09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A burguesia está exausta


| Tempo de leitura: 4 min

Coitada da burguesia, anda exausta! Também não deve ser nada fácil esta vida repleta de festas, glamour, flash, viagens sem fim, celebrações intermináveis e tanta conversa regada com champanhe e caviar.

A burguesia cansou e sai da toca para protestar. Quanta hipocrisia! A mesma burguesia que nestes anos todos apenas aumentou o fosso financeiro que a separa da maioria da população agora quer fazer um minuto de silêncio e se diz cansada.

Mas do que está cansada a burguesia? Será do governo Lula? Ora, mas por que a burguesia iria se cansar de um governo que lhe trata tão bem? Os banqueiros continuam com seus lucros estratosféricos, os usineiros hoje são os heróis do presidente, os empresários nada têm do que se queixar das iniciativas palacianas e o carinho que este governo trata os membros da elite, que hoje cansados, saem às ruas, é o mesmo dos governos anteriores.

Apesar de todos os afagos que lhe são dados pelo atual morador do Palácio do Planalto, a burguesia não resiste ao preconceito que lhe é latente e quer, com seu gesto destemido, dizer ao presidente que apesar dele governar com tanta mesura para a elite branca, nunca será um deles. Mesmo usando ternos Armani, morando numa cobertura triplex e fazendo cirurgia até mesmo de terçol. Diferente daquele outro presidente, que embora afirmasse ter um pé na cozinha, era um intelectual refinado, poliglota, que sendo ateu até passou a acreditar em Deus e tem a cara daqueles que estão na rua pedindo um minuto de silêncio.

Alguém mais ingênuo, vendo a indignação desta burguesia, poderia pensar que a corrupção começou com este governo, que figuras como Renan, Sarney, Roriz surgiram num passe de mágica e que FHC administrou com lisura a coisa pública. A menos que joguemos para debaixo do tapete, o caso Sivam, a pasta cor de rosa, a compra dos votos para o 5 anos de mandato, o próprio plano Real, o Proer, entre outras maracutaias.

A burguesia fala em corrupção e esquece que para ela acontecer existe não só o corrompido mas também aquele, do outro lado da linha, que o corrompe. Quantos dos hoje indignados não têm também rabo preso com os velhos e atuais esquemas de propina?

Para a burguesia a morte nos hospitais públicos por falta de atendimento, as crianças fora da escola, a prostituição infantil, a tortura nas delegacias, a transposição do Rio São Francisco, a liberação dos transgênicos, os buracos nas estradas de rodagem, a destruição da Amazônia, a reforma trabalhista e previdenciária, o sucateamento do patrimônio público são assuntos irrelevantes. Mas bastaram os aviões atrasarem seus vôos para a burguesia, resoluta, assumir seu lado mais revolucionário, colocar sua roupa mais fashion, seu melhor perfume e com todo o cuidado para não desmanchar a maquiagem, estar na rua.

A burguesia vai à rua protestar contra o governo Lula quando na verdade quem deveria estar na rua contra o mesmo governo e por motivos completamente diferentes era o povo, a classe trabalhadora que foi traída por um presidente e um partido que somente no seu nome guarda qualquer relação com a maioria que trabalha, sua a camisa e efetivamente paga impostos. São estes que nada viram mudar no país após a vitória eleitoral de Lula que sabem que a educação pública está sucateada para permitir que grupos econômicos se enriqueçam, que a saúde faliu para que a medicina privada seja cada vez mais lucrativa, que a terra permaneça nas mãos de poucos, que os órgãos públicos sejam gradativamente destruídos, enquanto percebe que a maioria de suas lideranças sindicais foi cooptada por cargos e benesses do poder, abandonando velhas e atuais lutas.

Sabem os trabalhadores, com o corpo realmente cansado da lida diária, com os olhos marejados pela dor da decepção que Lula assassinou seus sonhos e suas esperanças, para quê? Para agradar a burguesia que hoje o ofende. Quanta injustiça da incauta burguesia!

Ao menos a burguesia, que tem todo o direito de se manifestar, mas não em nome da maioria do povo, poderia escolher melhor suas lideranças, Dória, Hebe Camargo, Regina Duarte, Ana Maria Braga, Agnaldo Rayol, são figuras risíveis e mostra bem o caráter politicamente inexpressivo do movimento e a Catedral da Sé, que já foi palco de atos essenciais para a história do país agora se transforma em picadeiro para esta peça sem graça.

A lamentar somente a participação ativa da OAB neste descarrego exaustivo. Entidade que em tempos idos teve importante papel na redemocratização do país e agora em mãos erradas é utilizada para promoção pessoal e pretensões eleitorais futuras de alguns.

Mas deixa a burguesia brincar de morde e assopra com o governo federal, ao menos assim ela sai às ruas e pode ver de perto quem efetivamente constrói este país. Somente espero que esta brincadeira não vá longe demais e a burguesia resolva marchar de terço na mão em defesa da família e da propriedade. Este filme já vimos e não teve final feliz.

Arthur Monteiro Júnior - advogado