...e dos botecos interioranos às mesas elegantes do mundo todo
O santo que me perdoe, mas jogar pinga no chão hoje em dia é na verdade um pecado. Foi-se o tempo em que cachaça era sinônimo de bebida pobre - a branquinha, destinada inicialmente a acalmar os ânimos dos escravos, foi (e continua) ganhando novos horizontes: consumida no Brasil tanto pelas classes populares como pelas elites, ela conquista o resto do mundo embalada pelo sucesso da caipirinha.
O crédito pela invenção da purinha é dos escravos africanos, que em pleno século XVI deixaram o suco da cana fermentar, transformando-o na bebida alcoólica que durante o domínio português foi proibida, taxada e desprezada: mas mesmo assim se tornou a bebida preferida da enorme colônia americana.
Preferida mesmo: hoje a moça branca responde por 86% dos destilados consumidos no Brasil (falando de bebidas em geral, fica atrás apenas da “loura gelada”), além de ser o terceiro destilado mais apreciado no mundo (perdendo para a vodca russa e o soju oriental). No mercado, existem marcas de cachaça para todos os gostos, desde as mais ordinárias, que podem custar até mesmo três reais, às mais distintas, cujo valor se afasta da casa dos mil reais.
O requinte da danada é visto a partir da qualidade e do refinamento apresentados pelas marcas artesanais premium, que buscam novidades que as destaquem, e oferecem cada vez mais produtos com estilo, investindo em produção e marketing. Esqueça, por exemplo, aquelas garrafas de vidro escuro, que cederam lugar para garrafas mais elaboradas, algumas de cristal, ou com rótulos assinados por designers.
Além disso, “o processo de sofisticação da cachaça pode ser visto pela criação da profissão de cachacier, correspondente da profissão de sommelier; do lançamento da taça de cristal especialmente para a degustação de cachaça; da proliferação de cachaçarias, academias, clubes e confrarias da cachaça; da criação de Cartas de Cachaça em chiques restaurantes; da melhoria da qualidade do produto; e da introdução do produto na culinária através de pratos elaborados por chefs de renome”, explica José Lúcio Mendes, diretor de marketing da Expocachaça e do IBCA - Instituto Brasileiro da Cachaça de Alambique.
Outros aspectos que alavancaram a esquenta-dentro no país do ziriguidum e mundo afora foram a força das tradições e do nacionalismo no Brasil, lembrando também do decreto que oficializa a cachaça e a caipirinha como produtos tipicamente brasileiros, e as grandes feiras realizadas nos últimos anos, como a Expocachaça. Mesmo assim, ainda há muito o que fazer no ramo: só 1% da cachaça produzida por aqui é exportada.
Ela não é mais tão mardita...
A autora, Natalia Barrenha, é estudante de jornalismo da Unesp-Bauru e colaboradora de Opinião