09 de julho de 2026
Geral

Escolas públicas não têm mais as tradicionais bandas e fanfarras

Thatiza Curuci
| Tempo de leitura: 5 min

Quando o dia 7 de Setembro se aproxima, a diretora da escola estadual Ernesto Monte, Heloíse Helena Cerqueira Souza, sente um aperto no coração. “Lembro da época em que desfilávamos”, diz. Ela já foi coordenadora da fanfarra que havia na escola, uma das mais tradicionais de Bauru. Mas não é apenas ela que tem saudades: não há mais escola municipal ou estadual da cidade que possua uma banda ou fanfarra. A Secretaria Municipal de Educação e a Diretoria de Ensino confirmaram a informação.

Falta de verba para a manutenção e de interesse dos alunos mais jovens são apontadas como as principais causas para o encerramento das bandas musicais escolares.

Como não havia repasse público específico para as fanfarras, elas sobreviveram por muito tempo com ajuda das Associações de Pais e Mestres (APMs), trabalho voluntário e festas para arrecadar dinheiro. Foi o caso da Fanfarra Marcial Ernesto Monte, entre tantas outras. Entre 1990 e 2005, se apresentou em diversas cidades e até conquistou o terceiro lugar no Campeonato Estadual de Bandas e Fanfarras, classificando-se para o concurso federal. Atualmente, existe uma linha de incentivo que repassa esporadicamente recursos para as fanfarras e bandas, através da Secretaria do Estado da Cultura.

“Antigamente, fazíamos eventos para arrecadar dinheiro e conseguíamos muitos colaboradores. Assim, o transporte até a cidade e o lanche eram gratuitos para os participantes. Com muita força de vontade, os alunos faziam ensaios de segunda a sábado”, lembra-se Souza.

Voluntário

Um professor voluntário ensinava os alunos a tocar os instrumentos. Eles também conseguiam dinheiro para confeccionar os uniformes e comprar os sapatos.

Hoje, todo os instrumentos musicais – bumbo sinfônico, tímpano, prato, corneta, bateria, tuba, entre outros - estão guardados em caixas. Alguns, segundo a diretora da escola, já foram quebrados por vândalos.

Segundo Souza, a decadência da fanfarra começou em 2000, quando houve uma sindicância para apurar desvio de dinheiro da APM na instituição. “Quando o caso foi concluído, os rumores negativos já haviam denegrido a imagem do grupo. Nesta época, ficamos desmotivados”, diz. No final das contas, a sindicância não encontrou irregularidade, segundo a diretora. “Como uma espécie de gratificação, recebemos R$ 6 mil do Estado para comprar novos instrumentos. Mas o grupo nunca se recuperou”, diz.

Além disso, os alunos mais jovens não se interessaram pela música. “Os estudantes de 5.ª a 7ª séries fugiam das aulas de reforço de matemática e também não compareciam mais nos encontros da fanfarra”, conta. Mas na opinião dela, os mais velhos, da 8.ª série do ensino fundamental ao 1.º ano do ensino médio têm vontade de voltar a tocar. “Eles participaram da fanfarra e me cobram até hoje para retomarmos os ensaios. Quem sabe um dia a gente consiga”, desabafa.

A ex-aluna do Ernesto Monte Cinthia Silveira, 22 anos, se lembra dos tempos áureos, quando o grupo tinha entre 50 e 70 integrantes. Ela tocou prato e também portou a bandeira do Brasil - que ia à frente da banda. “Já ganhei até um troféu de melhor garbo (participante que precisa ter postura)”, lembra-se. A ex-integrante acredita que se houvesse verba para as fanfarras, haveria interesse dos alunos de participar. “Acho que não faltam pessoas para aprender música. Mas estamos precisando de incentivo e patrocínio”, diz.

A fanfarra da escola Ernesto Monte tem até uma comunidade no Orkut: “Fanfarra Ernesto Monte Forever”, que reúne ex-integrantes e interessados no tema.

A escola municipal Santa Maria também ficou sem sua fanfarra anos atrás. A atual diretora da escola, Margareth Noemi Karg Quirino, disse que na época que assumiu, não havia mais a fanfarra. “Hoje em dia, os instrumentos estão velhos. Seria mais caro consertá-los do que comprar novos”, diz.

Na escola estadual Mercedez Paes Bueno, a fanfarra também foi extinta. “Quando entrei na direção da escola, não havia mais o grupo. Pelo que fiquei sabendo, os vizinhos reclamavam do barulho por se tratar de uma região onde as casas são muito próximas da escola”, diz a vice-diretora Maria Dalila Martins.

Na cidade, apenas as escolas particulares ainda mantêm a tradição. Algumas delas, inclusive, irão se apresentar no desfile do dia 7 de Setembro, no Sambódromo.

Os estudantes interessados em tocar instrumentos musicais podem procurar a Secretaria Municipal de Cultura. A prefeitura oferece projetos para eles participarem das atividades da Banda e Orquestra Municipal.Mais informações sobre a Banda e Orquestra Municipal pelo telefone 3235-1072 .

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A diferença

A banda se distingue da fanfarra por ser mais complexa, com instrumentos também usados em orquestras, enquanto na fanfarra dominam os instrumentos de percussão.

O Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria da Juventude (ex Secretaria de Esportes e Turismo), realiza anualmente o Campeonato Estadual de Bandas e Fanfarras. O evento, segundo a secretaria, tem a finalidade de estimular a organização de bandas e fanfarras e possibilitar o aprimoramento das técnicas musicais.

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Tipos de bandas e fanfarras

Fanfarra simples - É uma corporação composta por instrumentos de percussão e de sopro.

Fanfarra com pisto ou com válvula - É composta também por percussão.

Banda marcial - Este grupo conta com instrumentos usados em orquestra, como trompete, trombone, tuba, trompas e toda a percussão. A diferença básica de uma orquestra é que é um grupo de marcha. São bandas com características militares.

Banda musical - É uma banda composta por todos os instrumentos de uma banda marcial, além de instrumentos de madeira, como clarinetas e flauta transversal. É uma corporação para apresentações em locais fechados.

Fonte: Associação de Fanfarras e Bandas do Litoral Paulista.