08 de julho de 2026
Geral

Lendas mostram a Bauru quase perdida

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 4 min

Quando nos apaixonamos, queremos saber sobre toda e qualquer coisa que diga respeito ao objeto ou pessoa amada. Não nos relacionamos apenas com pessoas, a paixão vai arrebatadora e escolhe um time de futebol, uma música ou banda, um ídolo, um ideal, uma cidade.

Bauru teve dias de glória durante os tempos em que o café tomava conta dos campos hoje ocupados por cana-de-açúcar e quando os trens rodavam. O tempo foi-se e a cidade mudou. Avenidas tomaram o lugar das ruas modestas e de maior entroncamento ferroviário do País, a cidade passou a pólo universitário. Hoje, Bauru atrai gente de todo Brasil para suas universidades ou seu setor de serviços.

Para essa gente “forasteira” e para muitos dos novos “nativos” o passado desse lugar não existe. Sabem seu nome, sua idade. Vêem seus problemas e suas vantagens. Freqüentam seus bares, compram em suas lojas, comem em seus restaurantes e passeiam pelo Vitória Régia, mas desconhecem suas peculiaridades. Ouvindo o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina e o consultor da Câmara Municipal Irineu Azevedo Bastos a história vai se costurando, pouco a pouco, como uma enorme colcha...

A Bauru onde o “rei” Pelé passou sua infância foi sede do bordel mais famoso do País, mandou ao espaço o primeiro astronauta brasileiro e esconde em suas entranhas histórias curiosas. Mais velha que seus 111 anos, a cidade nasceu “roubando” o Poder Legislativo do vilarejo Espírito Santo de Fortaleza.

Nos idos de 1834 já havia gente pelas bandas de onde viria a crescer Bauru. Pedro Nardes Ribeiro é um dos primeiros a se estabelecer pelos arredores, próximo ao Ribeirão Grande. 16 anos depois já consta no censo eleitoral de Botucatu o “Quarteirão de Bauru”, na época considerada a menor unidade administrativa com poder de política.

Antes de Bauru se tornar cidade, em 1887, a vila de Espírito Santo de Fortaleza torna-se município. Quase dez anos depois, em 1896 o povoado de Bauru, subordinado administrativamente a Espírito Santo de Fortaleza, elege os seis vereadores da Câmara e, literalmente, muda a sede do poder. Num carro de boi, alguns móveis que compunham a Câmara Municipal são trazidos a Bauru, que em 1º de agosto torna-se a sede administrativa das duas povoações. Hoje, no lugar onde cresceu Espírito Santo de Fortaleza há somente uma roda d´água.

Como essa, outras histórias marcam a vida bauruense. Junto com Pelegrina e Bastos, o JC selecionou alguns causos e lendas que o leitor confere a seguir.

Falando em política...

A Câmara Municipal de Bauru teve seu primeiro prédio na rua Rui Barbosa em 1908. Nos anos 60 a sede encontrava-se na rua Antônio Alves com a Bandeirantes em um prédio condenado. Que fazer? Instalados precariamente em um prédio de aluguel na quadra 5 da avenida Rodrigues Alves, eis que o então presidente da casa, Alonso Campoi Padilha, teve uma idéia: pedir as chaves do antigo fórum para uma solenidade.

O fórum havia a pouco sido transferido da Rodrigues para a Bela Vista. O prédio antigo poderia muito bem servir como sede do Legislativo! Como não?! Com as chaves na mão, Campoi trocou as fechaduras e tomou o lugar na marra. Em 19 de setembro de 1987, segundo a lei 5.784, o então governador Orestes Quércia doou ao município o prédio em homenagem ao aniversário, naquela data, do colega de partido deputado Roberto Purini.

As histórias a seguir, nas páginas 8 e 9, foram escritas com base nas pesquisadas do historiador Gabriel Ruiz Pelegrina e de Irineu Azevedo Bastos.

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O que é que a Batista tem?

A principal rua de comércio de Bauru herdou o nome do mineiro João Batista de Carvalho. Atraído para o oeste paulista no final do século 19, o comerciante estabeleceu-se na sede do município em Espírito Santo de Fortaleza. Com o passar dos anos e a ampliação do povoado de Bauru e seu entroncamento ferroviário, Carvalho traz sua venda para cá.

Em 1896, eleito suplente de juiz (cargo importante na época) e vendendo seus secos e molhados na esquina da primeira travessa da rua Araújo Leite, Batista de Carvalho sofre uma injustiça. Bem, pelo menos assim ele entendeu...

As primeiras quatro ruas da cidade foram nomeadas e o comerciante se sentiu injustiçado por ter sido esquecido. Pioneiro, protestou: “Rua dos Esquecidos” era o que se lia na placa colocada próxima a sua casa. Justiça feita, a rua Batista de Carvalho tornou-se parcialmente Calçadão em 1990. Antes foi palco de carnavais, revoltas, protestos, assassinatos e fatos históricos, como o empastelamento e queima do jornal “Tribuna Operária” - o periódico era hostil ao movimento - pelos voluntários paulistas ao voltar da frente de batalha da Revolução de 32.