08 de julho de 2026
Articulistas

O perigo do comodismo


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Duas pesquisas recentemente divulgadas preocupam exatamente pelos índices positivos. O instituto Vox Populi, a pedido da revista Carta Capital e do Grupo Bandeirantes, analisou a opinião dos estudantes de nível médio sobre as suas escolas: 91% se declaram satisfeitos ou muito satisfeitos com as instituições particulares e 72%, com as públicas. Já o CIEE traçou o Perfil do Universitário da Região Metropolitana de São Paulo e também ouviu dos jovens a avaliação dos respectivos cursos e obteve avaliação muito parecida: 86% se dizem satisfeitos.

O que espanta é a contradição com a realidade. Mesmo observando que o País está longe da excelência em educação, de acordo com avaliações internas (Enade e Enem) e externas (Pisa), o alunado se declara contente. A baixa capacidade crítico-analítica dos jovens pode até ser um triste reflexo do déficit educacional, mas ela não pode levar à acomodação – rumo esse muito fácil de ser tomado tendo em vista os bons ventos apontados pelas pesquisas. Nossos jovens precisam ter muito claro que as escolas brasileiras estão descompassadas com a realidade, especialmente a do mercado de trabalho.

Um bom sinal de alerta é utilizada pelo psiquiatra Içami Tiba em suas palestras: nossos jovens, que se acostumaram a estudar a poucos dias das provas, nunca encontrarão um emprego em que só se trabalhe na véspera do dia do pagamento. Além disso, a alta competitividade cria uma nova espécie de darwinismo: somente os mais capacitados sobrevivem no mercado de trabalho. A educação formal já não é suficiente para destacar um currículo entre outros e faz-se imperativo estimular toda e qualquer complementação. O primeiro conselho aos jovens: é preciso fazer a maior quantidade possível de cursos extracurriculares que, se se souber como e onde procurar - a começar pelo site do CIEE -, poderão até sair de graça.

Outro conselho, e talvez este seja o mais importante, é batalhar para conquistar um estágio, deixando de lado a confortável obrigação de só estudar. Vale notar que até o ingresso no mundo do trabalho será facilitado, pois a exigida “experiência prévia” não conta muito nos processos seletivos para estágio. Uma vez contratado, o estudante poderá complementar com a prática a teoria aprendida na escola. E mais: o dia-a-dia em ambiente real de trabalho possibilita um contato muito enriquecedor, se bem aproveitado, com profissionais experientes, além de estimular a aquisição de posturas e comportamentos valorizados no ambiente corporativo. A vivência na equipe e os contatos com outros colegas representam ótimas oportunidades para troca de experiências e informações diversificadas que não se limitam à área de especialização.

Pode ficar a pergunta: depois de concluído, o estágio poderá ajudar na obtenção do sonhado primeiro emprego? A resposta deve ajudar na decisão de afastar o comodismo e partir, o quanto antes, para a capacitação prática: 64% dos estagiários do CIEE são efetivados no pós estágio e um número crescente de recrutadores confessa que está considerando o estágio como uma valiosa experiência anterior.

O autor, Luiz Gonzaga Bertelli, é presidente executivo do Centro de Integração Empresa-Escola - CIEE, da Academia Paulista de História - APH e diretor da Fiesp