09 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Grotescamente humano

Por Padre Beto * | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Nos corredores da redação do jornal, encontrei a excelente fotógrafa Neide e começamos a conversar sobre sua experiência em registrar, através de imagens, o cotidiano. Entre outras coisas, perguntei a Neide sobre alguma experiência marcante em sua carreira. Pensando um pouco, a fotógrafa respondeu que um determinado dia de trabalho a marcou profundamente. Pela manhã, Neide foi fotografar uma cachorra que havia adotado e amamentava alguns gatinhos; na tarde do mesmo dia, ela foi obrigada a registrar uma criança recém-nascida jogada no lixão.

Os seres humanos nascem automaticamente em uma cumplicidade coletiva. Nós surgimos na vida integrados a uma verdadeira teia social: família, grupo de amigos, bairro, escola, sociedade, enfim, todas essas dimensões humanas nos circundam obrigatoriamente. Deles recebemos, desde pequenos, amor, rejeição, língua, valores, afago, tapas, educação formal de péssimo ou alto nível, dinheiro, bens materiais, utopias em relação ao futuro, uma gama de elementos que acabam formando ou pelo menos influenciando nossa mentalidade.

Durante nosso desenvolvimento como pessoa, uma carga cultural vai se infiltrando em nosso ser. Gostemos ou não nascemos no Brasil, por isso falamos a língua portuguesa, vivemos em uma determinada fase de nossa democracia, possuímos determinadas dificuldades em nossa economia terceiro-mundista, sofremos ou nos anestesiamos com a criminalidade cotidiana, além de muitos outros aspectos que pertencem a nossa cultura. Cada pessoa humana se enriquece através de uma tradição de seu povo, de sua educação familiar, do nível de sua escola, através de suas experiências e conhecimentos adquiridos neste determinado contexto histórico, econômico e social.

Goethe afirmava a um amigo que todos nós, sem exceção, somos obrigados a receber e aprender daqueles que já estiveram por aqui como daqueles que estão por aqui. Mesmo o maior gênio não poderia ir muito além de sua própria cultura. Por isso, se paramos para analisar nossos atos e pensamentos, ficaremos surpreendidos em encontrar neles aspectos que muitas vezes criticamos em nossa mentalidade social. Chamamos, por exemplo, muitos da chamada classe política de corruptos, mas muitas vezes não obedecemos às leis de transito, nos chocamos com a criminalidade na televisão, mas não queremos nos comprometer quando somos testemunhas de alguma injustiça, achamos o capitalismo um sistema injusto, mas “adoramos” ter dinheiro e sonhamos em ganhar na loteria.

Em outras palavras, se o meio social não é um fator determinante em nossa mentalidade, ele, pelo menos, vai contaminando aos poucos grande parte dela. Nós nascemos em uma sociedade na qual cada um luta ou tenta lutar por sua prosperidade individual. Isso quer dizer que a prosperidade não é regra, mas exceção. Quando a prosperidade não é regra, o capital torna-se fundamental. Já dizia Jesus Cristo “Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12, 34).

Na luta pela sobrevivência somos obrigados a nos preocupar com o acúmulo de capital. O poder aquisitivo se torna critério fundamental para a escolha de amigos, julgamento de pessoas ou aquisição de um futuro genro. Não é matemático, mas quem vive em um sistema capitalista acaba tendo cifrões como lentes de contato. O resultado é triste: deixamos de perceber que deveríamos construir uma prosperidade coletiva e ficamos em busca de sucesso pessoal. Para isso vale tudo: livros que contém segredos mentais para atrair dinheiro, palestras motivacionais, conhecidos que nos indiquem a alcançar uma vaga de trabalho, diversas formas de corrupção e até mesmo Deus colocamos em um jogo puramente humano.

Isso mesmo, pela influência do capital criamos uma “teologia da prosperidade individual” que prega que aquele que possui mais poder aquisitivo está mais na graça de Deus do que aqueles que possuem um poder aquisitivo menor. Assim, vamos às igrejas, pois lá encontraremos um Deus que nos fará alcançar o sucesso individual, mesmo que para isso tenhamos que doar a “Ele” todo o dinheiro que temos neste momento.

Viver em uma democracia combinada com o capitalismo não é fácil. Para tal são necessários senso crítico e a consciência de que as próximas gerações só terão qualidade de vida a partir do momento que começarmos a construir concretamente uma sociedade justa, de homens e mulheres que agem corretamente, que não precisem ter o dinheiro no centro de seus corações, mas outros valores que são realmente fundamentais. Enquanto não nos despertarmos para esta consciência, encontraremos exemplos significativos no reino animal e outros grotescos em um universo que chamamos de humano.

* Para entrar em contato com o padre Beto, acesse o site www.padrebeto.com.br.