07 de julho de 2026
Cultura

Transformação

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

Eles ainda carregam o sotaque da pequena Arcoverde na poesia cantada de Lirinha. Mas estão longe de Pernambuco, ganharam o mundo e se assumiram como músicos, sem abandonar a característica cênica. Todas essas mudanças que transformaram o espetáculo Cordel do Fogo Encantado num dos mais representativos grupos da cena independente nacional estão consolidadas em “Transfiguração”, espetáculo apresentado amanhã, às 22h, na Associação Luso Brasileira, com apoio do JC.

Terceiro trabalho do grupo, “Transfiguração”, lançado no ano passado, mantém a mesma base que sustenta o Cordel desde 1997: três percussões e a força da poesia. Repleto de referências, o álbum penetra nos universos de Graciliano Ramos, Ítalo Calvino, Nietzsche, Euclides da Cunha, Ana Cristina César e José Carlos Martinez Corrêa.

A produção independente, que teve o patrocínio da Petrobras, traz 15 faixas com temáticas muito mais urbanas do que os demais discos. “A gente procura fazer uma música que vem de dentro da gente. Este disco fala deste tema, com alguns músicos morando aqui em São Paulo, fala do trânsito, dessa coisa do estrangeiro, do estar em movimento no mundo. É um tema que já aparece nos outros dois discos, desta mudança de Arcoverde, de estar rodando pelo mundo, mas que vem mais forte neste”, diz a voz e o compositor do Cordel, José Paes de Lira, o Lirinha.

Em “Pedra e Bala (ou Os Sertões”), a única faixa com participação especial - no caso de BNegão - Lirinha canta o caos da metrópole: “Escuto em alto-falantes aquele som de cimento dessa muralha sem fim/ E o desejo a pedra e a bala/ A santa paz fora do jogo/ Pois o que fala alto é pedra e bala/ Naquela praça onde as crianças brincam/ Naquele prédio perto das estrelas/ Naquele circo no qual quando chove não há espetáculo”.

E é num momento de maturidade que “Transfiguração” chega a Bauru, espetáculo que inclui, além das interpretações das músicas do último trabalho, canções consagradas dos outros álbuns. “Bauru acompanhou todos os nossos espetáculos desde o começo e isso significa que estamos voltando para dar continuidade na comunicação com essa população”, avisa Lirinha.

Na formação, o carisma e a poesia de Lirinha, a força do violão regional de Clayton Barros, a referência rock de Emerson Calado e o peso da levada dos tambores de Rafa Almeida e Nego Henrique. O Cordel do Fogo Encantado passa a percorrer o País, conquistando a todos com suas apresentações únicas e antológicas.

• Serviço

Cordel do Fogo Encantado se apresentará amanhã, às 22h, na Associação Luso Brasileira (rua Luso Brasileira, 5-60). Ingressos à venda por R$ 15,00 (primeiro lote) e R$ 20,00 (segundo lote) nos seguintes locais: Music Sound, Bar do Pepe (ITE), Barbaridade (Unip), Xerox (Unesp), Atlética (ITE), Postos Flag, Xerox (Fênix), Brazuka Bar. Mais informações: (14) 9743-4738 e (14) 3223-5222.

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Mutação sonora

“Transfiguração” também marca a mudança no impulso criativo do grupo. Pela primeira vez, o processo de composição é invertido. Nos álbuns anteriores, o espetáculo nascia antes para depois virar registro em áudio. “As músicas tinham um nascimento na montagem cênica”, explica Lirinha. Agora, o disco nasce primeiro como música para posteriormente ser colocado em cena na estrada. “‘Transfiguração’ foi mais ligado ao estúdio, a um mergulho nosso no ambiente de gravação”, continua.

Como o Cordel nasceu do teatro, o envolvimento com o estúdio era uma dívida dos músicos consigo mesmos, diz Lirinha. “Mas não significa que o grupo vai ficar compondo assim”, salienta o compositor. Para o desafio, o grupo chamou dois produtores, Carlos Eduardo Miranda (O Rappa, Mundo Livre S/A, Raimundos e Skank) e Gustavo Lenza (BNegão e Mamelo Sound System).

Para a mixagem, os músicos convidaram o americano Scotty Hard (De La Soul, Wu Tang Clan, John Spencer Blues Explosion e Nação Zumbi). “Foi interessante porque ele não conhecia a história da banda. Ele recebeu aquele material sem saber das diferenças regionais e da interpretação folclórica”, conta Lirinha.

A mutação sonora da banda foi aplaudida pela crítica. Desde que “Transfiguração” foi lançado, Lirinha recebeu o troféu de “Melhor Compositor da MPB” pela Associação Paulista de Críticos da Arte (APCA), a indicação ao Prêmio Tim, na categoria de “Melhor CD Pop/Rock” e agora a indicação ao Prêmio Prime Bravo! como “Melhor CD Popular”. A solenidade de premiação do Prime Bravo! de Cultura será no dia 1 de outubro, na Sala São Paulo, em São Paulo.