08 de julho de 2026
Geral

Antigos moradores guardam história

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 3 min

Do folclore político brotam histórias quase incrédulas. Da imaginação popular, um ponto aumenta a cada conto. A memória de homens como o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina e do advogado e consultor da Câmara Irineu Azevedo Bastos resgata casos que vão da quase fantasia à tragédia.

Quem acreditaria que de uma rusga política dois grupos comandados por Gerson França e Gustavo Maciel dariam origem a duas câmaras? Pois é, no início do século, nos idos de 1918, Maciel, então presidente da Casa, abandona o prédio pelos bancos da Praça Municipal (hoje Rui Barbosa). A pendenga resultou em decisões paralelas - que não tinham valia - e três tiros.

O caso foi que o jornalista Carlos Marques da Silva noticiou a “Câmara da Praça” e Maciel, ao tomar satisfação, ameaçou Silva. O jornalista disparou contra o vereador e acertou-o três vezes. Maciel, porém, não morreu. Aqui vão mais duas histórias da cidade, outras tantas existem. Busque! Você pode descobrir uma ‘nova-antiga’ Bauru...

A tragédia de 70

O mês de novembro de 1970 teve sete dias negativos. Na tarde de quarta-feira, dia 10, a menina de 9 anos Mara Lúcia Vieira desaparece da frente de sua casa, na quadra 14 da Engenheiro Saint Martin. A garotinha que trajava um shorts vermelho com bolinhas brancas, camiseta do grupo escolar Rodrigues de Abreu e estava descalça, foi levada por um homem.

A última pessoa que a viu foi seu amigo, um garoto poucos anos mais velho que Mara. Começam as buscas na Bauru da década de 70 e seus terrenos baldios do Centro e arredores, ainda não preenchidos com as casas de hoje. Alarmes falsos, dezenas de homens “semelhantes” às características dadas pelo amigo de Mara presos e liberados por falta de provas. Dois aviões e um helicóptero mobilizados nas buscas. Boatos, suspeitas que envolviam do andarilho ao moço de família rica.

Dia 16, o corpo da garota é encontrado a poucos quarteirões de sua casa por uma senhora que pretendia alugar uma casa na rua José Ranieri. A menina havia sido também violentada sexualmente.

A cidade toda se comove com o drama de Mara Lúcia e seus familiares. Em meio às investigações surgem suspeitos que pareciam se encaixar ao perfil do “anormal”, como diziam os jornais da época. O jornalista dos Diários Associados, Saulo Gomes aponta como criminoso o “Francês”. Um interno do Manicômio da Guanabara chegou a ser apontado também.

Tempos depois um crime com as mesmas características acontece em Piracicaba e atrai a atenção da polícia. O violeiro Waldemar Pereira, autor do crime, estivera em Bauru naquele fatídico novembro. Nada é provado. Em 2000, o caso volta às páginas de jornais. O crime fora prescrito e o assassino já não pode ser punido. O andarilho Laerte Patrocínio Orpineli, preso em Rio Claro, é o novo nome a ser investigado.

O homem que diz ser “possuído por satã” conta à polícia e ao JC que nos últimos 30 anos teria matado 2.500 crianças. O caso ainda não tem solução. Mara Lúcia torna-se uma espécie de mártir. Uma personagem ingênua numa história misteriosa. Hoje, em seu túmulo no Cemitério da Saudade, pedidos, agradecimentos, flores. A garotinha se tornou uma “santa regional” a quem são atribuídas graças relacionadas a outras crianças.

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Dez velas por uma lâmpada

Cansados das velas e lampiões acesos nas esquinas somente nas noites sem luar, Joaquim José Cardoso Gomes, engenheiro, propõe à prefeitura montar a “Empresa de Eletricidade de Bauru”.

A represa que acumulava água durante o dia para movimentar as turbinas à noite foi construída no ribeirão Bauru. Máquinas importadas, em 1911, fizeram acesas meia dúzia de lâmpadas na praça municipal (Rui Barbosa).

Tudo vai bem, a cidade está às claras, quando num fatídico dezembro uma inundação causada pela chuva destrói a usina. Conta a história que naquele dia em 1920, para não ser levado pelas águas, o operador de máquinas Júlio David Giaxa teve que refugiar-se sobre o teto da usina.