08 de julho de 2026
Articulistas

Adeus, segredos - o mal do século


| Tempo de leitura: 3 min

A diferença entre tragédia e comédia é que o espectador, diante de um herói trágico pensa: “Aquele sou eu”. Como quem se vê num espelho. E, diante de um personagem cômico, gargalha: “Aquele é alguém que eu conheço”; ou como quem se vê num espelho deformado. O grande poeta francês Jean Cocteau, também autor de filmes de vanguarda, dizia que “o espelho deveria refletir mais, antes de nos espelhar”. Já nos espelhamos demais, agora vamos refletir. Lembrei-me que havia feito essas anotações, em algum lugar do meu “banco de idéias”, ao ver na televisão o José Dirceu jurando inocência e o infortúnio do ministro Lewandowsky, do STF, tão desastrado quanto Sobrenatural de Almeida, personagem de Nelson Rodrigues. De juiz a condenado ao desprezo dos colegas, por ter sido flagrado fazendo fofocas com alguém muy amigo... mas, da “Folha”.

Em questão de horas segredos viram papo de botequim para milhares de desconhecidos. Os segredos estão em ameaça de extinção. Eles são mais fáceis de saber e se espalham mais rápido que nunca. Minúsculos e poderosos microfones e câmeras, teleobjetivas, celular grampeado, ouvidos atrás do portão, olhar indiscreto da moça da mesa ao lado. Hoje, contam histórias que, no passado, simplesmente evaporariam.

Meu professor de Direito e Ética Profissional na Eca/Usp dizia que “a imprensa é alcoviteira e as pessoas adoram saber detalhes”. Se forem sujos, melhor ainda. Guardar segredo virou sinônimo de repressão e vergonha. O mantra do mundo moderno chama-se “abertura”. Ninguém mais respeita a confidencialidade. Que ninguém espere discrição dos amigos se tiver um casamento indo para as cucuias, ou se seus negócios naufragaram.

Segredos que outrora seriam considerados apenas excitantes, ou úteis politicamente, valem dinheiro na era da informação. Muita gente está disposta a revelar seus mais profundos segredos na TV simplesmente para ter direito aos seus 15 minutos de fama. Gay que jogue futebol, esporte viril, dá audiência. Mesmo que não seja, vale a propaganda gratuita. As pessoas também vendem segredos de ex-parceiros. Biografias populares sobre celebridades norte-americanas estão cheias de revelações de sexo com o cachorro, a filha, o pai.

Sou do tempo em que se chamava coxa feminina de “membro”; calcinha, de “roupa de baixo” e gravidez, “estado interessante”. Nem tenho saudades. O dramático salto da valorização do silencio à glorificação da fofoca é efeito das mudanças sociais do início do século. A explosão dos meios de comunicação levou informações antes consideradas impróprias para milhões de salas de estar. Uma outra grande força contra o segredo neste século foi – quem mais? – Sigmund Freud, que teorizou que a “a repressão e a sublimação causavam danos psicológicos, melhor tratado com a “cura pela fala”. Confessar segredos para alguém é terapêutico nos programas de “recuperação” dos Alcoólicos Anônimos. Jung também recomendava que os pacientes se livrassem dos segredos para que eles não se tornassem “parte de sua sombra”.

Os intelectuais clássicos acreditavam que apenas as pessoas capazes do silêncio exibiam o autocontrole que as fazia merecer confiança. Brasa dormida, essa amiga de Mônica Lewinsky! Quando soube da relação secreta da confidente com o presidente Bill Clinton ouviu calada, mas gravou tudo. O autor do livro “Matéria de Amizade”, William Rawlins, diz que há um novo tipo de relação no mundo moderno que pode ser traiçoeira: “a amizade no escritório”. As pessoas às vezes compartilham intimidades, como se tivessem construindo um relacionamento antigo, de confiança. Se você falar mal do chefe, não tenha dúvidas de que ele ficará sabendo. Pelo menos em redação de jornal é assim. Todos nós corremos, não pensamos sobre o que deveríamos guardar e simplesmente vomitamos informação. Não consideramos quem pode ser afetado com isso.

Meu culto amigo Marco Brisolla, prenhe de razões, dizia no tempo do Skinão da Rodrigues Alves que “três pessoas conseguem guardar um segredo... se duas delas estão mortas”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC