Emprestar uma lata de fermento, levar um pedaço de bolo ou tomar conta da casa de alguém que está viajando. Estas são algumas atitudes que, apesar da correria do dia-a-dia, ainda não caíram em desuso para muitos bauruenses que ainda valorizam a importância da amizade de um vizinho.
Além de favores, eles trocam vivências e confidências. Muitos cuidam um do outro como se fossem parte da família e mantêm uma relação que pode se reverter em benefícios, inclusive, para a saúde. Comemorado amanhã em todo o Brasil, o Dia do Vizinho é uma forma de homenagear e fortalecer vínculos de amizade com o morador ao lado, costume cada vez mais raro nos dias atuais. É também um alento para a psicologia, que vê com preocupação a perda dos laços de afeto que há muitas décadas uniam moradores próximos.
Para Carmen Maria Bueno Neme, doutora em psicologia clínica, em uma sociedade cada vez mais isolada, padecendo de doenças como depressão e estresse, a oportunidade da convivência diária com o vizinho pode significar melhoria na qualidade de vida. “As pessoas, pelas muitas exigências do cotidiano, acabam tendo uma vida muito sobrecarregada e muito voltada para elas mesmas. Isso dificulta as relações de amizade”, afirma.
Segundo a psicóloga, nos últimos 50 anos, houve uma mudança muito grande no estilo de vida das pessoas, motivada principalmente pelas facilidades oferecidas pela tecnologia moderna, que reduziu o contato humano. “O ser humano, que não é máquina, precisa de contato e afeto. Precisamos resgatar urgentemente valores como amizade, tolerância e solidariedade. E, depois da família, o vizinho é o ser humano mais próximo de cada um de nós”, ressalta.
No entanto, Carmen acredita que haja um princípio de movimento contrário ao vivido atualmente pela sociedade. “Vejo que as pessoas já estão começando a sentir falta dessa convivência e se dando conta de que a vida não pode se limitar a esta correria”, acredita.
Acolhimento
Até dois anos atrás, a psicóloga Hermínia Maria Lopes de Souza, de 40 anos, nunca tinha experimentado uma relação de proximidade com a vizinhança. Mas assim que se mudou para o Jardim Higienópolis, em 2005, foi muito bem recebida pelos moradores próximos. “Eu senti um acolhimento muito gostoso. Nós conversamos sobre problemas, nos ajudamos, trocamos conselhos e confidências”, revela.
Hermínia é a “caçula” do bairro pelo tempo em que mora no local e provavelmente também pela idade. Talvez por essa razão, as vizinhas parecem ter um cuidado todo especial com a psicóloga. “Um dia eu estava com cólica e fiquei o dia todo trancada em casa. A vizinha da frente ficou preocupada e veio em casa para saber se eu estava bem. Achei aquilo muito carinhoso”, afirma.
Ela também se recorda de quando sua casa foi assaltada, em janeiro. “A dona Helena ficou preocupada e queria que eu fosse dormir na casa dela naquela noite”. Desde então, sempre que Hermínia viaja, as vizinhas da rua ficam de vigília. “Elas têm os meus telefones, então viajo sossegada”, diz.
A dona de casa Helena Quialheiro de Oliveira, a dona Helena, tem 70 anos e mora no bairro há 34 anos. Ela é uma das organizadoras da Festa do Vizinho, uma reunião entre amigos para comemorar o Dia do Vizinho. Antecipando a data, hoje, a partir das 16h30, na quadra 10 da rua Benjamin Constant, os vizinhos retomarão a celebração, que deixou de ser realizada há dois anos. “Eles trazem bolinho de chuva, bolo de fubá, pão caseiro, chás dos mais variados tipos e café, que têm de ser tomado com xícara e pires, nada de copinho descartável”, explica.
Segundo ela, a festa é uma forma de evidenciar a importância dos vizinhos na vida de todas as pessoas. “Em março, estava fazendo o bolo de aniversário do meu filho quando, mais de 23h, percebi que não tinha fermento”, lembra dona Helena. “Não pensei duas vezes: fui até a vizinha do lado e pedi o fermento emprestado. Se não fosse ela, meu filho ia ficar sem bolo”, conta.
Amiga de dona Helena, a dona de casa Maria Maldonado, 74 anos, também participa de todas as festas realizadas no Dia do Vizinho, mas afirma que não é só no data que lembra dos moradores mais próximos. Mesmo com a correria de seu dia, divididos entre as tarefas domésticas e os trabalhos como passadeira de roupas, ela revela que sempre prepara tortas e bolos em casa e, nessa hora, a vizinhança nunca é esquecida. “Tudo o que eu faço em casa, divido com as vizinhas. E elas trazem coisas deliciosas para mim também. Nossa relação é muito boa. Somos uma verdadeira família”, afirma.