08 de julho de 2026
Bairros

‘A pinga me venceu’, diz ex-pastor

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Nos últimos seis meses, Marco Antônio da Silva tem vagado sem rumo pela vida. Desempregado e abandonado pela família, ele precisa garimpar esmolas para poder sobreviver. Seu modo de abordar as pessoas destoa dos demais pedintes da cidade. Ele não fala que está com fome ou doente, muito menos que tem filhos para criar.

Ele chega e diz, simplesmente: “Por gentileza, o senhor poderia me arranjar R$ 0,50 para eu comprar uma pinga?” Até hoje, ninguém se negou a ajudá-lo. “É que sou sincero. Não bebo porque gosto, mas sim porque preciso. Se eu ficar sem cachaça, começo a tremer e corro o risco de sofrer um ataque”, argumenta.

Nem sempre Silva foi viciado em álcool. Durante décadas, ele teve uma profissão estável (era pedreiro) e foi um pai de família exemplar. Evangélico, membro da Assembléia de Deus, ele chegou a atuar, durante 15 anos, como líder de uma comunidade em Marília (100 quilômetros de Bauru).

“Eu era pastor formado. Fiz curso de teologia e tudo mais”, garante. O fato de levar os preceitos bíblicos às demais pessoas não impediu que ele próprio sucumbisse à tentação do pecado. Há pouco mais de cinco anos, Silva começou a beber.

“Minha mulher não aceitou e exigiu que eu largasse o vício. Mas não consegui. A pinga foi mais forte do que eu”, admite. Desde que saiu de casa, Silva foi afundando mais e mais. “Trabalhei na lavoura de café por um tempo, mas aquilo era uma verdadeira escravidão. Para você ter uma idéia, eu recebia R$ 5,00 ao dia - tomava três pingas, e ficava com R$ 3,00 para me manter”, conta. Atualmente, ele dorme nos bancos da praça Rui Barbosa, no Centro de Bauru.

Silva não vê vantagem alguma em viver ao relento - nem mesmo o fato de poder beber sua cachaça à vontade, sem que ninguém o incomode. “Isso aqui não é liberdade, é tortura”, assegura.

Pelo menos uma vez ao mês, ele costuma ir a Marília, para visitar os filhos. “Eles me tratam bem, mas sei que não gostam de mim”, acredita.

Ele diz que tem vontade de largar a bebida, mas não é capaz. Meses atrás, pegou tuberculose e quase morreu. “Foi um pena, pois não via a hora de deixar esse sofrimento para trás”, lamenta.

Embora conviva com tantas privações no dia-a-dia, ele garante não ter perdido a fé em Deus. “Não posso reclamar. Como disse o profeta Jeremias no ‘Livro das Lamentações’: ‘De que se queixa o homem? Queixa-se de seus pecados’”, explica.

____________________ Desabafo

Dois anos atrás, Sebastião Aparecido Maia, 42 anos, saiu de casa porque não queria incomodar ninguém. “Eu bebo e minha irmã reclama. Para evitar problemas com ela, preferi morar na rua”, explica. Mas todo esse bom senso do catador de papéis não costuma ser retribuído pela sociedade.

“Volta e meia, quando estou dormindo, aparece alguém querendo que saia daqui. Dizem que vou passar frio. Poxa, eles estão pensando o quê? Que sou algum mendigo? Sei me cuidar muito bem e trabalho bastante para me sustentar”, reclama.

Maia, que morava no Parque Santa Edwirges (zona noroeste de Bauru), afirma ainda manter contato com a irmã. “De vez em quando, ela aparece aqui para me visitar”, garante.

Apesar de possuir toda essa liberdade no dia-a-dia, ele reconhece não estar desfrutando da melhor das situações. “Eu queria ter casa e família, como todo mundo. Mas enquanto não consigo, continuo por aqui”, explica.

Maia sabe que a vida nas ruas é perigosa. “Coloco minha segurança nas mãos de Deus”, afirma. Semanas atrás, essa ajuda celestial demonstrou ser mais do que providencial para ele. “Eu estava dormindo tranqüilamente, quando passou um caminhão próximo à calçada e derrubou uma barra de metal imensa do meu lado”, conta.

O objeto tinha cerca de três metros de comprimento e aproximadamente 15 centímetros de espessura. “Devia pesar uns 100 quilos. Foi por pouco. Sorte que o meu anjo da guarda estava de plantão naquela noite”, acredita Maia.

____________________ Compromisso de sangue

Quando era adolescente, José Antônio Fim viu seu sangue falar mais alto. Seu irmão mais novo havia sido ameaçado de morte por um bêbado, durante uma briga de bar, e ele achou por bem defendê-lo.

Fim assassinou o homem a facadas e acabou sendo pego pela polícia. Condenado, passou oito anos na prisão, sendo solto em 2005. Natural de Echaporã, região de Marília, ele cumpriu os últimos anos de pena na ala de progressão da Penitenciária 1 de Bauru.

Depois de vagar algum tempo pela cidade, Fim resolveu voltar para Echaporã. Já havia até comprado passagem de ônibus, mas não tinha onde dormir. Resolveu, então, procurar abrigo na velha Estação Ferroviária da Praça Machado de Melo (Centro).

“Era para eu passar apenas um noite aqui. Mas gostei e acabei ficando”, diz ele. Fim mudou de idéia depois de conhecer o catador de recicláveis Sebastião Aparecido Maia, 42 anos. “Ele jogou uma coberta sobre mim e perguntou se eu estava precisando de ajuda. Contei minha história e ele falou que iria arrumar um carrinho para eu trabalhar com recicláveis”, conta.

Desde então, a pequena carroça de arame se converteu na única propriedade do ex-presidário. “Também possuo conta em banco, só que não sobra dinheiro para eu depositar nela”, afirma. Nos últimos meses, Fim garante ter sido procurado diversas vezes pelo irmão.

“Ele quer que eu vá morar com ele. Mas não dá. Ele é casado e tem filhos. Eu só iria atrapalhar”, pondera Fim, que atualmente tem 39 anos de idade.