08 de julho de 2026
Auto Mercado

Dr. Automóvel: Nível de exigência

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

A maioria dos brasileiros tem como verdade absoluta que os carros importados têm uma qualidade muito maior do que os nacionais. Será verdade isso? Ou será mais uma daquelas “lendas urbanas” típicas? Em parte estão certos, mas ao mesmo tempo somos os grandes culpados desta situação e não os fabricantes. E agora, como ficamos?

As montadoras são empresas que levam em conta o padrão de exigência do mercado em que atuam e sendo assim, satisfazem o gosto dos consumidores. Mercados exigentes como o europeu, por exemplo, com alto poder aquisitivo e cultura mais elevada, não concebem um carro de certo nível sem ABS, controle de tração ou airbag lateral (lá o airbag frontal já é padrão), como requisitos mínimos de segurança. Tampouco aceitam que seus governos não mantenham suas auto-estradas como verdadeiras mesas de bilhar de tão lisas, para que possam trafegar por elas. Buracos, nem pensar. Desta forma o padrão de exigência se eleva, e com a maior demanda de equipamentos de segurança e desempenho instalados nos veículos, seu preço cai proporcionalmente. Nos Estados Unidos acontece o mesmo. Como o mercado de lá exige carros grandes e espaçosos, diferente do resto do planeta, lá se encontram as maiores banheiras conhecidas, com seus motores enormes. Carros muito confortáveis, bons de aceleração em reta e muito ruins de curva, e que devido a estas características só fazem sucesso por lá mesmo.

O grande problema é que aqui entre nós o nível de exigência é muito baixo ou até mesmo distorcido, da forma que eu vejo. Carro importado de nível médio em seu mercado original, aqui é chamado de carro de luxo para os nossos padrões. Onde já se viu brasileiro pedir um carro novo com controle de tração eletrônico, por exemplo? Se o carro escolhido estiver exposto na concessionária e já o tiver instalado, ainda vai, mas ninguém irá pedi-lo como opcional, por achá-lo muito caro e desnecessário.

É que nossa cultura automobilística (ou melhor, a falta dela...) faz com que a maioria prefira um carro com um baita som instalado, rodas de liga leve, acessórios aerodinâmicos (!?) na carroceria, faróis de milha e neblina, bancos de couro, enfim tudo o que se possa imaginar de bugigangas que só servem de enfeite para mostrar para os outros o “poder” do dono. Existem pessoas que compram picapes diesel com tração nas 4 rodas e que não sossegam enquanto não colocarem bancos de couro e rodas de alumínio no seu “esportivo”, além de uma capa de courvin sobre a caçamba, pois nunca a usarão mesmo... É uma pena. Distorção explícita!

As montadoras estão equipadas e mais do que preparadas para lançar no mercado coisas melhores do que as que estão rodando por aí. É só o mercado exigir. Se mais pessoas esclarecidas pedirem veículos com airbag, por exemplo, maior será a oferta deste produto no mercado e consequentemente, menor será seu preço, tornando-a mais acessível. Veja este exemplo: aqui entre nós, um mesmo modelo equipado com câmbio automático pode chegar a custar até 10% a mais do que seu equivalente mecânico, que é o padrão ente nós. O oposto ocorre nos EUA onde o padrão são os automáticos, e se quisermos um modelo com câmbio mecânico, teremos que encomendar e pagar mais caro por isso.

Com a nossa “cultura” de levar vantagem, o comprador médio se decide por um determinado modelo de veículo pensando no seu valor de revenda antes mesmo do que na forma que o irá utilizar. Por isso que todos os carros nacionais, sem exceção, até os 1000 da vida, têm câmbios de 5 marchas mesmo que só sejam usados em trânsito urbano. Conheço vários casos de pessoas que só dirigem na cidade e que a quinta marcha ainda é virgem... Então pra que ter 5 marchas e não 4, que poderia baratear o custo do carro na compra? Argumento sábio: senão não vende, vira mico, parece carro de pobre ou de frota, e outras baboseiras mais. E assim, nossa frota circulante fica cada vez mais cheia de carrinhos medíocres com CD players enormes e pouca tecnologia automotiva, mas somos nós mesmos os culpados disso.

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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.