10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Muricy, vida de viajante geográfico

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 11 min

Professor da Universidade do Sagrado Coração (USC) e fundador de muitos de seus mais renomados órgãos. Apaixonado por história e geografia, mas acima de tudo um amante do mundo. Aos 71 anos, Muricy Domingues é um homem com muitos quilômetros rodados tantas são as viagens que já fez.

Muricy coleciona histórias do Oiapoque ao Chuí e por mais quais países a imaginação do leitor quiser viajar. Cruzeiros no Nilo, guerrilha na Colômbia, belezas e cinema italianos (vistos de perto) são algumas das memórias.

O homem que está além de seu tempo, correndo atrás de informação, independência e modernidade, encarou um brinco na orelha aos 60 anos e tantos outros desafios. Escritor, faz parte da Academia Bauruense de Letras e é responsável por volumes que vão da metodologia científica a livros didáticos.

Em casa, é apegado demais aos filhos já crescidos e descendente de uma família judia que chegou a ter terras a perder de vista: de Espírito Santo do Turvo, no Estado de São Paulo, a Santo Antônio da Platina, no Paraná. As mais de duas horas de conversa com Muricy Domingues não foram suficientes para relatar toas as suas experiências. Mas o tempo foi insuficiente para muitas viagens, contar sobre, fatos pitorescos e muitas visões de mundo...

Hoje é domingo, 19 de agosto. O horário é este mesmo, pegue sua passagem e sente em sua poltrona. A viagem começa agora: um pouco do professor.

Jornal da Cidade – Conte um pouco da sua infância.

Muricy Domingues – Eu nasci em Amparo, sou filho de um gerente das Casas Pernambucas e por isso fui mudando de cidades: Amparo, Promissão, Lins, Bauru. Aqui cheguei com quase 8 anos e cursei o Grupo Escolar Rodrigues de Abreu, onde hoje é o Colégio São José. Depois fui para o Instituto Escolar Ernesto Monte e lá fiquei até a 6ª série, quando meu pai foi transferido para Santos. E lá fomos nós, no Instituto de Educação Canadá. Eu era contemporâneo de um político com o qual eu briguei depois, o Mário Covas. Quando eu estava terminando o “clássico” – uma das formas do ensino médio, na época – meu pai teve um espasmo cerebral e precisamos voltar a Bauru, aqui tínhamos uma casa na rua 7 de Setembro. Na cidade eu cursei a segunda turma de história e geografia da Fafil (Faculdade de Filosofia), que originou a Universidade do Sagrado Coração.

JC – Por que o senhor brigou com o Covas?

Muricy – Briguei agora, quando já era professor. Sabe, ele esqueceu da importância dos professores quando se tornou governador. Bom, é assim até hoje. Esse que está no poder também não valoriza o professorado. O último governador bom para os professores chamou-se André Franco Montoro.

JC – Como começou a sua carreira como professor?

Muricy - Me formei na Fafil e lá iniciei minha carreira em1956. Lá e no Instituto Ernesto Monte, já no primeiro ano de faculdade. Dei aula para uma enxurrada de gente boa, entre eles o Jurandyr Bueno Filho e Roberto Vicente Calheiros. Depois fiz concurso nas áreas de história e geografia. O meu examinador de história foi o professor doutor Sérgio Buarque de Holanda. De 250 candidatos, ele aprovou 11 e eu fiquei em 3.º lugar, é a coisa de que mais me orgulho na vida. Em 1959, também, fiz o concurso para a geografia e passei em 5.º, num universo de 480 pessoas. Eu tinha que resolver minha vida, né?! Com os concursos, não consegui cadeiras em Bauru e fui remanejado para Martinópolis e Álvares Machado, na Alta Sorocabana. De lá passei por Lençóis Paulista e voltei para Bauru para lecionar geografia no colégio Stela Machado e na escola Professor Silvério São João. Olha, esta foi a melhor escola em que eu pude dar aulas, todos os meus filhos estudaram lá.

JC – Quantos filhos o senhor tem?

Muricy – Quatro. Um superdotado, formado em engenharia aeronáutica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e que hoje é tenente aeronáutico. O segundo é dentista e trabalha na Marinha. Minha terceira é bióloga e presidente da Fundação Veritas, que eu ajudei a fundar. A quarta é a minha pequena, já tem 38 anos, e está na Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), ela é infra-dotada. Eu sei porque um dos meus alunos, que almoçava em casa aos domingos, aplicava testes de aptidão e interesse em meus filhos.

JC – E a USC, professor? Como foram esses 47 anos de casa?

Muricy – Eu deixei a USC em 2003, mesmo estando aposentado desde 1987. Tinha toda uma relação de “cumplicidade” com a instituição. Dei aulas no cursinho de 1956 a 59. E, a partir de 1963, assumi as aulas de geografia e biogeografia, depois peguei a disciplina de metodologia da ciência e escrevi, em parceria com a Marice Thereza Correa, o livro que é o carro-chefe da Edusc (Editora da USC): Bases Metodológicas para o Trabalho Científico. Na década de 90 passei a dar aulas de geografia na área do turismo, sou um turista inveterado. Na USC eu também ajudei a fundar diversos setores, como o Teatro Veritas. Fiz parte do primeiro grupo de teatro da USC, criado por dom Paulo Evaristo Arns e pelo frei Roberto Belarmino Lopez. Nós encenamos a via-sacra de Henry Ghéon, traduzida do francês pelo próprio dom Evaristo. Participei também da Fundação do Núcleo de História, da Fundação Veritas, da Orquestra Veritas. Eu fui músico da orquestra e também tive um grupo que se chamou “Filhos do Ritmo”... quisermos pôr “Filhos da Pauta”, mas ninguém deixou (risos).

JC – Isso tudo quando, professor?

Muricy - O teatro é antigo, foi fundado já na década de 50; o Núcleo de História também é mais antigo, de 80, os outros todos são dos anos 90 para a frente. A irmã Elvira sempre esteve comigo, eu com ela. Depois eu ainda fiquei como chefe de gabinete e disparei um projeto junto à Agência Espanhola de Cooperação Internacional para intercâmbio acadêmico. Aliás, foi pela agência que eu cheguei a dar aula na Universidade de Léon. Ainda na época, a Fundação Veritas foi vinculada à Associação Panamericana de Crédito Educativo. Olha... quase esqueci de um de meus xodós, ajudei também a montar a Rádio Veritas, onde hoje tenho um programa nas manhãs de domingo, o “Grandes Músicos”, sempre às 9h.

JC – Quantos lugares o senhor já visitou? Há ainda desejos de destinos não conhecidos?

Muricy - Na América Latina falta eu passar pela Venezuela e Equador. No Brasil, não conheço o Acre e o Amapá. E o que eu tenho vontade de conhecer é o Leste Europeu: República Tcheca, República Eslovaca, Polônia e, se tiver a chance, Romênia e Bulgária. Sabe o que é? Esses países sempre estiveram sob o regime soviético e nas minhas 12 viagens pela Europa sempre encontrei obstáculos nesses locais. Outro país europeu que não conheço é a Inglaterra.

JC – Por que não a Inglaterra?

Muricy – Você quer mesmo que eu conte? É uma questão histórica (risos): Em 1703, Portugal assinou o tratado de Bill Aberdeen com a Inglaterra, que previa o direcionamento de todo o excesso da produção industrial inglesa para Portugal. Em troca, os portugueses mandariam o “superávit” de vinho do Porto e azeite para a Inglaterra. Nos primeiros anos, a Inglaterra mandou pouca coisa para Portugal, mas um tempo depois os ingleses inundaram o mercado luso de bens, o que provocou a derrama no Brasil. Então, quando você ver uma libra esterlina, pense que aquilo pode ser ouro brasileiro. A derrama fez com que a Inconfidência Mineira surgisse, fizemos a abolição em época errada e perdemos a monarquia. Eu sou monarquista convicto, conheço os regimes da Dinamarca, da Suécia, da Holanda... e vejo que os países funcionam maravilhosamente bem.

JC – Voltando para Bauru. E o Plano Diretor?

Muricy – O Jurandyr Bueno Filho fez todo o projeto já no mandato do doutor Nuno (de Assis) e quando o Alcides Franciscato assumiu a prefeitura, o plano passou a ser implantado. O Jurandyr chefiava o escritório de planejamento e eu fazia a conferência das plantas. É Bauru antes de Alcides Franciscato e depois da administração dele. Ainda o Luiz Edmundo Coube e o Oswaldo Sbeghen seguiram à risca o Plano Diretor, depois disso não me responsabilizo pelos traços da cidade. O plano precisava ter sofrido alterações mas, hoje, muitos dos viadutos previstos não foram construídos e a última estultice foi a colocação de radares na cidade. Os radares precisavam ter sido postos apenas nos pontos onde os acidentes fossem freqüentes.

JC – Falando em planos, como foi a implantação do Projeto Rondon?

Muricy – Foi uma das coisas mais gostosas que caiu na minha mão. O Projeto Rondon queria levar os estudantes para ter contato com a natureza e o problema humano nas áreas mais críticas da Amazônia. Nossa sede era na rua Bandeirantes, pena que o projeto foi desativado.

JC – Professor, conta agora alguma história das suas viagens...

Muricy – Passei uma vez pela zona de narco-guerrilha na Colômbia, mas digo que não quero voltar para lá. Nunca me deparei com uma situação de guerra deflagrada, visitei os campos de concentração e tentei em um deles filmar dentro da câmara de gás e por duas vezes as câmeras desfocaram em Dahal, na Bavária. Eu li muito sobre o assunto e eu sou “meio descendente de judeu”, uma antepassada que chegou ao Brasil no século 16, vinda de Portugal. Visitei a casa dela em Olinda, dessa Branca Dias. Mas, na verdade, ela nem chegou a morrer no Brasil. Foi denunciada e executada em Portugal pela Inquisição. Na Europa, um dos lugares que mais gosto é a Eslovênia. Um povo trabalhador, educado e hospitaleiro e de construções sólidas.

JC – E essa história do senhor acampar por toda a Europa?

Muricy - De “barraca” fui com uma turma seis vezes para a Europa, numa delas foram 56 dias viajando. Em 1983, foi a primeira delas. Eu e um amigo fomos até a Itália e alugamos um motor home em Chieri e saímos viajando por todo o norte do país, Áustria, Alemanha onde quase fomos presos. Nessa vez eu parei o carro num lugar em Munique sem indicação de “proibido”. Havia uma placa com um “P” não cortado e fomos assistir um festival de música folclórica no calçadão da cidade. Quando voltamos, o carro não estava lá, parei uma patrulha e perguntei pelo carro. Nos levaram para a central, o policial me mandou sentar e eu, nervoso, quando ele me chamou, já veio dizendo que estávamos estacionados em um lugar proibido. Eu abri minha “carta” do Touring Club e apontando que “estrangeiros só precisam identificar símbolos”. Embaixo do “P” havia a inscrição: até 15 minutos. Dei uma resposta atravessada e ele me lascou US$ 100 em multa e eu tive que tirar o carro a 10 quilômetros da cidade. Do Egito, por exemplo, tenho uma foto com um jacaré vivo sobre a cabeça. Queria conhecer o povo egípcio e encontrei um guia que me levou para uma aldeia núbia, rio Nilo acima. É uma gente linda, conheci seus costumes e eu tirei a foto com um crocodilo filhote sobre a cabeça.

JC – Quando o senhor começou essa vida de viajante?

Muricy – Em 1941, eu tinha então 6 anos e fui conhecer o Rio de Janeiro com meus pais. Eles adoravam os shows no Cassino da Urca com Aurora Miranda, Carmen Miranda, Grande Otelo... Eu ia atrás dos meus pais, até os 9 anos eu fui filho único. Então, os acompanhava para Minas, São Paulo... O primeiro passeio de barco da minha vida foi de Santos até a ilha de São Sebastião. Vomitei até onde deu, por outro lado já fiz cruzeiros maravilhosos: Patagônia, Caribe, Nilo... Meus pais gostavam muito de viajar. Minha mãe morreu muito cedo, tinha 47 anos e esse foi um ponto que eu me distanciei da família. Ela me guiou a vida toda e até hoje cuida de mim, tenho certeza.

JC – A coisa que o senhor mais gosta na vida é de viajar?

Muricy – A estrada é a minha felicidade. Tive vários motor homes, viajava de moto e minha mulher era minha “rabeira”. Parei de andar de motocicleta com 60 anos. Mas na minha juventude fui lambreteiro.

JC – E esse brinco, professor? O senhor tem desde jovem ou não?

Muricy - Coloquei quando já trabalhava na Reitoria. Uma das freiras falou assim: Que é isso aí? E eu respondi: Olha, depois de 60 anos eu não preciso dar mais satisfação a ninguém. Minha mulher que me deu os brincos, o primeiro foi uma cruz. Eu nunca fico para traz, aprendi a mexer com o computador. Tenho computadores de última geração, máquinas fotográficas digitais... Acho que você tem que acompanhar o tempo, se modernizar.

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Perfil

Nome – Muricy Domingues

Nascimento – 08/12/1938

Time do coração – Noroeste, mas como bom descendente de português, torço pela Portuguesa de Desportos e pelo Vasco

Filmes – “Amacord”, de Frederico Fellini e “Casablanca”, de Michael Curtis

Música – Bossa Nova

Livro - Todos da Agatha Christie, Sir Arthur Conan Doyle e sobre a Segunda Guerra

Nota 10 - Para as irmãs Arminda e Elvira

Nota zero – Para a política