No caos aéreo de nossos dias, é bom lembrar de outros tempos, quando o céu de Bauru acolhia os aviões da Panair. Recordar também fatos da nossa rica história nesse setor.
Na infância da aviação brasileira, contam os arquivos de Gabriel Ruiz Pelegrina que o governador de São Paulo, Francisco de Paula Rodrigues Alves, estimulou a aviação no Estado. Para instruir os oficiais da Força Pública, foi contratado em 1919 Orthon Hoower, oficial da aeronáutica nos Estados Unidos. No ano seguinte, quando era prefeito de Bauru dr. Octavio Pinheiro Brisolla, este convidou Orthon para conhecer a cidade e no dia 4 de novembro de 1920, pilotando o seu possante biplano Oriol, de 150 HP, acompanhado de João Busse, piloto da Força Pública e do mecânico Roy Scheneider, partiram do Campo de Marte e pousaram num campo improvisado na região do atual Jardim Santana, sendo festivamente recebidos por autoridades e populares. Aqui permaneceram durante 2 dias. Retornou para a Capital levando como passageiro o dr. Brisolla, ocupante do lugar de João Busse, que ficara em Jaú.
Outro fato: o Aeroclube de Bauru foi berço para a formação de grandes pilotos. De um histórico que recebi da jornalista Luciana Raquel Gonçalves Silva Bergamini, constam os nomes de Ozires Silva (participou da fundação da Embraer, foi presidente da Petrobras, Ministro de Infraestrutura, etc); Marcos Pontes (o primeiro astronauta brasileiro a ir ao espaço); Ivon César Pimentel (aviador que recebeu o “espadachim de ouro” das mãos do presidente Vargas e organizou a primeira “Esquadrilha da Fumaça”);. Benedito César (Zico) - ingressou na FAB e foi um dos primeiros pilotos de jato supersônico; Sócrates Monteiro (ex-ministro da Aeronáutica); José Alexandre Widmer (Batata) - maior campeão brasileiro de vôo a vela de todos os tempos; Nacib Salmen (voou entre o Rio de Janeiro a Corumbá-MS, percorrendo 1.600 km quando os campos para escala de aviões eram poucos).
Visando a formação de pilotos de aviões para a Reserva da Aeronáutica e também para a aviação civil e comercial, o Aeroclube iniciou suas atividades em 1939. Os seus pilotos, nos campeonatos de Vôo a Vela, são denominados “Os Imbatíveis”, pois em 32 anos de campeonato eles ficaram 28 vezes em primeiro lugar no ranking nacional. Um dos precursores, o alemão Henrich Kurt, trazido de São Paulo para Bauru por Marinho Lutz, em 1942, iniciou essa atividade com a pilotagem do canguru, um avião sem motor que utilizava as correntes de ar quente para se manter voando. Com peças e matrizes feitas nas oficinas da Noroeste, em 5 de setembro de 1942, voou o primeiro planador, sob a supervisão de Kurt, instrutor da Escola de Pilotagem. Esse aparelho construído com a madeira freijó e telas de algodão, pesava 140 kg, suportando peso de 80 kg. Seguindo projetos europeus, ele construiu 10 cangurus e outros modelos, alguns projetados por seu cunhado Hans Widmer.
Uma curiosidade: terminada a 2ª Guerra Mundial, fato inusitado aconteceu na cidade. Uma fortaleza voadora norte-americana cruzou os céus do Município e assustou os bauruenses, desacostumados com essa operação, que imaginaram a cidade sendo invadida por tropas inimigas, versão depois desmentida, que acalmou os alvoroçados.
Um grande feito: no século XXI, Marcos Pontes foi ao espaço sideral. Ao sobrevoar o universo viu, despontando num minúsculo ponto luminoso distante, a terra onde nasceu.
O autor, Irineu Azevedo Bastos, é colaborador de Opinião