Qual será o futuro da literatura bauruense? Não é uma pergunta fácil de responder, mas para o presidente da Academia Bauruense de Letras, Munir Zalaf, e a delegada regional da União Brasileira de Trovadores, Erci Maria Marques de Faria, a cidade tem talentos escondidos pelos quatro cantos, é uma questão de despertá-los.
A trovadora destaca que, nas andanças da UBT pelos bairros, nas muitas oficinas que são realizadas, é possível perceber que há diamantes brutos em Bauru. A falta de acesso e as poucas condições de participar de grupos ou freqüentar bibliotecas fazem com que esses talentos fiquem escondidos. “Eles existem, estão lá, e precisam ser despertados, lapidados”, afirma.
Um exemplo disso é a quantidade de trabalhos recebidos pela UBT quando promove seus concursos de poesia. No último, segundo Erci, foram mais de 400 trabalhos do Brasil inteiro, com grande participação de bauruenses. “Nós sempre tentamos passar alguma coisa por onde vamos. Acho que isso contribui bastante para esse despertar”, comenta.
Já Munir Zalaf, presidente da ABLetras, afirma que é preciso insinuar esses talentos, para que eles sejam despertados. Assim como a trovadora Erci Marques, Zalaf afirma que os bairros de Bauru são muito ricos em pessoas com talento para escrever, sejam contos, poesia, romance.
Como exemplo, Zalaf lembra que nas palestras realizadas as discussões são sempre acaloradas sobre os diversos temas. “Em uma que fiz no Senac, falei por dez minutos e discutimos por 55. Só terminou porque eu tinha outro compromisso”, lembra.
Não quer dizer que seja uma regra. Para o escritor ainda há muito a fazer para que as pessoas sejam despertadas para a literatura. Segundo ele, o que falta é provocar. “Você tem de provocar, através de insinuações e desafios. Você levanta questões que gerem dúvidas e que provoquem as perguntas”, ressalta.
Esses desafios fazem com que os talentos escondidos aflorem, indicando a esse indivíduo um mundo novo, muitas vezes desconhecido, mas que estava ali pedindo para ser provocado.
Outro ponto que Munir Zalaf destaca é a falta de interesse dos governos, seja municipal, estadual ou federal. Eles usam muita teoria como válvulas eleitorais e eleitoreiras, mas não desenvolvem o que realmente interessa. “Constróem a escola, mas não constróem o aluno. Porque professor não tem incentivo”, diz.
Mesmo com as dificuldades, falta de incentivo, patrocínio e ações mais concretas por parte dos governos, Munir Zalaf acredita que o futuro da literatura bauruense está garantido. O escritor aponta que, mais de uma centena de pessoas escreve para ele, mostrando seus trabalhos. “Eu sempre digo que todo mundo, em algum momento, já escreveu poesia. Está tudo no fundo da gaveta”, diz.
Para que este futuro literário seja garantido, Zalaf afirma que os escritores precisam parar de sentir medo, deixar a covardia de lado e tirar os textos da gaveta, apresentá-los ao mundo. Como exemplo, o escritor cita ele próprio. “Sou autodidata, não estudei, mesmo assim cheguei a presidente da academia. Então, basta deixar o medo de lado e tirar o talento da gaveta”, finaliza.
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Bibliotecas ramais
“Um país se faz com homens e livros.” A máxima de um dos autores mais famosos de nosso tempo, Monteiro Lobato, deveria ser seguida à risca pelos brasileiros. Não é. O Brasil é um país que lê pouco e mal. Em média, o brasileiro lê 1,8 livro por ano, segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL).
Os modestos números ganham contornos piores se comparados aos dos vizinhos Uruguai e Argentina, onde as pessoas lêem quatro livros por ano. Quando confrontados à média européia, os dados são irrisórios. Na terra de Shakespeare e Cervantes, a média é superior a 20 títulos anuais.
Um dos motivos para essa falta de leitura é, sem dúvida, a falta de poder aquisitivo da maioria da população. Se para a classe média é difícil adquirir um livro, o que dizer de moradores dos bairros mais afastados, com menos condições financeiras. A solução para a periferia despertar para a literatura é freqüentar uma biblioteca. O maior problema é que as bibliotecas, geralmente, estão localizadas em regiões centrais, e o acesso de quem mora longe é difícil.
Em Bauru, no entanto, alguns bairros têm o privilégio de contar com as bibliotecas ramais. Ao todo são seis, localizadas na Vila Falcão, Geisel, Mary Dota, Jardim Progresso, Vila Tecnológica e Tibiriçá. Além delas, o secretário municipal de Cultura, José Augusto Vinagre, afirma que a secretaria pretende reativar a biblioteca ramal do Jardim Redentor até o final do ano. “Ela funcionava no prédio da associação de moradores do Redentor e, por problema de estrutura, há seis anos não está aberta. A intenção é aproveitar a estrutura da regional desativada e adaptar”, afirma.
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Freqüência
Embora Bauru conte com uma biblioteca central e mais seis ramais, o número de sócios é pequeno e a freqüência é ainda menor. Segundo dados da própria Secretaria de Cultura, as bibliotecas localizadas em bairros possuem 19.427 sócios, mas atraem apenas 4.518 usuários por mês.
Segundo a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), o número de habitantes de Bauru em idade escolar, entre 6 e 19 anos, chega a 75 mil em 2007. Levando em conta apenas esta parcela da população, o número de sócios em bibliotecas ramais corresponde a 25%. Isso porque sem considerar pessoas com mais de 20 anos, o que diminuiria ainda mais esse percentual.
Não que faltem ações para atrair o público às bibliotecas. A Secretaria Municipal de Cultura até tenta, oferecendo oficinas de literatura, dança, artes plásticas, tudo visando estimular o gosto pela leitura. O problema é que a participação também é baixa nesses casos: 234 pessoas participaram até o momento das oficinas realizadas pela Secretaria nas bibliotecas ramais, sendo que o maior público foi na exibição de filmes em Tibiriçá.
Mesmo assim, a intenção da secretaria, segundo Vinagre, é manter esse tipo de atividade para estimular o gosto pela leitura e transformar as bibliotecas em pontos de encontro nos bairros.
Outra ação que deve ser retomada é o Bibliônibus, com relançamento previsto para o próximo dia 21. O projeto visa facilitar o acesso aos livros entre aqueles que vivem em bairros onde não há bibliotecas ramais.