08 de julho de 2026
Geral

Branemark reconstrói rostos mutilados

Thatiza Curuci
| Tempo de leitura: 4 min

Quando a vendedora mineira Débora Rocha Dutra tinha apenas 20 anos, em 2000, enfrentou um câncer raro na face, ficou com nariz, céu da boca (palato) e lábio praticamente destruídos pela gravidade da doença. Enquanto fazia o tratamento, ela perdeu a fala e não se alimentava oralmente. Ficou abalada emocionalmente e o convívio social ficou bastante prejudicado. No ano passado, ela voltou a ter a vida de antes, depois de receber duas próteses através do Instituto Branemark, em Bauru.

A entidade sem fins lucrativos e que faz implantes dentários, também faz reconstrução de rosto. Desde maio de 2006, 20 pessoas que tiveram tumores extraídos da face ou sofreram acidentes passaram por cirurgia de implante de partes da face. Outros sete pacientes nas mesmas condições recebem atendimento no instituto. Nesta semana, quatro fizeram cirurgia.

As próteses chamam a atenção pela perfeição. O material usado, silicone, é bastante conhecido nas cirurgias estéticas, mas a técnica é muito mais complexa. O rosto é moldado em gesso e, só depois, a parte é confeccionada, levando-se em conta a cor da pele e outras características. “Um tipo de cera é usado para moldar os detalhes anatômicos do paciente. Só depois é feito o molde com silicone”, explica o médico protesista bucomaxilofacial Marcelo Ferraz de Oliveira.

A parte reconstruída é fixada no rosto através de peças magnetizadas, como ímãs. Antes disso, o paciente passa por cirurgia para implantar parafusos de titânio e placas que vão segurar as próteses. Cada procedimento é estudado minuciosamente e o rosto é praticamente reconstruído. O tratamento é demorado, mas o resultado agrada – e muito – os pacientes.

“Quando coloquei a prótese, era como se tivesse nascido novamente. Tive outra oportunidade de vida”, resume Dutra. Se fosse pagar, a cirurgia para fazer a reconstrução da face usando próteses custaria, em média, R$ 30 mil. Porém, ela não teve custos.

A paciente, que mora numa cidade de apenas 11 mil habitantes em Minas Gerais, pôde retomar sua vida normalmente. “A fase mais difícil foi quando não conseguia falar nem comer. Sou uma pessoa muito comunicativa e fiquei deprimida com isso. Perdi totalmente o convício social. Quando tinha que sair de casa, usava máscara cirúrgica e me comunicava escrevendo”, relembra.

Uma lembrança ficou gravada em sua mente logo que terminaram as cirurgias para colocar as próteses. “Eu, o doutor Branemark e doutor Marcelo, fomos a uma churrascaria para comemorar. Estava com muita vontade de comer, como antes”, diz.

A paciente é otimista. “Acredito que um dia será possível reconstruir todo o tecido prejudicado pelo câncer. Depois que consegui as próteses, adquiri mais paciência para esperar esse dia chegar”, conta. Segundo o médico, os pacientes que sofrem tumores no rosto enfrentam dificuldades física, estética, funcional e psicológica.

“Eles sentem-se perdidos e, algumas vezes, não encontram apoio nem mesmo entre os familiares”, relata. Segundo o médico, vários pacientes que operaram no instituto tiveram câncer de pele. Os demais sofreram diversos tipos de tumores benignos e malignos.

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Doença

A paciente Débora Rocha Dutra, cujo rosto foi reconstruído no Instituto Branemark, teve um câncer conhecido por linfoma de Hodgkin de células T. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), essas células ajudam a proteger o organismo contra vírus, fungos e algumas bactérias.

A doença é uma forma de câncer que se origina nos linfonodos (gânglios) do sistema linfático, um conjunto composto por órgãos, tecidos que produzem células responsáveis pela imunidade e vasos que conduzem estas células através do corpo.

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A entidade

O Instituto Branemark foi inaugurado há quase dois anos em Bauru e tem cerca de 5.500 pessoas inscritas para fazer implante dentário e de partes da face. Neste período, 190 pacientes concluíram o tratamento e outros 2 mil fizeram avaliação.

A entidade sobrevive de doações – a maioria delas de voluntários e empresas da Suécia. Todos os médicos brasileiros e estrangeiros trabalham voluntariamente. Desde o início das atividades, o instituto atende, em 80% dos casos, gratuitamente, apesar de ainda não ter convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS).

A direção do instituto informou que solicitou a celebração de convênio para atendimento pelo SUS duas vezes, mas só obteve respostas negativas. Para se conveniar ao SUS, é preciso ter atendimento 100% gratuito, o que ainda não ocorre no instituto. O Branemark funciona em terreno cedido pela prefeitura em comodato.