11 de julho de 2026
Geral

Quem deixa o trabalho por iniciativa própria também sente dificuldades

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Nem todo mundo deixa o emprego porque foi demitido. Muitas vezes, sair do mercado de trabalho é uma escolha pessoal. Mesmo assim, a decisão costuma trazer aborrecimentos.

Layla Zakimi do Valle, 29 anos, trabalhou quatro anos em uma organização não-governamental (ONG) voltada ao atendimento dos moradores de rua da cidade de São Paulo. Na linguagem popular, era o serviço que ela tinha pedido a Deus. Trabalhar na ONG era sua realização profissional. Layla estava plenamente satisfeita com o trabalho, mas teve de abrir mão dele para exercer uma outra “profissão”: ser mãe.

Quando Pedro nasceu, há cerca de um ano e meio, ela largou a ONG e se mudou para Bauru, onde trabalha o marido. Família reunida, Layla passou à função de mãe e esposa em tempo integral.

Ela lembra que no início era tudo novidade. Era seu primeiro filho. As descobertas e as preocupações de mãe a deixavam ocupada o tempo todo, sem tempo para pensar em outra coisa. Mas o tempo foi passando, o filho foi ficando “independente” e hoje ela está desesperada para voltar ao mercado de trabalho.

“Sinto falta do relacionamento com outras pessoas. Não vejo a hora de voltar”, relata ela. Além da falta de contato social, Layla diz que ficar em casa o dia todo dá uma sensação de inutilidade e de frustração. Ela conta que a relação com o marido sempre foi igualitária, financeiramente falando. Agora, como não consegue levar dinheiro para dentro de casa, ela fala que se sente “menos importante”.

Pressão

De acordo com a psicóloga Marcela Velosa, esse é um sentimento comum entre as pessoas que estão fora do mercado de trabalho, principalmente se for casado. “Neste caso, a pressão é maior porque o sustento da família depende dos pais. E eles se cobram muito quando não são capazes de atender a essa necessidade.”

Denise Bertozo Keller, 52 anos, também teve de largar o emprego para se dedicar à maternidade. Ela trabalhou como professora durante três anos e como desenhista do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) outros sete anos.

Quando nasceu a primeira filha, Karen, hoje com 26 anos, ela continuou trabalhando. Mas quando Anita, 21 anos, chegou, não teve jeito, Denise teve de deixar o emprego. “Era muito para minha mãe cuidar de duas crianças, e pagar uma empregada para fazer isso não valia a pena por causa do salário que eu recebia. Então, decidi sair”, conta.

Enquanto as filhas eram menores, Denise diz que não sentia falta de um trabalho. Afinal de contas, ela tinha muito serviço a fazer. Ela levava e buscava as filhas nas diversas atividades que tinham a fazer durante o dia, como ir à escola, ao balé e diversos outros compromissos. “Eu ficava ocupada o dia todo”, relembra. “Agora, elas cresceram e eu sinto falta de um trabalho fora de casa.”

Ter a oportunidade de receber seu próprio dinheiro é um dos principais, senão o principal motivo apontado por Denise e outras pessoas para que queiram voltar ao mercado de trabalho. Dá uma sensação de independência, algo muito cobiçado hoje em dia.