09 de julho de 2026
Política

Lula: juízo popular é o mais importante

Por Fábio Zambeli | Da APJ, especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acredita que as realizações de seu governo, impulsionadas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e a estabilidade econômica o ‘blindarão’ do fantasma do mensalão, que ronda novamente o Palácio do Planalto após o Supremo Tribunal Federal (STF) acolher denúncias de corrupção e formação de quadrilha contra membros do alto escalão no primeiro mandato do petista. Em entrevista concedida anteontem a jornais regionais de dez Estados, incluindo o Jornal da Cidade por meio da Associação Paulista de Jornais (APJ), Lula evoca o julgamento popular como ‘o mais importante’.

“Tentaram estigmatizar isso (corrupção e formação de quadrilha) nas eleições, mas não conseguiram. Por enquanto não tem ninguém culpado e ninguém inocentado. Agora é que vai começar o processo. O que é importante é o seguinte: o meu governo será julgado pelas obras que nós fizermos no País até 2010. É isso, no fundo, que o povo vai ver. Certamente, você vai ter sempre gente tentando jogar nas contas do governo a responsabilidade de tudo o que acontece no País.”

Para o presidente, a abertura de processos contra 40 suspeitos de envolvimento no mensalão, entre eles os ex-ministros José Dirceu, Luiz Gushiken e Anderson Adauto e dirigentes da alta cúpula petista, representa um marco na democracia do País. “Tudo isso pra mim é importante porque consagra a democracia neste País. Que ela seja um valor maior que prevaleça em todas as instituições.”

Lula disse ainda não acreditar que os ministros da Suprema Corte tenham agido sob pressão na análise da denúncia da Procuradoria-Geral da República, como sugerem alguns magistrados em conversas reservadas.

“Eu não acredito que um ministro da Suprema Corte ou o procurador-geral da República trabalhe porque alguém pressionou. A Suprema Corte é uma instância que precisa ser preservada por todos. Não acredito que 50 manchetes de jornais podem fazer pressão para que o ministro vote. Se isso acontecer, eu posso te dizer que é preciso repensar o comportamento do ser humano. Não acredito que a Suprema Corte possa trabalhar por causa de pressão. Até porque ninguém ali precisa de voto.”

Ao analisar o papel do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, que pediu o indiciamento dos ex-integrantes do ‘núcleo duro’ do governo petista, o presidente defendeu a sua autonomia, mas cobrou ‘responsabilidade’ do órgão. Aproveitou também para alfinetar os antecessores, a quem acusa de ‘engavetar processos’.

“(O julgamento) consolida a instituição. Acabei de reconduzir o Antonio Fernando. E ele é que havia denunciado os companheiros. Eu disse na posse dele que ou a gente garante a autonomia do Ministério Público sem que haja engavetamento de processos, como já houve neste País, ou você tem uma instituição portadora de uma deficiência que é falta de autonomia.” Em seguida, o petista revelou-se preocupado com o que classifica de ‘denuncismo’ sem provas.

“O que me incomoda como ser humano é que as pessoas têm suas caras estampadas nos jornais antes de ter processo começado. Então o que tenho dito é que a instituição, como é muito forte, precisa ter mais responsabilidade.”

Divã petista

Para o presidente, o PT, que iniciou em São Paulo seu Congresso Nacional, também não deve ressuscitar o enredo mensaleiro, conforme apregoa a ala esquerda da legenda. Lula acredita que o partido já fez sua autocrítica e teve sua resposta nas urnas e no processo interno de eleições diretas.

“Quer autocrítica maior do que foi feita pelo Partido dos Trabalhadores? Você quer mais castigo que as pessoas que tiveram suas fotos estampadas nos jornais todos os dias?”, indagou.

Para ele, o escândalo só veio à tona porque seu governo destravou as investigações no âmbito da Polícia Federal do MP. “Certamente, se não fosse o governo Lula isso não aconteceria. Porque as pessoas no Brasil tinham o hábito de não permitir investigação, de não permitir que as coisas andem. Hoje é assim: quem tiver uma denúncia, faça, que ela será investigada.”

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Hora do voto

Lula avaliou o cenário eleitoral para 2008, no qual insistiu que terá ‘pouca influência’. “Nem para o bem e nem para o mal a eleição municipal está vinculada ao governo federal. A influência é muito pequena. O povo aprendeu a diferença de votar no prefeito e no presidente. São coisas distintas.”

O presidente procurou enfatizar que mantém relações amistosas com os governadores. Negou que retalie os Estados administrados por opositores. “Governar não é ação entre amigos”.

Falando de eventuais adversários do PT na sucessão presidencial em 2010, Lula foi diplomático e evitou entrar em atrito com os governadores tucanos Aécio Neves (MG) e José Serra (SP). “Eu não critico ninguém, nem o Aécio (Neves), que às vezes me critica, nem o (José) Serra, nem o Cabral (Sérgio). Não é meu papel criticar ninguém, meu papel é governar o País até 2010.”

Durante a entrevista, o presidente tratou ainda da reforma tributária, da agilidade nas obras do PAC e da situação da economia do País ante a crise nos mercados internacionais. Lula recebeu os 11 jornalistas escolhidos pela Divisão de Mídia Regional da Presidência na sala de reuniões ao lado de seu gabinete no Planalto, na manhã de anteontem, por 90 minutos. Estava acompanhado do ministro Franklin Martins (Comunicação Social). Mostrou-se bem humorado, falou com desenvoltura dos números de sua gestão e tomou café. Deixou a sala sem pressa e conversou sobre temas regionais.