As denúncias de favorecimento a pelo menos dois ex-integrantes de diretorias no governo, através da liberação de pagamentos de créditos com cheque e empréstimos e a ocorrência de perdas financeiras provocadas pela imobilização de patrimônio com a compra de dois imóveis entre 2003 e 2005, levaram o então presidente da Cooperativa de Crédito dos Servidores Municipais (Crediserv) e atual gerente, Roberto Ceresini, a deixar o cargo ontem, após a matéria do JC.
A informação, dada pela nova presidente da cooperativa, Vanuza Beluci, foi confirmada ontem à tarde pela diretoria e o próprio ex-presidente. “Estou saindo para deixar a diretoria à vontade para agir e verificar o que for preciso. A única questão da matéria é que não houve ingerência política em minha gestão”, disse Roberto Ceresini ontem à noite, ao comentar a denúncia feita pelo JC de prejuízos nas operações da Crediserv, a maioria em seu mandato, até maio de 2005.
As operações, aliadas à utilização equivocada de recursos para comprar imóvel, que depois foi vendido em troca de aluguel pago pela própria cooperativa que era proprietária do local, provocaram a despatrimonialização do grupo e colaboraram, junto com a autorização de não-recebimento de dívidas em favor de associados, com a elevação dos índices de risco, em 2006, cuja ocorrência teve como principal causa, segundo o ex-presidente, problemas no sistema de base de dados.
A maior parte das operações ocorreu entre 1997 e maio de 2005, quando Roberto Ceresini presidiu a cooperativa. Ele reconheceu que a compra dos imóveis foi equivocada. A Crediserv comprou por R$ 59.194,49, em outubro de 2002, uma casa que ficava quase em frente onde funcionava, na quadra 10 da rua 1º de Agosto. A aquisição, até hoje não explicada, teria sido feita com o objetivo de se demolir o imóvel para construção da sede própria.
Mas a casa ficou 17 meses sem ser utilizada, período suficiente para que a cooperativa perdesse R$ 20 mil pela imobilização do investimento, isso a 2% ao mês. Depois disso, ele também autorizou a compra de outro imóvel na quadra 13 da rua Araújo Leite, onde está a Crediserv até hoje, por R$ 100 mil. Depois vendeu o imóvel aceitando como pagando valores em aluguel em favor do próprio comprador, em 25 parcelas.
A cooperativa ainda está cobrando judicialmente, neste mês, o ex-presidente da Cohab-Bauru Rubens de Souza, por pagamentos acima do limite com cheque especial liberados por Ceresini em 2004, cuja dívida somaria mais de R$ 7 mil. Na operação, Souza também conseguiu resgatar a capitalização, mesmo devendo para o sistema.
Em outra ação judicial, a cooperativa tenta recuperar o equivalente a R$ 50 mil contra o ex-diretor da Emdurb Jorge Monteiro, por empréstimos não liquidados. O então presidente da Crediserv, Éverson Demarchi, autorizou a liberação da rescisão salarial de Monteiro na Emdurb, mesmo com saldos a receber na cooperativa.
Nova diretoria
A diretoria atual da Crediserv informou ontem que está sendo levantado junto à Central das Cooperativas de Crédito Mútuo do Estado de São Paulo a viabilidade para instauração de processos administrativos para apurar as denúncias e definições de responsabilidades. Também está sendo verificada a realização de auditoria para apuração dos fatos, de forma menos onerosa à cooperativa.
Na próxima segunda-feira, a Central de Cooperativas envia dois auditores para dar suporte no início dos trabalhos internos. A diretoria informou que “aceitou a colocação do cargo do gerente comercial à disposição, levando à demissão sem prejuízo de eventuais responsabilidades que serão levantadas durante os trabalhos de investigação”.
Ao lamentar as denúncias, a diretoria comenta que o “o servidor deve se tranqüilizar porque todas as medidas financeiras e administrativas para recuperação dos níveis de risco já foram tomadas, inclusive com ações judiciais para retomar os créditos em aberto mencionados na reportagem. A Crediserv é uma instituição sólida, independente e já reestruturada”, reforçam.
Atualmente, a cooperativa conta com volume de capital em carteira de empréstimos de R$ 3,5 milhões. “Todo pagamento é assinado por gerência e outro membro de diretoria e todas as despesas mensais são triadas. Em 10 anos de atuação é a primeira vez, neste ano, que a Crediserv atinge nível A de risco, conforme parâmetros do Banco Central e, apesar de todas as despesas em aberto e levantamentos do passado, conseguimos sobra neste primeiro semestre de R$ 90 mil”, mencionam a presidente, Vanuza Beluci, o vice, Luiz Adriano de Souza Carvalho, e o gerente administrativo-financeiro, Fábio Suga.
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Sindicato quer apuração
O advogado do Sindicato dos Servidores Municipais (Sinserm), Sandro Fernandes, disse ontem que as denúncias de irregularidades na Crediserv vão ser levadas à reunião de diretoria da entidade já na próxima semana.
“Um dos assuntos da pauta certamente é este, dada a gravidade das denúncias de dilapidação do patrimônio da cooperativa do servidor nas gestões passadas. Vamos solicitar às instituições competentes a investigação aprofundada dos fatos, inclusive sobre o uso de dinheiro para pagar material de campanha eleitoral e as relações de favorecimento para liberações de dívidas e créditos em favor de ex-cargos de confiança da prefeitura”, informa Fernandes.