Botucatu - Considerada uma das mais tradicionais fabricantes de jeans do Brasil, a Staroup, nos últimos meses, atravessou um período conturbado no que parece ser uma reestruturação produtiva.
O quadro negativo é atribuído à queda do dólar, ao aumento da competividade com a China e ao cancelamento de contrato com a Levi’s, uma das principais clientes da Staroup.
Por conseqüência, a situação levou a empresa a realizar uma reestruturação da marca para seu retorno ao mercado interno e a demitir funcionários da unidade de Botucatu (100 quilômetros de Bauru).
Conforme informações divulgadas pela assessoria de comunicação da Procuradoria Regional do Trabalho da 15.ª Região, em seu site na Internet, a fabricante de jeans já demitiu 370 funcionários, de um total de 800 empregados. Numa primeira etapa, foram dispensados 280 profissionais e, em seguida, mais 90 trabalhadores.
Estima-se que, entre as unidades de Botucatu e Avaré, a indústria empregue cerca de 1.750 funcionários, além de gerar outros mil empregos em cooperativas.
O Ministério Público do Trabalho (MPT) denuncia que a empresa não teria efetuado a rescisão contratual dos trabalhadores, diante de sua pretensão em parcelar as verbas rescisórias. A empresa teria alegado não reunir condições financeiras suficientes para efetuar o pagamento das verbas. Os trabalhadores demitidos reagiram e ingressaram com reclamações trabalhistas junto à Vara da Justiça do Trabalho de Botucatu.
Em junho desse ano, o Ofício de Bauru, representando pelo Procurador do Trabalho José Fernando Ruiz Maturana, realizou uma audiência com a empresa e o sindicato dos trabalhadores, expondo o entendimento do MPT sobre a ilegalidade no parcelamento de verbas rescisórias, principalmente sem a inclusão da multa pelo não pagamento das verbas no prazo legal.
“A empresa está passando por uma reestruturação produtiva, com vistas ao crescimento econômico, não sendo crível que esse crescimento econômico possa se dar à custa da correta quitação de verbas de natureza alimentar”, conclui o procurador.
De acordo com o entendimento de Maturana, a empresa e seus sócios reúnem condições econômicas para promover a quitação dos direitos trabalhistas, sem perdas para os trabalhadores dispensados.
Na semana passada, a Procuradoria do Trabalho de Bauru participou de 40 audiências, na Vara do Trabalho de Botucatu, para garantir os direitos de ex-funcionários
O JC tentou insistentemente ouvir a Staroup desde a semana passada. Na sede da empresa, em São Paulo, ontem, a informação era que a indústria não se pronuciaria.
Ontem, também foi procurado o Sindicato do Vestuário de Bauru que responde pelos trabalhadores com subsede em Botucatu. No entanto, nenhum representante foi localizado para comentar as demissões.
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Do jeans cobiçado à crise
A fábrica da Staroup foi inaugurada em Botucatu em 1975. A marca foi fundada em 1956, em São Paulo, pelo imigrante húngaro Joham Gordon. Nos anos 80, o jeans Staroup era cobiçado pelos jovens, que viam na marca a tradução de conforto, despojamento e liberdade investidos no jeans pelo marketing. Nessa época, a empresa de vestuário atingiu o ápice, com 3 milhões de peças produzidas ao ano.
Consolidada, no final da década, a Staroup optou por investir no mercado externo -EUA. Deixou para segundo plano o varejo no Brasil e passou a carregar a etiqueta de marcas tops, como a da Levi’s.
O mercado externo representou agregar valor ao produto e à marca, ótimos contratos e muito risco. A Staroup passou a conviver com a imprevisibilidade das variações cambiais, com contratos de médio e longo prazo estipulados em dólar. No ano de 1992, a Staroup pediu concordata. Sob uma nova administração, a indústria conseguiu zerar em 2000 a dívida - aproximadamente US$ 3,5 milhões - em moeda estrangeira.
Restaram R$ 9 milhões que foram parcelados em seis anos. Ao completar 50 anos em 2006, a empresa apresentava prejuízos e era concordatária. No início deste ano, nova troca de administrador iniciou um processo de reposicionamento da Staroup.
O foco principal continuou no mercado externo, que absorve 70% da produção de 400 mil calças por mês, segundo apurou a reportagem. No início deste ano, os principais clientes eram Levi’s (americana, européia e brasileira), a Lee brasileira, a alemã Marco Polo Jeans e a sueca Denim Birds. Segundo informações, uma calça feita com o jeans Staroup pode custar até 150 euros na Europa. Com esse valor, o produto não está na faixa de aquisição de consumidores médios, que consomem jeans chinês ou turco.
O MPT explica que a Staroup é controlada atualmente por sólidos grupos nacionais e estrangeiros, sendo que o próprio Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) detém uma razoável fatia do capital acionário da empresa.