Todo dia a cena se repete na esquina do Calçadão da Batista de Carvalho com a rua 13 de Maio: por volta das 18h, assim que Maria Madalena Silvério, 48 anos, monta sua mesa para começar a oferecer seus sonhos, uma fila se forma em poucos segundos. O lugar, movimentado pelas pessoas que saem do trabalho nas lojas do Centro de Bauru e por outras que buscam os pontos de ônibus da avenida Rodrigues Alves, é estratégico e foi adotado há 4 anos pela ex-diarista que sustenta a família com seus quitutes.
“Não vou para casa sem comer um sonho dela”, conta a vendedora Fabiana Tenório dos Santos, 21 anos, que trabalha em uma loja do Calçadão. Ela não poupa elogios à iguaria. “É o melhor sonho que eu já comi”, declara. O protético Alexandre Cunha Moreira, 25 anos, também é freguês. “Sempre passo aqui quando saio do trabalho. Se a fila não está muito grande eu compro”, diz.
Vendidos a apenas R$ 0,70 a unidade, os sonhos feitos diariamente por Maria Madalena são generosos e oferecidos em quatro sabores: creme, brigadeiro, doce de leite e goiabada. O freguês ainda pode ter o seu doce polvilhado na hora com açúcar e canela, se desejar.
A atendente Sandra Fonseca, 44 anos, explica porque pára para comprar um sonho sempre que passa pela esquina no final do dia. “É bom, gostoso e barato”, define.
Maria Madalena começou a fazer sonhos para vender há dez anos após, segundo ela, se cansar de trabalhar como diarista. “Tinha muitas casas para limpar, eram casas grandes, eu estava cansada”, lembra. Religiosa, pediu a Deus um trabalho melhor e foi atendida.
A “resposta” veio, coincidentemente, num dia 1 de maio, quando, de acordo com Maria Madalena, ela percebeu que poderia usar o seu talento na cozinha para ganhar dinheiro. “Eu tinha pensado em fazer os sonhos, mas achava que não ia vender. Foi Deus quem me guiou”, conta. Desde então, não trabalhou mais como diarista.
Maria Madalena conta que aprendeu a fazer os sonhos sozinha, depois de acertar uma receita que ela havia errado várias vezes. Ela não revela quantos sonhos faz por dia, mas a julgar pelas quatro embalagens grandes cheias de doces que transporta no ônibus, do Núcleo Bauru 22, onde mora, até o Centro da cidade, não são menos do que 180 doces. “Fico aqui até vender todos, às vezes vou embora às 20h, às vezes um pouco mais tarde, depende do movimento”, explica. Ao seu lado, Sebastião Bento, 50 anos, um amigo da igreja, ajuda a lidar com o dinheiro, fazendo o troco para que ela possa manipular o alimento corretamente.
Generoso
O preço, tão generoso quanto o recheio dos sonhos, não atrapalha os negócios, segundo Maria Madalena. “É barato mesmo, mas dá para fazer. Por aqui passa muita gente que nem sempre tem muito dinheiro. Se eu aumentar o preço, as pessoas não vão poder comprar, não vão poder levar para as crianças em casa. Também tem muito estudante que passa aqui, eu prefiro fazer esse preço”, conta.
O valor dos doces não impediu Maria Madalena de sustentar a família, agora formada por ela e duas filhas, uma de 11, outra de 13 anos. “Tenho mais uma filha de 20 anos que acabou de se casar. Criei as três sozinha, primeiro como diarista e depois vendendo os sonhos”, afirma com uma pontinha de orgulho.
O sucesso dos sonhos de Maria Madalena parece longe de acabar. Ontem, as estudantes Pamela Martins Corrêa, Lívia Matos Castanho e Juliana Braidoti Rodrigues, todas de 17 anos, viram a fila diante da mesa da vendedora de doces e pararam para conferir. Minutos depois, cada uma com um sonho na mão, estavam felizes com a decisão. “É muito bom, vamos virar freguesas”, disseram em coro.