Quando se chega ao Jardim Solange, na zona oeste de Bauru, o cenário não é dos mais agradáveis. Sem asfalto, com infra-estrutura precária, o bairro é um poço de problemas, que os moradores vão enfrentando com a ajuda uns dos outros. Mas engana-se quem pensa que os obstáculos do bairro terminam na poeira, nos dias de sol e na lama dos dias chuvosos. Para dentro dos portões de algumas casas estão pessoas que sofrem com o descaso ou falta de tempo de familiares, e que não conseguiram atendimento da prefeitura: os idosos.
Imagine o leitor trabalhar a vida inteira, penar para conseguir uma pequena aposentadoria ou pensão e, ao invés de ter uma vida tranqüila e com qualidade de vida, ser submetido a privações ou ficar isolado do mundo, tendo que depender da boa vontade dos vizinhos para poder se manter em pé, com um pouco de dignidade.
Se não é possível imaginar uma situação assim, o JC vai contar apenas um dos muitos casos que acontecem nos bairros de Bauru, e olha que são muitos. Infelizmente, nem todos podem ou querem mostrar a cara, mas este não é o caso de dona Adelina de Jesus Claudino, de 87 anos, uma das dependentes da “rede vizinhança de solidariedade”.
Chegamos à casa de dona Adelina às 9h, acompanhados de sua vizinha, a vicentina e ex-líder comunitária do Jardim Solange Diva Dias, educadora aposentada. A recepção é feita pelos diversos gatos que a idosa tem, que lhe fazem companhia dia e noite. Além dos bichanos, uma cadela late, rouca, entregando que já está com idade avançada, assim como sua dona. Diva já comenta: “Ela sempre cuidou dos cachorros do bairro. Eles vêm no portão para esperar a comida”.
Dona Adelina sai do quarto para nos receber. Apesar da dificuldade, ela vem sem ajuda, arrastando um pouco a perna, já que, por causa do tempo mais frio, os ossos dão sinais de alerta o tempo todo. Mesmo assim, nem de longe ela parece com a dona Adelina de dois meses atrás, quando sofreu uma queda durante a noite e, sem conseguir se levantar, passou a noite no chão, o que lhe rendeu um enfisema pulmonar, já curado, garante.
Depois dessa noite, dona Adelina não conseguia levantar da cama e a dependência ficou maior, a ponto de uma das vizinhas ter de dormir com ela, para que não ficasse sem cuidado. Serena, não se revolta com a situação, pelo contrário, ela prefere viver sozinha, mesmo tendo um filho morando em Paulínia, na região de Campinas. Quem se revolta é Diva. Indignada com a atitude de familiares e da prefeitura, sobretudo na área da saúde. “O médico do pronto-socorro nem olhou para ela direito”, diz.
Não fosse a correria de gente como a educadora Diva Dias, dona Adelina talvez não pudesse contar sua história. Natural de Pirajuí, onde morou na “roça”, perto do rio Feio, a idosa teve três filhos, dos quais apenas um continua vivo. O caçula, que morava com ela no Jardim Solange, faleceu há quatro anos. Foi a partir daí que ela ficou sozinha e não quer saber de ir para a casa do filho, ou da nora, que vive em Bauru. “Enquanto puder arrastar minhas perninhas, eu me ajeito”, afirma.
A rede
“Tenho boas amizades, conheço todo mundo”, conta dona Adelina. A partir deste comentário, percebe-se que a “rede” está formada. A educadora aposentada Diva Dias é apenas um elo da corrente que existe no Jardim Solange. Os vizinhos se tornaram a família de dona Adelina, já que a família de sangue está distante de sua realidade.
Mas o caso da idosa é apenas um, em meio a outras realidades distintas. Diva vai contando as histórias de outros idosos do bairro. Só no Jardim Solange são cinco. Algumas histórias são, no mínimo, revoltantes. Como a de uma senhora que recebe a aposentadoria, mas o filho e a nora não deixam um centavo sequer em sua mão. “Quando os vizinhos podem, ajudam, mas é difícil”, afirma Diva. Outro caso é de uma senhora que mora com a família, mas fica sozinha porque todos trabalham. Quando os vizinhos não podem ajudar, a situação fica complicada. Diva conta que, certa vez, não pôde levar a idosa ao banco para receber. Ela pegou um táxi e foi, mas ao descer do veículo foi atropelada por uma moto e quebrou a perna.
E o problema não se restringe ao Jardim Solange. Diva afirma que, como vicentina, rodou diversos bairros e encontrou situações parecidas em todos eles: descaso, solidão, sem falar dos maus-tratos. “Nova Paulista, Jaraguá, Jussara e muitos outros. Em todos eles há idosos que precisam de ajuda externa para sobreviver”, afirma. A solução para esses casos, a educadora tem na ponta da língua: creche para os idosos. Segundo ela, não adianta fazer congressos, reuniões e discussões se não houver soluções na prática.