08 de julho de 2026
Ser

Pecados nada originais

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 9 min

Os sete pecados capitais nada têm de novo. Estampados mais de uma vez em horário nobre na maior emissora de TV aberta do País, os vícios capitais já foram motes de duas novelas: “Pecado Capital”, de Janete Clair, e a atual “Sete Pecados”, de Walcyr Carrasco. Além da televisão, outras mídias há muito exploram o tema. O filme “Seven – Os sete crimes capitais” de 1995, com direção de David Fincher, entremeia a trama de assassinatos cometidos por um serial-killer seguindo a seqüência dos sete pecados capitais: gula, cobiça (soberba), preguiça, luxúria, vaidade (orgulho), inveja e ira.

Se formos mais fundo nessa busca, nas artes plásticas e na música, o tema “pecados capitais” também está presente. Já na Baixa Idade Média, o italiano Giotto di Bondone (1266-1337) e o holandês Hieronymus van Aken, cujo peseudônimo é Hieronymus Bosch, (1450-1516), entre outros, já exploravam os vícios capitais em seus quadros. Hoje, não é preciso procurar muita para ver a expressão “do pecado” em suas mais diversas formas: nome de banda, tema de música, instalações, nossas vidas todos os dias.

Mas aí é que tá?! Apesar dos pecados capitais estarem tão presentes em nosso cotidiano, nem sempre sabemos se eles são tratados de maneira “séria” ou não. Outra: muitos sequer sabem das origens dessas “más determinações” e entraves diante de Deus. As origens dos vícios capitais remontam à Grécia e consta que no século 6 o papa Gregório Magno tenha hierarquizado em ordem decrescente os vícios que mais ofendiam ao amor, na época: orgulho (soberba), inveja, ira, melancolia (preguiça), avareza, gula e luxúria. Entre outros religiosos, São Tomás de Aquino em sua Summa Teológica trata sobre os vícios capitais.

Para entender melhor os pecados capitais, o JC procurou o professor Antonio Marchionni da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC–SP). Marchionni é doutor em filosofia medieval e mestre em teologia e trata do fato com rigorosidade um tanto teologal. Por que, ainda hoje, os vícios capitais ainda são tão discutidos? Ao leitor, lembramos: “Cuidado, cuidado, Deus vê”.*

Jornal da Cidade - Professor, como os sete pecados capitais surgiram?

Antônio Marchionni – Esses pecados surgiram de uma tradição dentro da filosofia e da sabedoria dos povos. Não são exatamente invenções da religião cristã, os pecados vêm da Antiga Grécia, passando pelo cristianismo. Essas condutas e atitudes sempre foram consideradas “pecados” dentro da sabedoria universal. São as chamadas ações negativas do ser humano e levam o título de “capitais” pela derivação da palavra latina “capo”, que significa cabeça. Capital é aquilo que está na cabeça e origina outras coisas ruins. Não há como precisar com exatidão a época em que os pecados capitais foram codificados, mas há dentro do cristianismo, desde a Idade Média, o elencar de sete dessas atitudes das quais outras tantas decorrem em oposição às Sete Virtudes Cardeais. O certo é que os sete pecados estão codificados no catecismo da Igreja Católica pelo menos desde o Concílio de Trento e depois a revisão feita pelo papa Pio X no início do século 20.

JC – É possível dizer como as Sete Virtudes surgiram?

Marchionni – Na verdade não, já com Platão há a menção das virtudes. O próprio filósofo estabeleceu quatro delas: justiça, fortaleza, temperança e prudência. Com o tempo essas quatro virtudes fluíram para o cristianismo e a religião adicionou outras três: fé, caridade e esperança. Foi formado então um conjunto de sete virtudes opostas a sete atitudes negativas, ou seja, os Sete Pecados Capitais.

JC – As virtudes são chamadas cardeais?

Marchionni – Não exatamente. As quatro virtudes de “Platão” são chamadas cardeais porque vêm do latim “cardo”. Em português talvez não exista uma correspondência lógica, mas os cardos em língua latina são os suportes da porta, em italiano “cardine”, “cardine della porta”, os batentes. Como os batentes sustentam as portas, as virtudes sustentam a grandeza do ser humano. Às quatro virtudes já vistas na Grécia são denominadas cardeais, as outras três, implantadas pelas Igreja, levam o nome “teologais” , porque são tipicamente vertidas a Deus. Virtudes que ajudam o homem a pensar como Deus.

JC – Os pecados foram incorporados ao cristianismo por quê? Eles tinham uma finalidade de auxiliar na doutrina dos fiéis?

Marchionni – A finalidade do cristianismo enquanto religião é levar o homem até Deus, os sete pecados são os entraves que impediriam o homem de alcançar Deus e a felicidades. Qualquer filosofia desde a antigüidade e qualquer religião procura a felicidade – por meio das sete virtudes. Todas as discussões e ensinamentos das religiões têm a finalidade de fazer o homem ver Deus. Esse conceito de controle ou não controle advém de uma compreensão equivocada da religiosidade. As pessoas que não acreditam na religião, na felicidade eterna, na imortalidade, no paraíso, em Deus não compreendem porque os pecados existem. Então, para explicar os pecados capitais, utilizam categorias próprias de quem não tem fé e vão dizer que estes são instrumentos de poder.

JC – Há punições para os vícios capitais dentro do cristianismo?

Marchionni – Não existem punições instituídas, a pena é dada pela própria consciência do indivíduo. A consciência se torna apequenada, incapaz de caminhos superiores. A pessoa se autopune, não existem sanções determinadas pela Igreja, ela só recomenda a alma humana a evitar os vícios.

JC – Então os sete pecados não são condenáveis?

Marchionni – São condenadíssimos! Por Deus, pela sabedoria e pelos livros sagrados.

JC – Os sete pecados capitais estão descritos na Bíblia?

Marchionni – Eles aparecem a toda hora. São sabedoria esparsa dentro das escrituras. As parábolas de Jesus contidas nos quatro evangelhos de Mateus são ilustrações de pecados capitais a serem evitados. Nem os dez mandamentos estão listados na Bíblia. Essa classificação dos pecados ocorreu através de catecismos, como resultado das mentes “unânimes” sobre o que há de ruim no homem. Mas é preciso dizer que assim como os pecados estão na Bíblia, as bem-aventuranças que se opõe ao mal do homem também estão nas escrituras, por exemplo, em Mateus capítulo 15, o “Sermão da Montanha”. Os comportamentos de bem-aventuranças estão opostos aos vícios: tornar-se pobre em espírito para buscar verdades maiores, por exemplo, se contrapõe à soberba. Outra: Jesus recomenda “Bem aventurados os puros de coração porque verão a Deus” , e estes puros de coração que vêem o outro por inteiro se opõem ao vício capital da luxúria, que seduz apenas com “partes” do outro.

JC – Os sete pecados são aplicáveis ainda hoje? Existe uma necessidade de substituir alguns vícios por outros ou aumentar a lista? Há estudos sobre isso?

Marchionni – Qualquer mal que é feito a si mesmo, até fumar, beber em demasia, poderia estar listado entre os vícios capitais. Mas, grosso modo, esses excessos acabam entrando como “gula”. Creio que hoje os pecados capitais são mais do que necessários, porque o ser humano é “anjo” e “demônio”. O humano precisa a toda hora se liberar desse seu “demônio” e se aperfeiçoar enquanto pessoa. Os vícios capitais eram válidos no passado, são hoje e continuarão válidos num futuro. Agora, pensando em uma lista, talvez ela pudesse sim ser alterada, por outro lado, se nos limitarmos a evitar esses vícios a sociedade já será mais harmônica.

JC – São três tipos de pecados: venial, original e mortal. Quais as diferenças entre eles?

Marchionni – O original é o pecado de Adão e Eva, que, no fundo, é o pecado que assola constantemente o humano. Sobretudo nas filosofias este é o pecado presente, onde o homem se considera Deus. As escrituras quando se referem ao pecado original querem apontar que o homem deve se comportar como filho de Deus. O pecado de Adão e Eva foi “comer” a maçã para se tornarem deuses, idéia próxima das filosofias existencialistas, freudiana, nietzscheana, positivista, iluminista, que acabam por conduzir seus adeptos a essa questão: o homem é Deus de si mesmo. A nova divindade da modernidade é o homem. Os pecados mortais são atitudes de rejeição e afastamentos dos caminhos de Deus, são as contradições dos 10 mandamentos. Os pecados veniais, por sua vez, são como os mortais, mas em menor grau. Uma coisa é roubar R$ 5,00, outra é roubar R$ 5 milhões. Para os pecadores mortais a vida eterna será no inferno, mas não esse da imaginação popular com diabos e demônios.

JC – O que o senhor acha sobre as inspirações para peças artísticas como livros, músicas, artes plásticas, novelas que os pecados capitais trazem?

Marchionni – Nunca refleti muito sobre isso, não acompanho a novela, mas tudo depende de como a coisa é tratada. Se é apenas por diversão ou para rir sobre os traumas humanos ou se é uma atitude sapiencial, com rigor para o bem comum. É preciso que se analise cada peça, se realmente se referem aos vícios ou se buscaram o nome apenas porque é bonito. Se há um tratamento dos pecados com “rigor de bisturi”, informando, a abordagem é válida, o problema é que muitos crêem que pecar é bom.

JC – No caso das artes plásticas, o assunto “sete pecados” é um tema recorrente. Por exemplo, o pintor Hieronymus Bosch já utilizava os vícios capitais em sua obra. Essas pinturas, especialmente, na Idade Média, tinham um caráter mais “educativo”?

Marchionni – É, bem ilustrativo. Até 1900 somente 1% das pessoas sabia ler. Como era dito na Idade Média, “A pintura é a leitura dos analfabetos”, era assim que os ensinamentos eram passados para o povo. O conhecimento, sobretudo da Sagrada Escritura, era conhecido através de pinturas nas igrejas. Hoje as artes já não têm mais esse caráter.

JC – O senhor acha que é possível passar pela vida incólume aos pecados capitais?

Marchionni – É possível sim. Os santos são aqueles que conseguiram através da meditação, da penitência, do jejum, da contemplação, da humildade. Mas creio que é difícil escapar de pequenos deslizes. A natureza humana é ferida e tende para o carnal, o vício.

JC – Tem limite o perdão?

Marchionni – Segundo o evangelho não há limite. Os humanos também precisam perdoar. Os islâmicos dizem “Alá é sempre misericordioso”. Então, teoricamente, o perdão é como o de um pai, nunca negado.

JC – O senhor acha que há uma supervalorização dos pecados capitais em detrimento das virtudes?

Marchionni – Existe uma celebração do corpo e do prazer carnal, uma supervalorização. Todas as visões de mundo que desconhecem Deus e o além, nada mais tem que fazer do que viver esta vida. E viver esta vida está em conformidade com o prazer. A diferença é que as religiões pregam uma certa renúncia ao prazer desmedido, ao prazer que faz mal, que é exercido as custas de alguém ou de outrem.

* Inscrição na obra: “Os Sete Pecados”, de Hieronymus Bosch.