10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Maestro George Vidal: regente poeta

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 11 min

Batuta na mão, George Vidal dá as coordenadas de sucesso a muita gente boa que anda tocando na noite e fazendo sucesso em todo o País. Nascido em uma família de músicos na pacata Torrinha (90km de Bauru), o maestro descobriu os acordes entre um dedilhar do violão e um sopro numa corneta de brinquedo.

Atualmente, com um currículo recheado e histórias ricas em personagens conhecidos do mundo da música e militância política, o multiinstrumentista, arranjador e compositor, além de maestro, é também um amante de outras artes e um apaixonado pela cidade de Bauru. Na conversa de quase duas horas, muitas memórias e um gosto de saudade. Confissões e história. Tudo permeado por acordes, poesia e cinema.

Nas pontas dos dedos do maestro até uma simples trilha de comercial tem outro gosto, mais culto. E Bauru se transforma, por obra de sua inspiração, em uma sonhadora Pasárgada: “Cidade linda unânime/ Cidade linda/ Linda, beijo esta cidade linda,/ Vejo esta cidade nova/ Tão linda a crescer.../ Um trem no teu passado de glória.../ A força do teu presente é nossa!/ Vida a Bauru/ Amo Bauru/ Você e eu somos Bauru/ Linda...”.

Jornal da Cidade - Maestro, como começou a sua paixão pela música?

George Vidal- Meu interesse começou desde criança por influência do meu pai, que era maestro. Ele (Juarez Vidal) acabou se direcionando para as bandas e foi responsável pela criação de bandas em Barra Bonita, Brotas, Torrinha...

JC - Com quantos anos começou a tocar?

George - Com 7 anos o violão, mas antes eu já praticava musicalização infantil de forma intuitiva. Quando tinha a chamada “alvorada” e as bandas batiam pela manhã e ensaiavam no quintal de casa, eu acordava, pegava minha cornetinha e ia tocar com os músicos. Era uma corneta de plástico e me ajudou a desenvolver o senso de intervalo musical, tentando tirar a melodia e o que me ajudou a melhorar a percepção “de ouvido”. Outro instrumento que eu peguei sem estudar foi a escaleta, eu adorava ficar brincando na área da minha casa ao pôr-do-sol, em Torrinha. Um fato interessante é que naturalmente eu seguiria uma linha musical de “mídia” da época, mas antes que eu entrasse de cabeça nas músicas do momento, um dos meus irmãos, o Rogério, me deu a dica de que eu acompanhasse meu pai nos fins de tarde tocando serestas. Tocávamos serestas, valsas, choros, sambas-canções e a partir daí eu fui desenvolvendo o sentido harmônico da música. Nesta época eu ainda criei meu primeiro grupo.

JC - O que vocês tocavam?

George - Para você ver, nós tocávamos Edu Lobo, Chico Buarque, era isso o popular na década de 70. Quando penso nisso, vejo que houve um decréscimo na estética da música, ou seja, houve um retrocesso no “ouvido musical”. Nós ainda tirávamos samba e alguns frevos. Não durou nada essa banda, mas me deu a referência da idéia de grupo. Ah! Eu também gostava muito de produzir shows quando criança, em uma das casas que eu morei em Torrinha fiz com meus colegas uma espécie de arquibancada, palco e cortina para uma apresentação em um dos quartos. Logo depois eu vim para Bauru e aqui a coisa ferveu...

JC - Em Bauru como foi?

George - Um fato muito forte foi na época em que eu comecei a escrever arranjos para coral. O primeiro que eu escrevi foi para o coro da Igreja Presbiteriana do Centro e depois disso nunca mais parei. Até hoje eu escrevo para coros. Eu toquei por muito tempo na Fundação Educacional de Bauru (FEB) e o bacana é que eu tenho shows de 1977 com a cantora Martinha e logo depois eu dei início a um grupo que, esse sim, realmente marcou época na cidade. Se agora um estudo sobre o grupo “Porto” fosse feito, as pessoas iriam descobrir sua importância. Da mesma forma como a Casa da Eny é lembrada, o Porto foi marcante para uma geração.

JC - Conte um pouco sobre o Porto, era um grupo manifesto contra a ditadura?

George - O Porto foi um grupo de MPB completamente engajado no cotidiano do país, era um manifesto cultural e anti-ditatorial. As músicas eram de autores conhecidos e canções próprias. Esse grupo foi muito ativo, porque nós participávamos de muitos festivais no Estado todo. O Porto tocou na TV Tupi em um programa que premiava grupos e chegamos ao primeiro lugar, só não ganhamos o prêmio porque a TV faliu antes.

JC - Todos os músicos eram de Bauru?

George - Sim, o Porto teve várias formações, mas a mais forte foi a original comigo, Ka Machado, Paulo Del Nery, Hebert de Campos, Pes, Élcio Avaloni e Eduardo Franciscato. Quando o grupo acabou, eu havia ganho uma bolsa de estudos no Clube Livre de Aprendizado Musical (Clam) de São Paulo. Desta fase, no início dos anos 80, o gostoso de lembrar foram as participações em festivais. Uma bacana foi a apresentação no Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde o Zimbo Trio e a Orquestra do Clam tocaram uma música minha, “Triste Canção”, que teve o arranjo do Amilton Godoy. Com essa música eu ganhei o Festival de Música Popular de Bauru em 1981. Era um festival muito bom, precisava ter continuado. Lembro que o Língua de Trapo e o Toninho Ferragutti estavam concorrendo e não eram conhecidos.

JC - Como o senhor se tornou professor de música?

George - Em um dos festivais foi que ganhei a bolsa do Clam, logo depois fui convidado para ser professor lá e, pouco tempo depois, a irmã Eduarda me chamou para dar aulas na Universidade do Sagrado Coração (USC). Para dar aulas, eu recebi treinamento do professor Luis Chaves e o que ele conseguiu me ensinar em duas semanas eu não aprenderia em seis anos na faculdade. Quando eu acabei a faculdade fui convidado a assumir as Artes e Letras da USC e eu quis implementar um projeto revolucionário na faculdade de música, mas acabei por me afastar já que alguns professores não faziam parte do meu ideal e eles eram pessoas queridas para mim. A idéia era implementar o treinamento do Chaves em disciplinas durante o curso. Hoje a metodologia que emprego aqui na Clave de Sol é fruto desse projeto.

JC - Como começou o projeto com os irmãos Caruso e o Luis Fernando Veríssimo?

George - Foi um privilégio... Fui fazer uma apresentação em Santos com o Paulo Caruso, isso em 1999. Eles estavam para gravar um álbum e o Chico Caruso fez questão de que eu estivesse no show do Rio de Janeiro. Foi uma temporada no Mistura Fina e o público era de artistas. Tive a honra de dividir o palco com nomes como o de Jards Macalé e Paulo Moura. Com o Conjunto Nacional (nome do grupo) fizemos o Programa do Jô e o Amaury Jr.. Mas também nesse projeto em que eu entrei como arranjador com a corda toda, acabei me posicionando como acompanhante.

JC - Falando dessa relação com outros artistas, foi uma escolha não estar no “mainstream”?

George - Foi uma escolha e até uma ingenuidade, eu tive muitas oportunidades. Eu nunca soube fazer marketing, marcar presença e o violonista Ulisses Rocha sempre diz: Não entendo o que o George faz no Interior...

JC - Então, por que o senhor fica aqui no Interior?

George - Eu acabei fazendo um “Bauru/Pasárgada”, que vivo hoje. Vejo Bauru, a minha cidade é ideal. Vejo uma cidade com um potencial cultural enorme e que sofreu revezes na década de 80 de ordem político-cultural que se reverteram em uma queda de exploração desse potencial artístico. Hoje o que existe é uma falta de atitude existencial e um aumento do interesse pelo “internacional”. A minha Bauru é muito particular, um universo em que eu convivo com grandes artistas e músicos, pessoas que seriam fragmentadas pelo cotidiano.

JC - O senhor venceu a competição para a escolha da música do centenário de Bauru. Como foi?

George - Eu não vejo esta música como do centenário, acho que ela será cantada num futuro. Porque “Cidade Linda” é especial. Quando eu coloquei a música na competição nem considerei a questão do centenário, seria artisticamente impensável e a escolha dela por unanimidade foi muito questionada.

JC - Como o senhor vê a música brasileira hoje?

George - Ela é uma música de extrema criatividade e por isso sempre encontra uma maneira de estar presente. Com o mundo globalizado a língua anglo-saxônica, naturalmente é mais poderosa e simples, é uma opção de pesquisa para as pessoas. Mas a música brasileira não deixa de existir porque é rica, é uma música de síntese que vem de influências africanas, européias e do próprio continente. Temos artistas universais como o Tom Jobim e uma infinidade de caras novas surgindo. Hoje, a música brasileira está bem melhor do que há alguns anos, como os do Plano Collor, e no período que o sertanejo sufocou as outras manifestações. Agora, a individualidade dos ouvintes que podem baixar músicas pela Internet e montar suas rádios e dos músicos que produzem de forma independente dá força à música brasileira.

JC - O que o senhor ouvia quando meninote? Essas influências continuam em sua vida?

George - Quando nasci a bossa nova estava no auge. Vivi os festivais e a tropicália e a abertura da criatividade na música. Eu ouvia todos os estilos de música do mundo, o “ouvir música” era mais universal, canções argentinas, européias... Era muito interessante que em Torrinha nos alto-falantes da Igreja Matriz eram tocadas muitas peças clássicas como Mozart, Bach e Vila-Lobos. Também muitos dobrados de bandas de coreto, frevos, baião...

JC - O senhor continua escrevendo para outras “mídias”?

George - Sim, há um coro em Bauru, o Tom Maior, em que todos os arranjos são meus. Para teatro compus para a cidade e outros lugares. Uma peça que me marcou muito foi a “Achados e Perdidos”, com direção do Paulo Neves em 1981. Ela era uma aula de literatura e filosofia existencial a partir da poesia. Depois fiz muitas trilhas do Grupo Ato, trabalhei com balé e jingles para rádio e TV. Ainda falando de corais a obra auto-retrato”, feita para o coral da Unesp (Universidade Estadual Paulista), foi regida por mim pela primeira vez para 350 vozes. Foi muito emocionante, depois vi ela ser cantada por até 800 coralistas e me parece que ela é tocada na Espanha.

JC - Pelas cidades do Interior estarem fora do eixo cultural, qual é a visão de um “intercâmbio” com artistas de fora por aqui e os daqui que partem?

George - Quanto mais arte melhor, mas há que ter a amálgama entre público e o artista. Em relação aos nomes da cidade, quando partem, meu sentimento é dúbio. Fico feliz em ver as pessoas correndo atrás de seus sonhos, mas me deixa triste ver que a cidade teria condições de suprir e refazer uma política cultural para esses artistas, e não necessariamente ligada ao poder público.

JC - E a regência?

George - Na década de 90 eu tive o prazer de reger uma grande orquestra sinfônica chamada “Oficina Cultural”, ela não era exatamente sinfônica, faltavam alguns instrumentos. Essa orquestra trabalhou apenas oito meses sem amparo e Bauru não conheceu esse trabalho, mas o Estado conheceu. Cheguei a reger até no Palácio dos Bandeirantes. Recentemente eu estive em Campinas no projeto “Trem de Minas.

JC - O senhor prefere reger obras clássicas ou populares?

George - É difícil explicar isso, mas não faço distinção. Eu procuro evitar essa divisão entre popular e erudito, o músico tem que ser completo.

JC - Falando um pouco da sua vida particular, como é a sua família?

George - Somos em 12 irmãos, de dois casamentos do meu pai. Eu sou o 11.o filho e só eu trabalho com música profissionalmente. Eu tenho um irmão, hoje secretário do Meio Ambiente em Piracicaba, o Rogério, que é um músico de mão cheia. Aliás, se não fosse por ele eu não seguiria a música. Sou coruja, casado com a Celinha, que trabalha comigo, e tenho dois filhos, a Maria Clara com quase 18, pianista, e o João Pedro com 13 anos, pianista, mas hoje em uma fase guitarrista.

JC - Conte alguma memória da época de infância...

George - Torrinha é uma grande saudade, uma cidade cheia de poesia que eu estou redescobrindo só agora. Quando vim para Bauru eu rompi com a cidade, a esqueci. Mas de uns tempos para cá ela voltou à minha vida. Ela é pequena, mas com um potencial artístico e cultural fortíssimo. Torrinha me remete às obras do Fellini, um “Cinema Paradiso”.

JC - O senhor é um homem realizado?

George - Acho que posso dizer que sou existencialmente feliz.

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Perfil

Nome: George Vidal da Silva Gomes.

Nascimento: 06/ 02/ 1960.

Natural de: Torrinha/ SP.

Time do coração: Santos.

Filme: “Morangos Silvestres”, de Ingmar Bergman.

Música: “Carolina”, de Chico Buarque.

Livro: “O estrangeiro”, de Albert Camus, e “O vermelho e o negro”, de Stendhal .

Nota 10: Para a MPB.

Notas zero: Não julgo o negativo, não vale a pena dar zero para alguém.