Campos - O presidente Lula e o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), trocaram hostilidades com 12 estudantes universitários, enfeitados com nariz de palhaço, que furaram o bloqueio da segurança e os vaiaram durante inauguração em Campos dos Goytacazes (a 278 quilômetros do Rio). Os jovens foram chamados de “desprovidos de consciência política” por Lula e de “pequeno-burgueses exercendo o mau humor de quem reclama de barriga cheia” por Cabral.
No primeiro compromisso público de Lula no Estado do Rio depois da vaia no Maracanã na abertura do Pan, no dia 13 de julho, sua segurança tentou barrar os poucos opositores presentes e suas faixas de protesto foram recolhidas.
No bairro de Guarus, reduto do rival Anthony Garotinho - ex-governador do Rio e presidente regional do PMDB em litígio com Cabral Filho -, Lula inaugurou uma escola técnica sob aplausos de alunos do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) convocados para o ato, em contraste com pequena vaia e apitaço de 12 estudantes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). O governador perdeu o controle quando começou a discursar e viu - e ouviu - o grupo vaiando-o.
De modo ríspido, pediu que fossem vaiados pela platéia presente - majoritariamente favorável a ele e Lula. “Vocês vão ser vaiados aí, meia dúzia vaiados pela multidão. Vamos dar uma vaia para eles! Uhh, uhh!”, estimulou o governador. “Pronto! Agora deixem eu falar, companheiros! Meia dúzia de meninos pequeno-burgueses exercendo o mau humor de quem reclama de barriga cheia... Fica quieto aí, deixa eu falar, rapaz!”, disse.
Na literatura marxista, os pequeno-burgueses oscilam entre o proletariado e a burguesia, atuando como agente complementar desta última na opressão da primeira. Após a afirmação de Cabral, os jovens continuaram a vaiar e a fazer gestos obscenos.
O governador fez o discurso mais breve entre todos os presentes, 2 minutos e 30 segundos. Ao tomar o microfone, Lula comentou a crítica de Cabral aos manifestantes. “Antes de começar a falar, Sérgio, antes de cumprimentar o povo de Campos, eu queria dizer, ô Sérgio: Você nunca mais fique nervoso com o pessoal que protesta ali. Porque esse pessoal é tão jovem e tão desprovido de consciência política, que vem protestar com nariz de palhaço! Palhaço é uma coisa alegre, fantástica... Eles precisam arrumar uma outra coisa para protestar, porque daqui a pouco vai haver um movimento dos palhaços, que são a alegria de milhões de crianças, contra o tratamento dessa gente”, disse o petista. “Que democracia é essa?”
Dois coordenadores do Sindicato Nacional de Educação Federal (Sinasef), Paulo César Ferreira e Guiomar Valdez, professores do Cefet de Campos, contaram terem sido impedidos de entrar com cartazes de protesto contra Lula. Uma delas, com os dizeres “Governo Lula: Corrupção 1000%, reajuste para os servidores federais da Educação, 0%”, foi tomada por seguranças.
“Que democracia é essa em que só pode entrar faixa para elogiar? É isso que pensa um presidente que a vida toda protestou? Estamos sem reajuste há 12 anos e não pude entrar por pensar diferente. Fui excluído como cidadão, professor da casa e sindicalista”, reclamou Ferreira. Eles comandaram, do lado de fora, um apitaço contra Lula.
Adolescentes com camisetas do programa federal Jovem Aprendiz, recebidas na semana passada, contaram terem sido convocados para a visita de Lula. “Tinha que vir”, disse Jefferson Peçanha, que, como os colegas, não teve aula ontem e recebe bolsa de R$ 380,00 mensais no curso de dois anos de serralheria industrial no Senai.