Na década de 50, Bauru era chacoalhada todos os dias pelo movimento dos trens que cruzavam o maior entroncamento ferroviário da América Latina. Nas muitas ruas de paralelepípedos, o progresso era anunciado pelo número crescente de automóveis e estabelecimentos comerciais que se instalavam no centro, ao redor da Estação Central.
Essa Bauru cheia de promessas, com ares de “cidade sem limites”, inspirou o poeta ferroviário Manuel Domingos de Oliveira a compor o “Hino a Bauru”, em 1951. Na letra, ele vislumbrava na cidade uma grande possibilidade de progresso, na Bauru que era “a esperança e o desejo febril”, “a luz do céu resplandecente desta terra abençoada”.
Nem bem concluiu a letra e a composição da música, Manuel Domingos encarregou seu filho Hermógenes de Oliveira de escrever a partitura para o piston. A partitura dos outros instrumentos de sopro foi escrita pelo sargento Antônio Lazarine, na época maestro da Banda Regimental do 4.º Batalhão da Polícia Militar.
Atualmente, passados mais de 50 anos, a Bauru cantada por Domingos ainda não aconteceu, mas seu filho Hermógenes, hoje com 80 anos, não desanimou. “Bauru vai chegar lá, não vai? Acho até que vai ultrapassar o que meu pai esperava. Ele também, se estivesse vivo, estaria otimista”, diz esse senhor de olhos azuis bem vivos e elegantemente vestido.
Esquecido
Apaixonado por Bauru, como o pai, Hermógenes de Oliveira vem ao Jornal da Cidade motivado pelo mesmo sentimento de patriotismo. Ele lamenta o fato de nenhuma atividade relativa aos 111 anos da cidade - comemorados no dia 1 de agosto – ter dedicado um minuto sequer à composição de seu pai. “O hino foi esquecido. Tem muita gente que nem sequer sabe que ele existe”, lamenta o ferroviário aposentado e músico autodidata, que toca violão, bandolim, piano, pandeiro e violino.
Mas o “Hino a Bauru” não só existe, como foi oficializado por uma lei municipal de 1993. De acordo com o parágrafo único do artigo primeiro, “o hino, oficializado por esta lei, deverá ser cantado em todas as festas oficiais do Município e nos estabelecimentos de ensino”, garante o documento.
O autor da composição, Manuel Domingos de Oliveira, não estava vivo para escutar sua obra gravada em fita K7, numa parceria entre o maestro da Banda Regimental do 4.º Batalhão da Polícia Militar e a regente do Coral Arte Viva, Sônia Berriel. Ambos foram alguns dos responsáveis por impulsionar a divulgação do hino em Bauru.
No entanto, hoje em dia, Hermógenes não tem notícias de instituições e cerimoniais que sigam a lei.
“Independentemente das pessoas gostarem ou não, é lei, tem que ser cumprida. Ter um hino é importante para uma cidade, mas ele precisa ser aprendido e cantado pela população”, defende o senhor, enquanto cantarola a música baixinho e afinado, em ritmo marcial, para mostrar, “como é bonito e simples” o “Hino a Bauru”.
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Biografia
Manuel Domingos de Oliveira, autor do “Hino de Bauru”, nasceu em Santa Rita do Rio Pardo (BA) em 1876 e morreu aos 96 anos em Bauru, em 1968, onde morava há 38 anos. Foi ferroviário, farmacêutico, músico, poeta e compositor. Em Bauru, fez várias composições homenageando a cidade, como os hinos dedicados ao Esporte Clube Noroeste e à Associação Luso Brasileira. Oliveira teve cinco filhos, sendo um adotivo, e 13 netos.
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“Hino a Bauru”
É Bauru terra branca ditosa.
É a esperança e o desejo febril
Amparada na árvore frondosa
Cidade franca do nosso Brasil
É a luz do céu resplandecente
Desta terra abençoada.
Bauru, és o sol nascente
Que surge na madrugada.
Vives na paz bem altaneira
Tens gloriosa tradição,
Saudamos-te, como a primeira
da brasileira Nação.
De São Paulo és a cidade querida
Bauru, berço de região.
Sempre bela e engrandecida
No progresso de grande extensão.
Vida própria da Noroeste
De riqueza e amplidão.
É a esperança que nos resta
E de grande satisfação.
Oh! que terra tão querida
de todo o meu coração.
Saudamos-te por tua vida
na brasileira Nação!