09 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: O espírito do time

Por Padre Beto* | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

O técnico de vôlei Bernardinho afirmava, em uma entrevista, que o Brasil é como um time. Mas um time no qual cada jogador tenta atuar como uma estrela, buscando seu próprio sucesso. Assim, o time nunca consegue atingir seus objetivos. Os brasileiros precisam ter o espírito de time. Se uma seleção é formada de “estrelas”, corre-se o risco de cada jogador atuar isoladamente. A conseqüência é clara: jogador jogando contra jogador do próprio time. Uma equipe só ganha o campeonato a partir do momento que todos buscam um objetivo comum: a vitória.

Podemos acrescentar a esta analogia de Bernardinho uma agravante em relação ao Brasil: a maioria dos jogadores não sabe exatamente as regras corretas para se ganhar o jogo. O princípio que une o time é denominado pela ética de “princípio da solidariedade”. Isso mesmo, um país só alcança um bem-estar social a partir do momento que possui uma sociedade solidária. Mas o que é uma sociedade solidária?

Vamos começar a compreender o que não é uma sociedade solidária. Em primeiro lugar, uma sociedade não é solidária quando desenvolve campanhas filantrópicas do tipo “campanha do agasalho”, “Natal feliz”, “Criança Esperança”, etc. Quando necessitamos desenvolver campanhas para arrecadar fundos para pessoas que vivem sem dignidade é sinal de que a solidariedade não é regra, mas se reduz a momentos esporádicos que mais aliviam a consciência de uma parte da população e pouco faz para realmente criar um bem-estar duradouro.

Uma sociedade também não é solidária quando a maioria está envolvida em seus problemas particulares de sobrevivência e pouco se importa com a política desenvolvida pelo Estado. A solidariedade também não existe a partir do momento que as pessoas de uma sociedade não se sentem membros responsáveis pela situação desta sociedade. Em outras palavras, não há solidariedade quando não existe identificação entre indivíduo e a organização social. Assim, cada um busca soluções para a construção de seu bem-estar individual. Desta forma, as leis que regulamentam a vida social se tornam menos importantes, o que vale, não importando os meios. É a salvação individual ou de um determinado grupo econômico.

Uma sociedade solidária é construída através de um relacionamento consciente entre indivíduo e Estado. Porém, o princípio da solidariedade é, ao mesmo tempo, um princípio ontológico e ético. Ontológico porque surge da compreensão sobre o que é ser humano. Em outras palavras, se compreendemos que cada ser humano é parte da humanidade e esta se constitui em seu time, em seu meio ambiente, não há sentido de nos dividirmos em famílias, classes sociais, raças, etc. Ser humano é ser humano. A solidariedade não se confunde com caridade, aliás uma sociedade que pratica caridade não é uma sociedade solidária, pois não é digno para um ser humano depender da caridade de outros. A solidariedade surge da consciência da dignidade de cada pessoa humana e da razão de ser de todas as instituições existentes na sociedade desde a família até o Estado.

Aqui surge a dimensão ético-social da solidariedade. Esta deve ser uma relação ética entre Estado e indivíduo. De um lado a solidariedade se fundamenta no compromisso do indivíduo com a sua sociedade. Portanto, ela exige a honestidade de cada indivíduo e o seu compromisso de contribuir para que as instituições funcionem. Para isso é necessário o cumprimento das leis, pagamento dos impostos até a cobrança de trabalho eficiente daqueles que compõem as instituições estatais. Por outro lado, a solidariedade se desenvolve no claro compromisso de todas as instituições para com a vida de cada indivíduo da sociedade sem exceção.

O Estado recebe de cada cidadão renda suficiente para investir no bem comum. Não deveriam ser necessárias campanhas caritativas em uma sociedade na qual os cidadãos pagam seus impostos. Como também aquilo que é de direito deveria ser garantido, ou seja, gratuito como, por exemplo, a educação formal em todos os níveis.

Solidariedade vem do latim “solide” que significa solidamente, firmemente, inteiramente, totalmente, verdadeiramente, certamente. Algo que possua solidez, inteireza. Em uma sociedade solidária, o Estado reconhece em cada ser humano uma pessoa portadora de dignidade e procura concretamente fornecer as bases necessárias para o seu sólido desenvolvimento. Por sua vez, esta sociedade só surge a partir do momento que cada indivíduo assume sua responsabilidade diante de toda a sociedade cumprindo seus deveres e exigindo seus direitos.

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