10 de julho de 2026
Nacional

Jorge Furtado critica cinema brasileiro

Por Silvana Arantes | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

No quarto longa que escreve e dirige, o gaúcho Jorge Furtado quis justapor o mínimo indispensável no padrão da civilidade (o saneamento básico) ao que considera o máximo da sofisticação criativa humana (o cinema). Fez a comédia “Saneamento Básico - O Filme”, que finalmente estréia hoje em Bauru, no Cine’n Fun do Alameda Quality Center, e sobre a qual ele fala na entrevista a seguir.

Pergunta - “Saneamento Básico - O Filme” é sobre o capital, tema de seus longas anteriores, como observou o crítico Ismail Xavier?

Jorge Furtado - É verdade que todos os meus filmes falam de dinheiro, de ascensão social e de exclusão. Acho que há algumas coisas recorrentes, que escrevo sem me dar conta. O que percebo mais claramente é que tento não fazer fábulas moralizantes. Os filmes não têm moral, não julgam os personagens, que são um pouco amorais.

Pergunta - Mas não diz respeito à moral o mote “Se é para fazer, melhor fazer bem feito”, repetido no filme?

Furtado - Não, nesse caso é uma ironia total, porque eles estão fazendo pessimamente (dentro do filme, o vídeo “O Monstro do Fosso”). Quer dizer, é irônico nos personagens, mas é também um comentário meu sobre cinema brasileiro: “Cinema brasileiro, se é pra fazer, melhor fazer bem feito!”.

Pergunta - É um comentário sobre o cinema brasileiro ou sobre o modo de produção do cinema brasileiro?

Furtado - Sobre como se faz cinema no Brasil também. Não quero ficar criticando colegas, mas falta um pouco de autocrítica. Acho o cinema brasileiro, na média, melhor do que o americano. É mais adulto, mais conseqüente, mais interessante. Não saio de casa para ver “Transformers” nem “Harry Potter”. São uma fórmula industrial, sem cara, resultado de 600 reuniões e testes de público, feitos para chegar a algo que agrade a todo mundo. O cinema brasileiro tem a força do erro, a assinatura de uma pessoa. Mas a força do erro também tem limites. Falta, às vezes, pensar melhor o roteiro, a narrativa, a decupagem, enquadrar melhor. Falta trabalho pensando no público, não só na satisfação pessoal de fazer algo, porque arte requer comunhão.

Pergunta - Não acha que o título “Saneamento Básico - O Filme” sugere ao público a idéia de ser um documentário, e não uma comédia?

Furtado - Só se a pessoa olhar apenas o título, porque com Camila Pitanga, Lázaro Ramos e Bruno Garcia não é um documentário! Uma das primeiras coisas que escrevi nesse roteiro foi o título, porque saneamento básico é o mínimo, e o filme é o máximo. O cinema é a mais complexa das formas de expressão. Ninguém gosta desse título. Briguei por ele. Cheguei a dizer que, se alguém sugerisse um melhor, eu trocaria. Nada!

Pergunta - É verdade que você está adaptando seu livro “Trabalhos de Amor Perdidos” (Objetiva, 2006) para Fernando Meirelles filmar?

Furtado - Fernando é um bocão! Três meses depois do livro lançado, ele me disse que queria filmar. Falei que achava ótimo. Filmagens em Nova York? Não tenho dinheiro para fazer esse filme. Sou o maior “barriga fria”, adoro contar notícia boa, mas não falei isso nem para a minha mãe. Aí o Fernando vai pra Cannes e dá uma coletiva! O cara é doido! Acho que ele vai fazer... Diz que quer fazer.

Pergunta - Você não quis filmar essa história porque teria que ser em NY?

Furtado - Ah, nos Estados Unidos... não filmo longe de casa. Não saberia fazer. Meu inglês não dá para dirigir ator. Para escrever o roteiro, ainda me viro, mas dirigir nos EUA e em inglês? Não faria isso... Trabalho em grupo, com uma turma que faz filmes junto há 20 anos, e me sinto totalmente à vontade. Agora vou para uma equipe de americanos?

Pergunta - Ficará à vontade com outro diretor filmando um roteiro seu?

Furtado - Sim. O Fernando é muito melhor diretor do que eu. Vai fazer um filme melhor do que eu faria. Ele é diretor mesmo, o cara que gosta de ir pro set, pensar (o uso da) câmera. Eu sofro muito para dirigir.

Pergunta - Sofre por quê?

Furtado - Tenho aprendido a me divertir mais. Mas tinha a sensação de que o roteiro sempre piorava quando filmado. O filme ideal, para mim, era o roteiro. Vou filmar, tem o barulho da geladeira, chove, vem um monte de coisas da realidade que não estavam no roteiro. Eu me irritava muito dirigindo. Agora aprendi um pouco a ver que o roteiro também melhora com a realidade e os atores.

Pergunta - Qual é seu próximo filme?

Furtado - Estou escrevendo três roteiros. Descanso de um em outro. Um nem sei se vai ser filme ou virar livro. Mas dois vão ser filmes, um dia. O próximo eu chamo de “Beleza”, mas não sei se vai ser esse o título.

Pergunta - Tomara que não...

Furtado - Tomara que não (risos). É uma história de quatro personagens, numa cidadezinha do Rio Grande do Sul. O que tem de diferente para mim é que é um drama.