09 de julho de 2026
Auto Mercado

Dr. Automóvel: A verdadeira idade de um carro usado

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Dizer que brasileiro é honesto, bonzinho e com boas intenções é história para boi dormir. Já ficou mais do que provado que o brasileiro médio (claro, sempre existirão as honrosas exceções) gosta mesmo é de se dar bem, de levar vantagem, de ser malandro. Na hora de vender um carro então, sai de baixo. O dele é sempre o melhor do mercado, não tem nada para fazer, tudo funciona, é pouco rodado e o preço, uma galinha morta... Estou mentindo, por acaso?

Todos sabem - e eu já comentei isso antes - que a maioria se encanta com um carro usado por que a pintura está brilhando, os pneus com pretinho e coisa e tal. Mas não se preocupam com a parte mecânica, como suspensão, motor e transmissão. Daí que o carro pode ter sido batido e mal restaurado, cheio de massa plástica ao invés de desamassado profissionalmente. Numa batidinha leve vira uma verdadeira granada, de tanto estilhaço que solta. Mas na parte mecânica é que a coisa pega para valer.

Carro pouco rodado quer dizer que roda cerca de 10.000 km por ano, em média. Portanto, qualquer carro 1995 muito pouco rodado tem pelo menos 120.000 km nas molas, o que não o torna velho ou no fim da vida, de maneira alguma, se bem mantido. Mas faça uma visita a qualquer revenda de carros usados (agora somente chamados de “seminovos”, como se existissem semivirgens ou semigrávidas...) e olhe no odômetro de cada carro exposto, e me conte quantos tem mais de 100.000 km marcados. São poucos, e mesmo assim marcando algo como 106.500 km, por exemplo, pouco acima do limite mágico. Isto mostra a grande realidade do mercado de carros usados, onde a maioria adultera o odômetro e rebaixa a quilometragem real, como constatou meu amigo Achilles, que ficou indignado com toda razão com esta atitude generalizada. O que se espera conseguir com isso? Lógico, enganar o coitado achando que está comprando um “carro de velhinha”.

A quilometragem real ou estimada de um carro pode ser avaliada de várias outras formas, analisando algumas marcas de desgaste que quase nunca são checadas. Por exemplo, o desgaste das borrachas dos pedais de freio e embreagem, que no uso normal apresentam desgastes nas laterais e na espessura. Estas marcas são mais visíveis em carros com quilometragens acima dos 100.000 km, mas se o carro apresentar estas marcas e tiver “apenas” 47.000 km marcados, desconfie. Outros indicadores de possível adulteração é o estado de deterioração das capas dos bancos, com as marcas de desgaste por atrito. O mesmo se dá com a bola da alavanca de câmbio muito lisa ou desgastada, sinal de que foi muito usada, estado do volante de direção, enfim, coisas que podem se desgastar com o tempo de uso e que não são compatíveis com a quilometragem indicada.

Os pneus também podem dar uma boa idéia da idade do veículo. Um carro novo sempre sai de fábrica com cinco pneus novos (estepe incluso) e todos da mesma medida, do mesmo fabricante, modelo e desenho da banda. Carros zero nunca saem de fábrica com pneus remold ou recauchutados, nem de marcas de segunda linha ou de marca própria de supermercados, importados chineses etc. Como os pneus radiais novos de fábrica duram em média 60.000 km, um carro com esta quilometragem real deverá ter os pneus quase carecas ou recém trocados, nunca na meia vida. Nesta situação, com certeza houve algo fora do normal com a quilometragem indicada. Este raciocínio também vale para os amortecedores, que se foram trocados por outros de marcas duvidosas ou recondicionados apenas evidenciam que a troca foi feita apenas para passar o carro para frente.

Automóveis com odômetros digitais contam com uma segurança a mais. Apesar de serem difíceis de serem alterados, não é impossível faze-lo. Mas sempre deixam uma memória interna gravada com a quilometragem real, que pode ser facilmente acessada na concessionária. Isto serve para comprovar a quilometragem real para efeito de garantia do veículo. É uma segurança da montadora até com carro novo, para se proteger dos “espertos” que querem estender a garantia. Até isso!

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Sugestões para a coluna e perguntas à seção Correio Técnico devem ser enviadas ao e-mail automerc@jcnet.com.br ou à redação do Jornal da Cidade, na rua Xingu, 4-44, Higienópolis. É obrigatório informar nome completo, RG, endereço e contato (telefone ou e-mail).

* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.