras palavras, a condição e a dignidade da pessoa humana.

Através de várias situações podemos, aos poucos, nos esquecer do que somos capazes como seres humanos e, ainda pior, de nossa própria condição: sermos pessoas humanas. O ser humano é pessoa e somente como tal pode construir um contexto social no qual a vida é possível e possa livremente se desenvolver. Nesse sentido, toda discussão sobre nossos problemas sociais, sobre toda a situação que vivenciamos em sociedade só pode ter como plataforma a dignidade da pessoa humana.

Porém, é necessário que se saiba, com clareza, as características que compõem a expressão “pessoa”. Em primeiro lugar, ser pessoa humana significa ser único. Nenhum ser humano é igual ao outro. Cada ser humano que encontramos é uma mistura rara e única e, portanto, valiosa. O ser humano não se repete e muito menos pode ser clonado com seu corpo e todo o seu espírito. Cada um nasce original, mesmo que um dia infelizmente venha a morrer como uma simples cópia.

Outra característica da expressão pessoa é a independência. O ser humano é capaz de caminhar com suas próprias pernas. Ele não é uma parte de outros como a mão ou perna é do corpo. Como pessoas podemos e devemos nos manter independentes uns dos outros. A dependência significa a diminuição da dignidade da pessoa humana. O ser humano é um todo formado pelas dimensões física, intelectual e espiritual. Como pessoa, ele é portador de uma capacidade de pensar, agir ou se omitir. Para não perder a dignidade de pessoa humana nós necessitamos também de liberdade.

A liberdade de escolha se realiza a partir do momento que podemos optar diante de diversas possibilidades, sem um determinismo psíquico, ideológico, econômico ou social. Assim, o ser humano vive como pessoa quando é senhor de si mesmo, como afirma Tomás de Aquino. Sem a liberdade de escolha é impossível a responsabilidade ética, a culpa ou a reabilitação, prêmio ou castigo, arrependimento ou satisfação. O outro lado da moeda da liberdade é a responsabilidade. Ser pessoa significa assumir responsabilidades. Justamente na dinâmica entre liberdade e responsabilidade é que o ser humano possui a capacidade de mudar, de transformar sua vida e sua forma de ver o mundo.

Ser Pessoa significa ter consciência. A consciência do que deve ser feito, e não somente do que pode ser feito, é fundamental para que o ser humano continue com a dignidade de pessoa. A liberdade, a responsabilidade e a consciência do dever ser levam, sem dúvida alguma, o ser humano à experiência da solidão, outra característica do ser pessoa. Somente quem é capaz de viver a solidão encontra-se na plena forma da pessoa humana. Nós vivenciamos todas as nossas experiências, mesmo que acompanhados por outros seres humanos, sozinhos. Cada um sabe o prazer e a dor de ser o que é. Ninguém pode viver ou morrer por mim e somente na solidão do “eu” devo ter a maturidade de experimentar a vida e a morte.

Essas características da condição de ser pessoa se constituem na plataforma para qualquer discussão sobre situações e problemas que vivenciamos no cotidiano: trabalho, alimentação, salário, função do Estado, o papel dos políticos, o sistema econômico, a miséria, o direito à educação, etc. Quanto mais temos consciência de nosso valor, de nossa dignidade como pessoas humanas, mais nos transformamos em seres abertos, comunicativos, sociais e comprometidos com uma sociedade justa e fraterna. Quanto menos consciência tivermos de nossa condição como pessoas seremos mais individualistas, mais egoístas, estaremos mais frágeis diante do sistema político-econômico e indiferentes ao sofrimento alheio.

Quanto mais seguros nos encontramos em nossa condição como pessoa, com mais profundidade vivenciamos um encontro com o outro. Teremos a sensibilidade de estar diante de uma outra pessoa humana que nos questiona sobre nossa liberdade e responsabilidade.

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