08 de julho de 2026
Articulistas

A vaia e o silêncio


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Faltou ao presidente Lula aquela capacidade dos boxeadores profissionais de “assimilar o golpe”. Quase foi à lona com as vaias na abertura dos Jogos Pan-Americanos. Nenhuma surpresa. Nelson Rodrigues já havia alertado que o “Maracanã vaia minuto de silêncio e até mulher nua”. Em outras palavras, vaia nunca foi o ponto G da consciência coletiva. O homem, isoladamente, pode ser um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, uma criatura agindo por instinto. Vontade de debochar, simplesmente. João Gilberto cansou de ser vaiado por platéias burguesas. Os espectadores achavam que tinham o direito de conversar durante o recital, porque haviam pagado um ingresso caro. O gênio da bossa nova exigia respeito a sua arte. Essa não tem preço. Em qualquer circunstância, passada a euforia o cidadão que vaia e que xinga na multidão volta em silêncio para casa, desenxabido. Acorda a esposa no meio do sono e ainda corre o risco de ser “vaiado” pela parceira por mau desempenho.

Uma vez alguém do povo indagou a Mirabeau sobre a melhor maneira de recepcionar Luiz XIV aos pés do cadafalso, onde iria perder a cabeça em nome dos ideais de “liberdade, igualdade, fraternidade”. O grande líder da Assembléia Francesa respondeu: “Em silêncio, porque o silêncio do povo é a lição dos reis”. Enquanto houver apupos a situação está sob controle porque a galera ainda encontra uma maneira de catarse. A coisa se complica com a “espiral do silêncio”, como chamam os comportamentalistas aquele crescendo de mudas inquietações que, de repente, explode em catadupas. O “silêncio gritante”, este sim, chega às vias do incontrolável. O governante ou líder político de formação democrática deve receber o aplauso com um pé atrás e, as manifestações de desagrado, com o espírito aberto. Ninguém é eleito para ser simpático e, sim, para cumprir o seu dever para com a Pátria e eleger as estratégias que sejam melhores para todos. Do silêncio é que devemos retirar lições, como disse Mirabeau. Lula errou ao passar recibo, surpreendido pelo insólito da manifestação popular, gravada com o timbre da espontaneidade. Do ponto de vista psicológico foi um golpe no fígado. Bobagem. O presidente tem navegado nas águas tranqüilas da popularidade. De certa forma já estava viciado com platéias dóceis e devidamente aclimatadas para o objetivo a que foram convocadas. Jamais teria cogitado de um ato bisado seis vezes no Maracanã e por ele tachado de “molecagem”.

Lula é um homem inteligente, de estrela brilhante e gosto pelo poder. O episódio servirá para ele como experiência num possível terceiro mandato (epa!), sobre a fatuidade do poder e dos aplausos de claques organizadas. De nada adianta argumentar que as vaias vieram da classe média descontente. Somente burgueses ascendentes – eram 90 mil no Maracanã - teriam dinheiro para comprar os ingressos dos cambistas para o show de abertura dos Jogos. Realmente a classe média tem razão para bronquear, encalacrada entre o banqueiro que a política econômica de Lula permite nadar em ouro, e o pobre que dá suas braçadas no feijão do Bolsa-Família. Mas, não importa. Nada gruda em Lula. Nem as vaias do Pan, sequer as catástrofes aéreas ou a desdita dos “companheiros” tombados no campo da luta pelo dinheiro da propina. A imprensa internacional também se surpreende. O “The Washington Post” lembra que lá nos Estados Unidos o povo não perdoa os seus homens públicos: “Birds of a feather fly together”. Lá na roça a gente nem sabia que esse ditado pudesse ter ido parar no estrangeiro: “Ave de pena “iguar” vôa parecido, uai”. Os discursos de Lula cheios de alegorias futebolísticas, adágios, metáforas e frases espirituosas, nunca tiveram tanto valor administrativo. Agora mesmo, para resumir a bagunça caótica da aviação comercial brasileira, recorreu à história do cachorro que tem vários donos e morre de fome porque cada um acha que o outro alimentou o bicho e deixa de lhe dar comida. Au, au. Mas, quem é o dono dos cachorros? Tudo bem. Deve ser a “desenvoltura dos leigos”. Umberto Ecco, um semiólogo italiano que explica tudo, assegura que “os simples falam e todos entendem”. Os sábios, mais sábios seriam se usassem menos recato e reserva para não dizer bobagens. Perdem a espontaneidade.

Fico com o fatalismo alemão que criou uma palavra para denominar essas coisas que acontecem e se repetem, embora pareçam fora de propósito mas, a maioria aceita: “zeitgeist”. Espírito do tempo. É bem por aí...

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC