Andar, falar, sentir. Ações simpáticas e parassimpáticas, ou seja, comandadas consciente ou inconscientemente. Tudo depende de uma parte do corpo além do órgão e da região que é exigida para esse fim. Tudo depende do comando absoluto do cérebro.
O cérebro e seu intrincado funcionamento não são totalmente conhecidos. Por isso, continuam sem resposta questões como: Quais as regiões do encéfalo são exigidas ao movimentar a mão esquerda? São as mesmas partes “acionadas” quando se quer mover a mão direita? Para esses estímulos, as áreas mais utilizadas do cérebro são recorrentes?
Ironia ou não, estas são perguntas que a própria mente tem de responder. Para esclarecer parte das dúvidas sobre o funcionamento de cérebros saudáveis e utilizar os parâmetros conseguidos nas pesquisas para auxiliar no tratamento de doenças, o Hospital Israelita Albert Einstein (Hiae) vem desenvolvendo um estudo pioneiro no Brasil.
Dois bancos de imagens - e em vias da implantação de um terceiro - estão sendo montados desde 2003, no Instituto do Cérebro, radicado no hospital. O mais antigo deles é o banco sobre a “Base normativa funcional do cérebro”. Explicando: através de imagens captadas por ressonância magnética, um mapeamento é feito. Essa relação é a identificação das regiões cerebrais associadas às atividades que a pessoa realiza enquanto está dentro do aparelho de ressonância.
O médico pesquisador do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hiae e professor da Universidade de São Paulo (USP), Edson Amaro, aponta que as funções testadas são a linguagem, a movimentação e a sensibilidade das mãos e os campos visuais direito e esquerdo.
“Testamos, por exemplo, a linguagem utilizando três das várias possibilidades de paradigmas (modelos de exame) em graus de pouca ou muita exigência cerebral”, esclarece Amaro. As pessoas recrutadas como voluntárias eram ‘normais’, todas acompanhantes de pacientes atendidos pelo hospital divididas em grupos equivalentes de gênero (masculino e feminino) e idades que vão dos 18 aos 80 anos.
Até agora o banco conta com mais de 750 mapas cerebrais baseados nas respostas do cérebro dadas por esses voluntários ao responder aos paradigmas propostos. A busca através da ressonância avalia não a ação elétrica do cérebro, mas a sensibilidade de cada área em relação ao volume e ao fluxo de sangue, além da oxigenação. “Quanto mais sangue e oxigênio, maior a probabilidade de atividade naquele ponto”, simplifica o pesquisador.
“Nos mapas, a pesquisa avalia para cada área do cérebro qual a freqüência de atividade registrada. Cada ação, como, por exemplo, o falar, tem uma rede de regiões cerebrais associadas, mas a chance de encontrar essa ‘rede’ em todas as pessoas não é de 100%. A pergunta que queríamos responder era: qual a freqüência de ativação de cada área que pode ser detectada pelo exame? O quanto é ‘normal’ a ativação de tal área?”, aponta Amaro.
Perguntas e respostas
Para que saber quais áreas do cérebro são mais ativas quando se fala? Amaro explica que esse mapeamento, esse estabelecimento da freqüência de vezes que o estímulo pode ser visto em determinada região cerebral quando se exige um paradigma, serve para estabelecer o que é ‘normal’ e o que é não é ‘normal’ às respostas de atividades como falar ou ver. Assim, esse estabelecimento de qual área se ativa em réplica a um estímulo pode auxiliar nos diagnósticos clínicos futuros.
“O banco normativo foi desenvolvido para o auxílio no tratamento de lesões cerebrais localizadas, como tumor, por exemplo. Queremos saber se o paciente que possui um tumor no cérebro tem um funcionamento ‘normal’ ou não. E, mais que isso, saber qual a capacidade de mostrar todas as áreas mais importantes da atividade cerebral para que elas possam ser evitadas durante uma cirurgia”, esclarece Amaro.
Os estudos vêm sendo feitos desde 2003. Naquele ano um “controle de qualidade” foi imposto aos aparelhos de ressonância magnética. “Para a investigação cerebral usamos somente 5% da freqüência de sinal que o aparelho dá, qualquer variação imprime diferenças sutis”, diz o pesquisador. Em 2004 os primeiros “cérebros normais” foram mapeados e, a partir de 2005, os primeiros pacientes tiveram seus cérebros “fotografados”. Este ano, as análises e os resultados já começaram a aparecer.
Mas nem só de ‘figuras’ vive o Banco Normativo Cerebral. Cada pessoa que participou da pesquisa, além dos exames de ressonância, respondeu a questionários de neuropsicologia para que a investigação de sintomas de depressão, habilidades de movimentação motora, entre outros, fossem catalogados.
“Junto com a imagem há uma gama de informações comportamentais e para avaliar esse grande número de dados sobre cada caso um programa de lógica (Bayseana) foi criado. Esse sistema poderá cruzar informações a priori, ou seja, o computador é ‘informado’ do contexto, dando uma resposta ‘individual’, descrevendo a doença no indivíduo fazendo uma fenotipagem”, explica Amaro.
Assim, as respostas vêm de cruzamentos como: idade, sexo, tipo e intensidade da resposta cerebral a determinado estímulo e características neuropsicológicas. As comparações alicerçadas nessas bases normativas são, na verdade, um quebra-cabeças que pode apontar qual o nível de seqüelas que um paciente pode sofrer após uma intervenção cirúrgica, por exemplo.
As expectativas são de que pacientes que façam o exame de ressonância magnética funcional – respondendo a paradigmas e interpretado com a base normativa -, tenham déficits pós-cirúrgicos diminuídos, assim como o tempo de cirurgia ou a chance de lesão por ressecação em pontos do cérebro causadas pela cirurgia.
Nenhum resultado ainda foi usado clinicamente, mas segundo o pesquisador daqui até cinco anos os estudos devem ser homologados para uso. Porém é importante ressaltar que todos os resultados conseguidos até agora são baseados em um universo local, sem evidências médicas amplas, com extratos e testes em outras regiões.
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Caminho das idéias
A investigação cerebral e a realização de um mapeamento de suas atividades de comportamentos servem não só para o auxílio no tratamento de lesões pontuais e alterações vasculares. Há outros estudos ligados ao desenvolvimento de uma base do ‘cérebro nacional’, ou seja, feitos no Brasil, de acordo com a cultura local, que muito influencia nos resultados.
Segundo o médico pesquisador do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein e professor da Universidade de São Paulo (USP), Edson Amaro, a comparação entre diagnóstico de um paciente e uma base normativa importada dos Estados Unidos (EUA) ou Japão é inviável. “As pessoas responderão de forma diferente aos estímulos por uma questão cultural. Se eu mostrar um taco de beisebol aqui no Brasil, nem todo mundo vai responder ‘taco de beisebol’”, compara.
As iniciativas de testes de ressonância magnética e do mapeamento das funções cerebrais são praticamente paralelas dentro e fora do País. Convênios entre universidades como a de São Paulo (USP) e a Estadual de Campinas (Unicamp) vêm para disparar nos pesquisadores possibilidades quanto aos cuidados com doenças como Alzheimer, Parkinson e epilepsia ou problemas como alterações esquizofrênicas e a depressão e suas formas de tratamento convencionais e análises clínicas.
Além da ressonância magnética funcional, há outras possibilidades de pesquisa para a aplicação clínica no caso das doenças acima citadas, por exemplo a imagem molecular. Na ressonância o foco é a atividade cerebral, enquanto na imagem molecular o ponto são as substâncias químicas do cérebro. A expectativa é de que daqui alguns anos essas e outras técnicas estejam em convergência.