08 de julho de 2026
Cultura

Leio, logo existo

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 2 min

O homem precisou de alguns milhares de anos para enfim endireitar a coluna e passar a andar ereto. Mas o passado de todos os primatas que o antecederam era inexistente aos olhos do homo sapiens. Com o tempo, passou a balbuciar algumas dessas experiências, transmitidas de pai para filho pela voz. Foi então que fez-se a escrita (conseqüentemente a leitura) e a verdadeira história começou, pelo menos a oficial.

A escrita em si teve um papel decisivo na história do homem, “inclusive é a grande divisora da história humana”, diz a professora de ensino médio de história de Bauru, Sônia Maria Mozer. Para se ter uma idéia do significado e do poder da leitura, principalmente na Antigüidade, Mozer conta que o valor de uma civilização antiga podia ser medido pelos livros que ela possuía.

“O Império Romano chegou a ter centenas de bibliotecas e milhões de livros! Só que, naquela época, os livros eram manuscritos, algo extremamente caro. Então imagine o valor da sociedade romana!”, cita a autora de dois livros didáticos que foram adotados pelo Ministério da Educação (MEC) nas escolas públicas, escritos em parceria com a professora Vera Telles.

A solução para o problema do acesso limitado à leitura foi trazida pelo alemão Gutenberg no século 15, quando criou umas das maiores invenções da humanidade: a técnica de impressão. Com a expansão da divulgação da escrita e o conseqüente aumento da alfabetização, o homem teve a possibilidade de preservar a informação no decorrer de décadas e, mais ou tão importante quanto isso, desenvolveu a capacidade de sonhar.

“A informação passou a ser distribuída a públicos mais amplos. Esse acesso expandiu a capacidade do homem de sonhar. Com a literatura ficcional, nós temos uma potencialidade da própria consciência humana”, analisa o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Pela leitura, as pessoas passaram a atualizar-se, conhecer o mundo e contestar. “Foi com base nas idéias de livros de filósofos franceses que o mundo mudou, onde os homens se inspiraram para promover a Revolução Francesa, Inglesa e Americana”, pontua Mozer.

Possuir um livro era e é tão importante que todos os governos tiranos do mundo proibiram ou queimaram obras, como aconteceu no Brasil na época da ditadura militar. “Os livros têm tanta força que alguns, que foram caçados e até queimados, reapareceram. Como a obra de Aristóteles, tido como pagão pela Igreja Católica”, salienta a professora de história.