09 de julho de 2026
Cultura

Crônica: Colcha de Retalhos


| Tempo de leitura: 2 min

“Colcha de Retalhos” é um filme envolvente de 1995, aclamado pelo público e pela crítica. O enredo refere-se a um grupo de mulheres que se reúnem para a confecção de uma colcha bordada com o tema “aonde vive o amor”. No encontro entre as mulheres, Finn, neta de uma das bordadeiras, observa no relato histórias de paixões e envolvimentos repletos de sentimentos, enquanto trabalha fervorosamente em sua tese de mestrado sobre práticas artesanais que se tornam rituais femininos.

No enlace das histórias diante de agulhas, linhas e retalhos, uma das integrantes do grupo, (Em), enquanto se prepara para deixar seu marido, um sedutor artista plástico, é assaltada por uma ventania que a obriga a se abrigar no atelier do marido.

Entre telas que retratam cenas como a beleza sensual de sua mocidade, a experiência da maternidade e a sua imagem já envelhecida, ela se depara com sua imagem real refletida no espelho. Diante de tal imagem, Em senta-se em um sofá de costas para o espelho mirando suas imagens eternizadas nas telas, adormece e mais uma vez se esquece de seguir em busca de uma nova vida.

Esta cena nos convida a refletir não apenas sobre a personagem do filme (que recomendo pela sua narrativa poética sobre o universo feminino), mas também sobre nossas próprias inquietações. Como nos enxergamos diante da imagem que nos aponta quem nos tornamos? Diante desta imagem, seguimos convivendo com o que somos ou escolhemos vislumbrar apenas o passado?

Com tais questionamentos, podemos pensar que a memória pode tanto nos aprisionar quanto nos libertar. Libertar do passado não é o mesmo que abandoná-lo, mas talvez seja ir despindo-se da memória e seguir rasgando no tempo uma nova trajetória, um novo desenho de quem somos nós. Não podemos nos livrar da memória, mas não devemos transformá-la no combustível essencial de nossas vidas.

Diante de nós mesmos, devemos nos renovar a cada dia tecendo nossa história como folhas ao vento, reunindo retalhos, rascunhando novos enredos para descortinar novas paisagens. Talvez valha a pena tentar, comece escolhendo os retalhos.

Flaviana Machado Tannus, psicóloga, mestranda da Unesp-Bauru e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte