Rio - A população brasileira somou 187,2 milhões de pessoas em 2006, revela a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número representa um acréscimo de 1,42% frente a 2005. Com a queda nas taxas de mortalidade e de fecundidade, o retrato da população brasileira é de maior envelhecimento.
A taxa de fecundidade passou de 2,1 nascimentos por mulher, em 2005, para 2,0, em 2006, de acordo com a pesquisa. O percentual de crianças caiu em todas as regiões.
Maria Lucia Vieira, gerente da Pnad, afirmou que a tendência de redução da taxa de fecundidade vem ocorrendo desde a década de 60. “A nossa evolução foi muito mais rápida do que aconteceu na Europa, mas vai continuar crescendo”, afirmou.
O Acre é o Estado com estrutura mais jovem, enquanto Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul apresentam população mais envelhecida.
Cor da pele
A população negra começa a ganhar mais visibilidade nas estatísticas oficiais em um período em que se ampliaram as políticas públicas de ação afirmativa, destinadas, em tese, a promover maior eqüidade racial. Dados da Pnad mostram que o número de pessoas que se declaram de cor preta cresceu em 1,34 milhão de 2005 para 2006. Na prática, a população de cor preta passou de 11,5 milhões de pessoas para 12,9 milhões.
A pesquisa do IBGE mostra que, em 2006, as pessoas de cor preta começaram a “sair do armário”, como definiu uma especialista. O instituto afirma que uma das explicações possíveis é que mais pessoas estejam assumindo a própria cor. Com isso, a participação da população de cor preta no País aumentou de 6,3% em 2005 para 6,9% no ano passado.
A participação das pessoas de cor parda na população caiu de 43,2% para 42,6%, o que confirma a tese de que houve uma migração de pessoas que se declaravam pardas para o grupo dos que se declaram pretos.
Para o cantor Martinho da Vila, o número ainda não reflete a realidade da população, mas a tendência é de aumento porque as pessoas já estão se sentindo “mais confortáveis” para assumir a própria cor.
“No passado, muitas pessoas que se diziam de cor parda não se assumiam como negras porque o negro era malvisto. Com as ações de vários segmentos do movimento negro, a gente botou na cabeça desse pessoal pardo que nós somos vistos como negros de qualquer maneira. Temos mais é que nos assumir. O armário dos morenos que ainda se dizem brancos é muito maior”, disse.
Para o ministro interino da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Martvs Alves das Chagas, o aumento é resultado da implantação das ações afirmativas no País. “Antes, havia muita dificuldade para debater o tema. O que o movimento negro diz é que as pessoas não precisam mais esconder o que são.”
Na avaliação da antropóloga Yvonne Maggie da UFRJ, ainda não é possível definir as causas do aumento da autodeclaração de pessoas de cor preta. Ela destacou que o percentual de pessoas que se declaram pretas ainda é pequeno. Contrária à política de cotas, ela afirma que uma das hipóteses é que as ações afirmativas tenham contribuído para o aumento de um ano para o outro. “As políticas que reforçam as identidades estão sendo criticadas no mundo inteiro porque elas produziram mais dor do que alívio. A identidade é uma coisa construída e tem como objetivo dividir o povo. Costumávamos nos ver como brasileiros”, disse.
A população de cor branca perdeu participação e passou de 49,9% em 2005 para 49,7% em 2006. No Sul, a população branca chega a 79,6%, e, no Norte, a parcela é de 23,9%.
Para Marcelo Paixão, economista da UFRJ e coordenador do Observatório Afrobrasileiro, as mudanças detectadas na pesquisa desde a edição de 2005 são históricas. “Se considerarmos que indicadores demográficos mudam pouco porque envolvem crescimento da população, migração, taxa de fecundidade, que, no caso da população negra é maior do que a branca, os dados representam uma mudança de percepção da população, é uma resposta.”
Em termos percentuais, a população de cor preta da região Norte foi a que mais cresceu em 2006: passou de 3,8% para 6,2%, seguida pelo Nordeste, onde o percentual passou de 7,0% para 7,8%. No Sudeste, a participação passou de 7,2% para 7,7% da população.