10 de julho de 2026
Geral

Após 20 anos da Luta Antimanicomial, falta leito psiquiátrico para paciente surtado

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 4 min

Saiu de Bauru, no ano de 1987, o primeiro documento antimanicomial do País, que deu as diretrizes para as políticas utilizadas atualmente em todo Brasil. Aqui também foi dado início à implementação de uma rede de atendimento psiquiátrico defendendo a socialização do paciente. No entanto, 20 anos depois de figurar como movimento de vanguarda, o avanço na área está aquém do esperado. A falta de leitos ou hospital que atenda doentes em momentos de crise mental é um exemplo. Isso faz com que eles precisem ser encaminhados à Associação Hospitalar Thereza Perlatti, de Jaú, única instituição na região responsável pelo atendimento de 38 municípios.

Além da falta de leitos para internação, doentes que entram em crise durante a madrugada não possuem um local especializado para atendimento e precisam recorrer ao Pronto-Socorro Central (PSC) de Bauru. Ainda existe a questão da falta de trabalhos de conscientização tanto para as famílias dos pacientes quanto para a população.

Na avaliação do professor de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Celso Zonta, que há mais de 20 anos atua em busca de melhorias na área de atendimento aos doentes mentais, os próprios Centros de Atenção Psicossocial (Caps) precisam questionar seu papel.

“Durante esses anos houve um avanço, mas muito pouco em relação ao que precisamos fazer. Os municípios ainda não estão dando a devida atenção para a criação dos Caps. A sociedade ainda é preconceituosa e precisa ser preparada. Os próprios Caps precisam se questionar, porque não podem virar um mero lugar de atendimento e medicação. Tem que existir um conjunto de políticas e programas articulados, porque essa questão não é meramente técnica. Ela diz respeito ao modo de organização da sociedade e como essa sociedade produz esses distúrbios e seus valores sociais.”

Uma lei federal dá as diretrizes de como deve ser o atendimento de pacientes acometidos por esses males. Desde 2002 funcionam os Caps em Bauru. Atualmente são três, um para atendimento de pessoas com problemas alcoólicos e drogas, outro para crianças e o último, para adultos em geral. Existe também o Ambulatório de Saúde Mental, responsável por atender pacientes em crise moderada encaminhados pelos Caps. Além disso, a rede conta com oito residências terapêuticas para atender doentes que passaram muitos anos internados em hospitais psiquiátricos.

Internação

Para a diretora da Divisão de Saúde Mental (DSM), o principal foco agora é conseguir os leitos para internação (em média 33 pacientes por mês precisam ser internados em Jaú). “Na verdade, esse é o nosso processo de luta. Nós queremos que tenham leitos reservados em hospital geral para pacientes com transtornos mentais. Esse seria mais um dispositivo que ajudaria a evitar a internação psiquiátrica”, afirma Vera Lúcia de Paula Rodrigues, revelando também que já existem conversas nesse sentido.

“Como não temos uma rede completa estruturada, temos que usar as internações, algo comum em todo o País porque é muito difícil construir e manter uma rede completa de assistência”, acrescenta.

O sistema de atendimento aos portadores de doença mental funciona com verba federal e contrapartida municipal. Informalmente, os órgãos competentes estariam buscando sensibilizar o Estado para essa questão. Isso formaria um bloco coeso na luta por um mesmo objetivo. Os leitos necessários para evitar a superlotação do hospital de Jaú seriam disponibilizados em um dos hospitais de Bauru.

Outro projeto seria a implantação do Caps 3, centro que acolheria os pacientes 24h por dia. Mas as dificuldades são grandes. “Estamos trabalhando em cima disso, mas é muito difícil. Existem critérios muito específicos para poder implementar um Caps 3. Em todo País só foi montado um durante este ano. No total são apenas 33 em funcionamento. Isso devido à complexidade de se montar nos moldes técnicos exigidos”, explica Vera. Segundo ela, a partir de 2002, quando foram montados os Caps em Bauru, as internações psiquiátricas foram reduzidas em 49%. “Se criarmos mais redes substitutivas que dêem apoio maior às famílias, poderíamos reduzir ainda mais esse número”, diz. Internar é preciso.

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Internar é preciso

Para Donzilio Quaggio, morador de Bauru, existem momentos em que a internação é inevitável. Sua esposa e filha sofrem de transtorno bipolar e têm crises de tempos em tempos. Algumas delas são graves, o que o levou a decidir se amarrar à mulher para evitar que ela fugisse para a rua ou tivesse atitudes suicidas.

“Os doentes num estado avançado precisam de atendimento específico 24h por dia. Os hospitais são necessários. Chega um ponto em que a família não tem mais condição de cuidar do doente em casa”, afirma.